08 de julho de 2026
Geral

Humor é 'remédio' em tempos de crise

Tisa Moraes
| Tempo de leitura: 8 min

Jeferson Rosa/Divulgação
"O humor gera identificação entre as pessoas que vivem uma mesma dificuldade e este sentimento é bom. Quando a gente consegue achar graça de algo ruim, é o momento em que a gente consegue relaxar. As pessoas precisam desta válvula de escape para conseguir suportar estas dificuldades." Marcus Cirillo, comediante

"Está mais fácil achar gasolina do que homem que preste". Criada pelo comediante de Bauru Marcus Cirillo, esta foi uma das incontáveis piadas e memes que inundaram as rodas de conversa e as redes sociais nas duas últimas semanas. Imerso em uma crise de abastecimento provocada pela greve dos caminhoneiros, o País soube, mais uma vez, rir das suas mazelas, mesmo que, na vida real, as coisas não estivessem tão boas.

Não foi a única dificuldade do ano de 2018, que já chegou à metade, carregando em sua trajetória níveis ainda elevados de desemprego, recuperação lenta da economia e descrença na classe política diante da corrupção crônica, às portas de mais um processo eleitoral. Mesmo assim, boa parte da população tenta se recuperar dessa ressaca com bom humor e criatividade - e até entusiasmo diante da iminência de mais uma Copa do Mundo, que começa em menos de duas semanas.

O humor, aliás, funciona justamente como o Carnaval e o futebol, para que os indivíduos tenham um momento efêmero e emocional que proporciona um sentido de identidade. "É o velho ditado de 'rir pra não chorar', uma forma de tirar, em alguns momentos do dia, o peso das coisas sérias que nos prejudicam. O humor funciona como uma válvula de escape", analisa Cirillo, que realizou 23 shows em maio, confirmando a elevada demanda por humor no

Brasil.

Ele mesmo enfrentou problemas para conseguir se deslocar de uma cidade para outra em razão da falta de combustíveis que afetou o País, mas, literalmente, não perdeu a piada. Assim como o comediante, o Palhaço Faísca, que também tem no entretenimento o seu ofício, sabe que, para fazer rir, primeiro é preciso saber rir de si mesmo.

"Humor é fundamental, seja para escapar de uma saia justa ou para suportar uma situação complicada, financeira ou emocional, e ter condições para dar a volta por cima. Há cinco anos, por exemplo, minha mãe morreu e eu tive que fazer três shows no dia seguinte", revela.

Samantha Ciuffa
"A gente é que tem que cuidar da gente, porque ninguém vai fazer isso por nós. A rotina do dia a dia é muito difícil e só encarar o lado negativo não ajuda em nada. A vida vai perdendo o sentido. Vejo muito a capacidade de resiliência no brasileiro, mas, para muitas pessoas, ainda falta conseguir ter espírito mais elevado." Gislaine Aude Fantini, psicóloga

RESISTÊNCIA

A psicóloga Gislaine Aude Fantini também se viu diante de novos desafios quando se desligou do antigo emprego, em que trabalhou com grupos de idosos por longos anos. Hoje com consultório próprio, ela - autoproclamada bem-humorada - se reinventou e segue com atendimento focado na terceira idade, uma população em franco crescimento no País e que, segundo pesquisadores, apresenta índices significativos de depressão.

"É um dom conseguir olhar as coisas pelo

lado bom. É o que eu chamo de resiliência.

Samantha Ciuffa
"Uma vez, um cubano me disse: um povo que sabe rir dos próprios problemas, como o brasileiro, é um povo feliz. A verdade é que o brasileiro aprendeu, desde a época colonial, a viver com muito pouco. Uma das mais fortes identidades musicais do País, o samba veio da precariedade de vida dos escravos libertos, que não tinham emprego ou comida." Zarcillo Barbosa, jornalista

Ciclos se encerram e, se você ficar amargurada, lamentando, a coisa só piora. O mesmo vale para os idosos. Com o envelhecimento, algumas limitações físicas vão se impondo e saber lidar com as adversidades, embora não seja fácil, é fundamental para continuar vivendo bem", aponta.

