Quando o cosmonauta Yuri Gagarin viajou ao espaço e se deparou com o nosso planeta, visto de cima, informou: a Terra é azul! Foi a primeira vez que o ser humano, desde que deu as caras por aqui há estimados 300 mil anos, enxergava sua casa a partir desse ponto.
Gagarin, que era russo, um astronauta bem treinado pela então poderosa União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, também era um estratégico soldado de um modelo de sociedade que buscava conquistar corações e mentes pelo mundo. E conquistar o espaço ajudava, bem mais que guerrilhas, nesta missão.
Como bom comunista, e peça-chave do marketing de um dos maiores confrontos ideológicos que a Humanidade experimentou, poderia ter dito que a Terra era... Vermelha!? Mas não, óbvio. Não era essa a cor que seus olhos viam. Não pense com isso que aquele jovem herói teria sucumbido aos encantos do rival. Afinal, azul é uma simbólica cor do arqui-inimigo, ainda mais poderoso.
De cima, solitário, diante do espanto e do encanto da imensidão, mesmo com todas as influências de belicosidade que a imbecilidade de uma guerra produz, não viu socialistas e capitalistas, nem Mickey ou Mishas, nem bolcheviques, nem Wall Street, foices, martelos, big macs ou o Superman.Viu seu lar, um lugar "maravilhoso e incrível" e sem divisões, e da cor azul. Simples assim. Daquele posto privilegiado poderia ter elaborado uma reflexão; se acontecer algo ali, seja por uma ameaça externa (asteroides, deuses ou ETs) ou, o mais provável, uma doença interna (nós mesmos, com doses cavalares de ganância, tirania e burrice), todos perdemos.
Trazer uma frase do auge da Guerra Fria para contribuir com a atual realidade brasileira pode parecer estranho, mas permita-se concentrar no melhor dessa analogia. A escancarada visibilidade e algumas punições, mesmo que ainda seletivas, da podridão que, em regra, rege o modus operandi da política e de parte substancial da economia, independente de governos, partidos ou época, e o desestímulo ao jeitinho nosso de cada dia, podem transformar esse limão em limonada.
É fato que, corrupção à parte, existe ainda nesse imbróglio todo um conflito mal resolvido no campo das ideias, na luta de classes e em questões menos nobres como a ampliação do controle geopolítico e a velha tradição predatória de acumulação de grana, bens e poder sob gritantes custos sociais.
É fato também que boa parte dos agentes multiplicadores desses embates não constroem novas saídas, apenas devoram e regurgitam, num círculo infinito, aquilo que arcaicos mentores excretam, sem qualquer filtro de civilidade. Assim, a intolerância, não com os males, mas com o outro, se exacerba, e nos cega.
Ao elevar nosso olhar um pouco acima dessa atmosfera, não veremos apenas o azul que deu gancho a este artigo, ou o verde e o amarelo tão tristemente desbotados. Enxergaremos todo um arco-íris do qual este país é feito.
Somente compreendendo essa rica pluralidade de cores e suas infindáveis matizes é que chegaremos ao pote de ouro que, desesperadamente, buscamos encontrar a cada eleição.
O autor é jornalista, formado pela FAAC/Unesp. Pós-graduado em Ciências da Comunicação pela ECA/USP, atua como assessor de Imprensa da Universidade de São Paulo, câmpus Bauru. É diretor do Sindicato dos Jornalistas Profissionais no Estado de São Paulo. lvbauru@gmail.com.