Pedro e Bino. Como os dois amigos caminhoneiros se comportariam diante da greve? Quase vejo Pedro, falando alto, que "a gente tem que parar mesmo pra fazer valer nosso direito. Não dá mais assim, Bino. Não-dá-mais!". E Bino, mais velho e ponderado, ainda em dúvida: "Sei não, Pedro. Isso tá me cheirando encrenca e da-que-las!".
Para a geração que só conhece a nova versão de "Máquina Mortífera", agora em série, Pedro e Bino foram uma espécie de Martin Riggs e Roger Murtaugh das estradas brasileiras. Eles se metiam em aventuras e enrascadas muito por conta do jeitão espontâneo e pouco paciente de Pedro, assim como é Riggs. A química dos dois funcionava justamente porque uma personalidade mais irritadiça se completava com a outra, bem menos amalucada (Bino/Murtaugh).
Tenho lembranças da primeira fase de "Carga Pesada". É nela que Pedro (Antônio Fagundes) e Bino (Stênio Garcia) se tornaram muito conhecidos do público. E iam fazendo o frete cortando o estradão (como na letra do tema de abertura, "Frete", de Renato Teixeira).
Pedro estaria nos protestos e Bino, também - deixando-se vencer de tanto Pedro falar em sua orelha. Pedro e Bino já sabiam, naquele tempo de ficção inspirada na realidade, que a coisa é desafiadora para os caminhoneiros. O que ocorreu agora, fora das telas, foi isso: a paciência com os preços do combustível transbordou, o que também leva a exageros.
Esses governos desgovernados que o Brasil normalmente costuma ter são, de fato, um teste de paciência a todos os brasileiros, caminhoneiros ou não. O País é tocado por gente pouco familiarizada com as classes econômicas da vida. A esse pessoal falta um pouco mais de amassado na lataria. A mim também: não imagino os perrengues da estrada tornada carreira, mas respeito quem dela vive.
Conheci um caminhoneiro uns dois anos antes dele tombar seu possante e morrer numa curva distante. Quando estava com a família, gostava de ficar encolhido por lá e mal pisava na esquina. Claro: sabia que, horas depois, só veria estrada pela frente. Pedro e Bino estariam na greve, mas, em algum momento, o próprio Pedro diria: "Acho que está na hora da gente voltar".
No fundo, todo caminhoneiro almeja o retorno. De preferência, com um ganho decente para sustento e diversão. Apenas quer que os políticos cumpram o que prometem em campanha: vida digna. Aí os políticos se elegem, mas a carga continua pesada demais.
O autor é editor do JC.