08 de julho de 2026
Tribuna do Leitor

José Benedicto Pinto

Marcondes Serotini
| Tempo de leitura: 3 min

"Sete anos de pastor Jacob servia

Labão, pai de Raquel, serrana bela

Mas não servia ao pai, servia a ela,

E a só ela por prêmio pretendia" - Camões

Com sinceridade e com a mais alta alegria é que me vanglorio de ter ouvido esses versos, aula sim aula não, lá pelos idos dos anos 70, nos bancos escolares da Cussy Junior, sob a autoridade de Duda Trevizan, José Luis Garcia, Paulinho e o "Seo" Antonio. Sim, esses senhores é que faziam a escolta sublime para o garoto de 15/16 anos, louco por futebol e música que, dessa maneira, ouvia atento o Professor Benedicto explicar poeticamente a literatura portuguesa.

Sim, me foi professor não de língua portuguesa, muito menos de literatura brasileira. Por ele e pela língua de Camões e Fernando Pessoa, que não a nossa própria, os ensinamentos foram muito mais do que a letra da disciplina propriamente dita.

O privilégio dessas aulas repercutem ad infinitum dentro da alma aprendiz de mim, que ouso escrever palavras, frases e mostrar aos leitores essa faceta de um dentista de ofício. Ele e Gino Crês, Sérgio Lhamas, Paulo Neves, Jefferson César, Jonas, Amandio, Acasto, Batochio, Pinho, Luis Carlos Zezo, Cristina, o então incipiente Robinson, Tico, Índio, Déps, Circuito, Muricy Domingues, Luciano, Taiúva, Marcelino dentre outros - e aqui vai de uma vez a homenagem completa - mostraram a diferença que o saber faz na vida nossa.

As disciplinas todas têm o seu valor intrínseco e pobre daquele que pensa que aprender Trigonometria seja uma perda de tempo e saber que o tchernozion da Ucrânia é o solo mais fértil do mundo não fará falta em algum momento.

Porém, diante deste desfile de celebridades do conhecimento que nos era ofertado tanto na Cussy Junior como na Rua Bandeirantes - sua paralela - a aula que mais encantava era daquele "Machado de Assis" da Sem Limites.

Dar aula de Literatura Portuguesa a adolescentes era e é tarefa inglória, mas para ele não. Com a ajuda da própria massa de trabalho, ou seja, a poesia, ele se transformava num vate de taverna, ou num bardo atemporal para, num átimo, declamar obras dos poetas de maneira a nos impressionar para que o interesse fosse estimulado.

O brilho nos olhos deste professor passando aos alunos essas noções de métrica, rima e talento já bastava, pelo menos a esse aluno, que via naquela entrega a faísca indispensável àqueles que se dedicam à arte de ensinar. O talento dos artistas que com rigor escrevem, pintam, tocam ou cantam, estava ali na minha frente, escancarado pra quem quisesse ver. E eu vi. O encantamento foi tanto que anos depois, me meti a escrever também. Lógico está que a culpa é desse Benedicto, que agora se foi, deixando em mim uma imensa gratidão, que me enche de saudade.

Quisera eu ver novamente aquelas aulas, dentro da sala de aula chamada de vaticano, por abrigar de duas a três classes num só espaço, fazendo a apresentação adquirir ares de palestra; daquelas ministradas por celebridades convidadas. Sim. Éramos os convidados a participar de momentos que se tornariam eternos em nossas caminhadas. E quando vemos que um destes nossos mentores se vai, cabe aqui este momento de reflexão profunda.

A importância deles em nossas vidas é inestimável, porque eu sei e ninguém tira isso de mim que Jacob serviu Labão por sete anos, mas não servia a ele. Servia a ela, Raquel, serrana bela. Obrigado, professor José Benedicto Pinto.