09 de julho de 2026
Tribuna do Leitor

A grande fortuna e sua interação com a sociedade

Cesar Augusto Teixeira de Carvalho - Prof. Dr. aposentado do Dep. de Engenharia Civil - Faculdade de Engenharia da Unesp - Bauru SP
| Tempo de leitura: 4 min

Muita gente ainda torce o nariz quando vê um ricaço curtindo a vida, navegando em seu lindo iate de 100 m de comprimento. Mas, que mal ele faz à sociedade se conquistou tudo isto honestamente? O único mal que imagino é aquela vontade danada que desperta na gente de querer estar lá no lugar dele. Entretanto, é bom lembrar que se não existisse o ricaço com seu Iate, não existiria também os empregos diretos que proporciona no próprio Iate, tais como: do pessoal da tripulação e manutenção; os da cozinha e faxina... fora os empregos indiretos que estão nos portos a espera dele atracar. Se não existisse o Iate, também não se beneficiariam do trabalho as pessoas que o projetaram e as que o construíram, bem como todas aquelas ligadas as demais atividades associadas a ele, como: no setor de vendas, organização, comunicação e transportes. Como se vê, apesar da "grande fortuna" ser uma aberração social, ela pode gerar benefícios aos outros, e não há como condená-la caso tenha sido obtida dentro da lei. Se não foi, ai é um caso dos agentes da justiça atuarem e, se ninguém atuar, então a falha não é do sistema capitalista, mas falha humana dos que não estariam cumprindo sua função de promover a justiça.

Por outro lado, os socialistas gostam de dizer que se alguém fica rico isto foi conquistado prejudicando os pobres. Entretanto, "um ganhar e outro perder" nem sempre ocorre uma vez que a riqueza pode ser criada. Por exemplo: se alguém investe com criatividade, numa fábrica de roupas "bonitas & baratas" e tem sucesso, isto não causa nenhum prejuízo aos pobres. Ao contrário, pode até ajudá-los com os empregos na fábrica, bem como com as roupas bonitas e baratas que ela produz. O que ocorreu foi que a riqueza gerada pela fábrica ainda não existia, estando apenas latente na espera de ser estimulada pela criatividade e investimento. Note que se for eliminada esta riqueza gerada pelo investimento só para não deixar o rico mais rico, os pobres seriam os que mais perderiam.

Esta capacidade de criar e empreender é própria do capitalismo, onde sempre aparecem investidores atrás de lucro, gerando atividades que irão beneficiar muitas pessoas. No socialismo isto não acontece, pois não existe iniciativa privada e sua concepção está associada ao princípio da "igualdade social", com atendimento da população nas questões básicas, sem preocupação de se criar uma vida mais dinâmica, diversificada e interessante.

Assim, é característica do socialismo ser um Estado apenas burocrático, onde seus componentes são escolhidos mais pela fidelidade ideológica do que por terem tido alguma experiência criativa ou empreendedora. Creio até que se tivessem este tipo de experiência com algum sucesso, seria mais provável que estivessem numa sociedade capitalista usufruindo do sucesso e da liberdade.

Vimos que a riqueza capitalista pode ser benéfica, mas, seu crescimento sem fim é questionável, podendo ser até prejudicial à sociedade. Neste caso, há quem defenda a ideia de se taxar a riqueza a partir de um certo valor que a caracterize como "grande fortuna", taxa esta que aumentaria de forma gradual a medida que o bolo crescesse. Acho pertinente, pois mantém alguma liberdade de acumular - dando vazão às diferenças humanas e naturais que sempre existem -, ao mesmo tempo que também vai desestimulando seu crescimento ilimitado. No caso das pessoas a ideia se encaixa uma vez que não é preciso ser riquíssimo para ser atendido em suas necessidades ou desejos por mais exagerados que sejam. No caso das empresas também se encaixa, pois o capitalismo funciona melhor com uma grande quantidade de pequenas e médias empresas concorrendo entre si, onde a competição força a melhoria dos preços e a qualidade dos produtos. Outra opção seria darmos condições à existência das grandes e gigantescas empresas, onde se corre o risco de monopólio. Em geral, isto seria danoso à sociedade uma vez que acabaria anulando a competição, o que teria reflexos negativos nos preços, na criatividade e na qualidade dos produtos, além de potencializar a exploração do empregado.

Conforme já me manifestei no texto "Herança & Desigualdade", publicado no JC em 3/7/2017, num País carente e diversificado como o nosso (o Brasil está entre os 10 Países mais desiguais do mundo), seria bom começarmos já a instituir programas específicos para reduzir estas desigualdades, direcionados às camadas mais pobres. Apesar da desigualdade exagerada ser um problema, é bom ter em mente que a "igualdade" nem sempre é um "bom sinal", pois a grande maioria dos Países em que o povo vive próximo da igualdade, isto acontece na pobreza, donde se inclui os Países socialistas. No capitalismo, alguma desigualdade social sempre vai existir devido às diferenças naturais entre as pessoas e o ideal seria minimizar estas desigualdades, mas mantendo o estímulo (lucro) para a criação e investimento. Como vimos, este estímulo é que propicia o aumento da riqueza e ajuda a alavancar os mais necessitados com os empregos gerados.

Outra ajuda seria direcionar os recursos da taxação das grandes fortunas, aos programas específicos relativos à diminuição da desigualdade. Assim, o bom senso sugere um equilíbrio na sua taxação, levando em conta que: não taxar de menos que estimule o crescimento sem fim da riqueza; nem taxar demais que provoque uma fuga de capitais, com o País perdendo em investimentos, empregos e impostos.