Falar de irmão é provocar, com ampla antecipação, o clichê de que embora sanguíneos, carregamos condutas e passos de largas diferenças. Desde pequenos, ele e ela ganhavam dos pais o brinquedo à altura e cor da idade. Pés e mãos ágeis cedo assumiram pedais e guidão da bicicleta. Álbum de figurinhas? Cada qual com o seu. Até os quartos eram separados. Tevê por assinatura, notebook, internet e mais, dormiam sob o conforto do ar condicionado privativo. Os perfumes, os jogos, o entretenimento se conjugavam na gramática narcisista da primeira pessoa do singular.
A adolescência crescia com ares de conversas iniciadas sob vontades desadoradas, tal qual uma vazante calafetada com pressa raivosa. Um oi breve daqui, um obrigado acertado na obrigação, um gesto monossilábico de lá. Os pais? Ocupados, é claro, na demanda dilatada dos dias. Quando todos - raro de se ver - reuniam-se na sala, a mesa enchia-se da claridade agitada dos celulares. Uma profusão de cores e sons num brilho hipnótico. Acostumados a ver a vida embalada de tamanhos e formas de acesso irrecusável, poderiam passar horas e horas esquecidas andando entre estranhos, no shopping, que um cheiro de sola nova enchia a casa. Aos dezoito, carros, faculdades particulares, os dias lhes piscavam convites, caminhos, facilidades. Ao final do dia, poderiam prolongar a noite indormida nos bares da cidade, selfiando alegria postiça nas redes sociais.
Antes, falavam-se, uma vez ou outra, nos aniversários. Moravam na mesma cidade. Os pais se admiravam por reconhecer no riso e no gesto deles suas linhagens. O jeito de conversar, de andar, revelavam uma verdade mais afastadora do que acolhedora. A migalha do tempo pelo qual passaram juntos, dos brinquedos não compartilhados, dos sonhos inauditos à mesa de um esperando partilhar a opinião do outro esclarecem bem o mérito do destino. Em sua igual condição de irmão, não subiram em árvores, não colheram e chuparam frutas juntos, a febre de um não ardeu no outro. Desgarrados do chão, da terra, imunes à realidade fraternal adulta. Com a morte da mãe, olhavam-se com distância precavida de uma calçada esburacada, com o olhar lasso de uma rua impedida. Assim, foram se afastando, se afastando, como um viajante de destino passarinhável que, cumprindo o rito da chegada, compreende as distâncias e as partidas próprias dos laços humanos, recusáveis de explicação.
Certos acontecimentos não se cicatrizam no mundo e muito menos em nós. Do sim ao não, do riso ao pranto ter um irmão, e não senti-lo supera qualquer palavra em estado de manual, impossibilita atualização dicionarizada. Ter um irmão, e não senti-lo é conviver com aquelas vinte e seis letras sem expansão alfabética.
Agora, no sumo das experiências, questiona-se sobre o que teria faltado? O que disseram um para o outro que se perdeu? Qual a palavra que resta? Antes tivesse havido a palavra, antes existissem cal, tijolo, cimento e areia no terreno abandonado; antes houvesse conteúdo na página em branco; antes colocasse coisa nova na prateleira vazia, talvez, os moveriam ao afeto estacionário; tanto que se encontram aqui como dois inquilinos estranhos de um mesmo prédio. A doença do pai sedimentou a separação.
Perdia-se um pai para a morte, um irmão, para a vida.
O autor é professor de Língua Portuguesa.