09 de julho de 2026
Tribuna do Leitor

Dr. Tibiriçá e a tortura de estado

Márcio M. Carvalho
| Tempo de leitura: 3 min

Em meu artigo de 20/05, cito os radicais da esquerda e da direita e sua semelhança em forma de agir, quanto à incoerência de atribuir aos outros como execrável aquilo que também fazem. Nesta perspectiva, citei o terrorismo de estado, exemplificando com o expoente cel. Brilhante Ustra, que foi o comandante do DOI CODI (polícia política) durante os anos 70 a 74 e, em contraponto, as prisões e mortes em Cuba e atualmente na Venezuela.

Fui contestado pelo sr. Paulo Boccato, missivista frequente desta coluna, defendendo o cel. Ustra, também conhecido pelo codinome Dr. Tibiriçá, que é citado em 502 diferentes denúncias de tortura, da Arquidiocese de São Paulo. Na Comissão da Verdade, se estima que em torno de 50 pessoas morreram assassinadas ou torturadas no DOI CODI do II Exército durante o período de Ustra.

Pior até mesmo que grupos terroristas modernos, pois neste caso é o estado praticando terrorismo contra seus cidadãos a quem deveriam proteger.

No livro "Rompendo o silêncio", a atriz Bete Mendes narra o sadismo das sessões de tortura comandadas por Ustra. E ainda pessoas inocentes, como o jornalista Luís Eduardo Merlino, morreram por pensar diferente e não denunciar outras pessoas como comunistas e levá-las a morte. Pessoas que, como ele, cometeram crime de ter opinião política diferente, das do coronel Ustra e seus homens.

Ustra escreveu um livro onde fez sua defesa, explicando que aquele período foi um período de guerra contra "terroristas" e que "o sangue que ele tinha na farda seria de combates". No entanto, nada explica os jornalistas Merino, Herzog, a atriz Bete Mendes, o operário Manuel Fiel Filho e muitos outros sem nenhum vínculo com a luta armada.

E mesmo que fossem terroristas, até a convenção de Genebra, respeitada pelo exército brasileiro e por todos exércitos civilizados do mundo, garante a presos capturados tratamento digno e sem tortura física ou psicológica. Daí concluir que ele, com estas atitudes, desonrou a farda do Exército brasileiro, incompatível com a tortura e terrorismo de estado.

Quanto à ameaça de processo da família de Ustra, sr. Boccato, vou esperar na fila, já que ela é grande. Ademais, nenhum dos comentários sobre Brilhante Ustra é inédito e sim são informações públicas, retiradas não só da imprensa, como até de comissões como a da Verdade ou da Arquidiocese de São Paulo.

Quanto à verdade, sr. Boccato, ela está sendo a primeira vítima da sua guerra ideológica radical, que chega a acreditar que a boa ação de doar sangue a sua esposa justificam tortura e mortes do coronel, lembrando o vaticínio "aos amigos tudo, aos inimigos nem a lei".

Além disto, sr Boccato, atribuir a condição de Cristão a Brilhante Ustra demonstra não conhecer a verdade das atitudes do coronel, ou as do cristianismo, ou ambas. Desta vez o senhor foi longe demais na sua defesa a tortura do seu amigo chamando-o de fidalgo (sic).

E por falar em verdade, o senhor faltou com ela, dizendo que Brilhante Ustra foi inocentado, já que ele foi condenado em primeira e segunda instância, sendo a sentença não executada devido à Lei da Anistia "ampla geral e irrestrita" que deixou na rua terroristas de esquerda e o terrorismo de estado, protagonizado por Ustra.