Em 10 de outubro comemora-se o Dia Mundial da Saúde Mental, dia voltado a ações educativas que visem a conscientização e a defesa de políticas coletivas contra a estigmatização do sofrimento psicológico. Nos dias atuais, muito tem se falado sobre a temática: fala-se em "terapia para todos", vê-se o uso expressivo de remédios psiquiátricos entre as pessoas e, continuamente, defende-se a presença do profissional psicólogo nos mais diversos espaços sociais. Mas o que afinal seria "saúde mental"? Seria algo que se conquista? Algo que se compra? Seria ela sinônimo da ausência de sofrimento individual?
Diante de tais questionamentos, nos parece importante defender desde já a tese de que a saúde mental não se faz isolada da vida. A Lei Orgânica de Saúde, alicerce do SUS, aponta em seu terceiro artigo a impossibilidade de pensarmos a saúde sem que nos deparemos com o acesso da população a alimentação de qualidade, moradia, saneamento básico, trabalho, renda, educação, mobilidade urbana e lazer. O tema da saúde encontra-se, antes de tudo, determinado pelo problema do acesso das pessoas aos bens e serviços essenciais e, deste modo, a discussão sobre saúde mental necessariamente perpassa aspectos políticos que tocam a organização coletiva da sociedade.
Como podemos pensar em saúde mental em 2022? Após dois anos marcados pelas quase 700 mil mortes por covid-19, pelo atraso na compra de vacinas, pela defesa de tratamentos comprovadamente ineficazes, pelo aumento da fome, da miséria e da barbárie? Como explicar a crise global que vivemos, na qual assistimos inertes o aumento de aproximadamente 25% de casos de transtornos mentais, como ansiedade e depressão (OMS, 2022)?
Como pensar a organização dos serviços de saúde em nossa cidade, que observa um número cada vez maior de pessoas sem moradia e trabalho, habitando a praça Rui Barbosa ou pedindo trocados nos semáforos da avenida Getúlio Vargas?
Bauru sofre no momento presente com a radical precarização dos serviços públicos de saúde e, no campo da saúde mental, depara-se com um problema histórico ligado à inexistência dos CAPS III, os Centros de Atenção Psicossocial voltados para o acolhimento 24h de pessoas em sofrimento psicológico. Uma cidade com mais de 370 mil pessoas como a nossa deveria ter, no mínimo, 2 CAPS III e 5 CAPS II, mas o que encontramos na prática são apenas duas unidades tipo II que tentam acolher um contingente de usuários muito maior que o possível.
Para além dos serviços de saúde, a população de Bauru padece com o estrangulamento de espaços coletivos de cultura e lazer que promovam de forma gratuita e coletiva o direito à cidade. Padece com a ausência de infraestrutura adequada que garanta às pessoas que vivem nos bairros periféricos acesso digno ao centro da cidade. Diante da falta de emprego, a juventude bauruense adoece precocemente nas empresas de telemarketing que se colocam como única alternativa de trabalho para muitos.
Assim, o dia mundial da saúde mental, mais do que uma data comemorativa, nos convida a pensar criticamente como promovê-la e a lutar pelo serviço público de qualidade para o atendimento da população, movimento pautado desde 1987 pela cidade de Bauru através do II Congresso Nacional de Trabalhadores em Saúde Mental e seu emblemático documento, o "Manifesto de Bauru". Portanto, nos convida a construir, na semente do velho, algo novo.
Em um mundo em que vivemos desacreditados, esperançar por saúde é demasiadamente incômodo, afinal, já em muito tempo deixamos de entender efetivamente o que é uma vida digna. No entanto, é nossa responsabilidade resgatar a história dessa cidade, palco de luta e transformação da saúde em todo o território nacional. Assistimos, justamente aqui, germinar a luta antimanicomial, nos mobilizamos pela reforma psiquiátrica, construímos um manifesto e assim transformamos o que significa o cuidado. "Por uma sociedade sem manicômios!" foi o que gritamos em 1987 e, hoje, através da recuperação da nossa história, podemos gestar um futuro mais humano e desenvolvente, um futuro de direitos para todos os trabalhadores, familiares e usuários da Rede de Atenção Psicossocial.