Além de válvula de escape para os momentos ruins, o bom humor é também instrumento de resistência e contestação, conforme lembra o jornalista Zarcillo Barbosa. Um dos exemplos mais icônicos é o do jornal O Pasquim, que utilizava recursos como a ironia para driblar a censura instaurada durante a ditadura militar, no século passado.

Malavolta Jr.
"Ultimamente, o brasileiro tem perdido um pouco do bom humor, se estressado com coisas simples, que poderiam ser facilmente superadas. Infelizmente, porque, com bom humor, fica mais fácil pensar positivo. É uma terapia que faz com que você aja melhor para fazer as coisas na sua vida darem certo." Palhaço Faísca

"Era um humor corrosivo contra quem pretendia barrar a liberdade de expressão. O humor inteligente é capaz de provocar mudanças e de derrubar até governos. Mas, para a maioria da população, hoje, o humor tem mais a função de fazer bem para o corpo e a mente, para desopilar o fígado", comenta.

Brasil: mitos em xeque

Discursos inflamados e protestos nas ruas desconstroem conceitos tradicionais que definem o País e são encontrados até na literatura

Um povo cordial, hospitaleiro, que vive no país do futuro, abençoado por Deus. Sim, em boa parte do tempo, o brasileiro consegue lidar com suas mazelas com bom humor, mas o acirramento e a polarização dos discursos, a intolerância potencializada pelo modo de se relacionar via redes sociais, a recente convulsão nacional que vem levando, de maneira intermitente, milhares de pessoas às ruas desde 2013 são alguns indícios de que os conceitos tradicionais dados pelos livros e pela música para definir a nação vêm sendo colocados em xeque.

Não passam de mito, apenas? Professor da Unesp de Bauru, Juarez Xavier diz que é preciso recorrer à história para entender como estas ideias se consolidam. "Ao longo do tempo, ocorre o que (o professor e geógrafo) Milton Santos definiu como fabulações, ou seja, processos de construção de narrativas descoladas da realidade", pontua.

Na primeira metade do século 19, lembra Xavier, houve um grande esforço para criar uma representação social brasileira a partir da reprodução de valores da civilização europeia, sem considerar a realidade econômica, política, social e cultural do País. "E, ainda hoje, esta fabulação segue agarrada ao imaginário social de uma parcela importante da população brasileira", acrescenta o professor, que possui doutorado em integração da América Latina, com ênfase em comunicação e cultura.

João Rosan
Juarez: houve esforço para criar representação brasileira

Ele explica que este momento de negação foi seguido, já no século 20, de um período de glorificação da miscigenação, tendo o escritor Gilberto Freyre como um de seus principais entusiastas. A ideia de que, quanto maior a interação, maior a harmonia social, acabou sendo absorvida por importantes representantes da época, como o historiador Sérgio Buarque de Hollanda.

HOMEM CORDIAL

Em seu livro "Raízes do Brasil", ele definiu a vocação do brasileiro para tratar tudo de maneira emocional. "No livro, o termo 'homem cordial' define o sujeito que traz as contradições e a leitura do mundo para o contexto das relações afáveis e não da racionalidade. Mas os dados sociais não mostram cordialidade no povo brasileiro, da forma como este conceito é compreendido. São quase 70 mil homicídios notificados por ano no País. É mais uma barbárie do que um lugar de relações gentis", pondera.

Já na contemporaneidade, Xavier observa o surgimento de um novo conceito: o do brasileiro empreendedor do próprio futuro, em que aspectos como a concentração do capital e a organização político-social do País não são levados em conta. "Neste sentido, a possibilidade de empreender, para a maioria, acaba sendo uma ficção. Ou seja, ao longo da história, há uma reprodução permanente de fantasias, que vão se retroalimentando", completa.

Manifestações e polarização dos discursos

Uma coisa é certa: as manifestações são um direito fundamental em uma sociedade democrática e uma ferramenta que tem provocado impactos significativos na realidade brasileira. Elas têm demonstrado, principalmente a partir de 2013, que o brasileiro “boa praça” é mais um mito em desconstrução.

Como exemplo de mudanças produzidas apenas nos dois últimos anos, o professor Juarez Xavier cita as medidas econômicas adotadas sob pressão pelo governo federal, o impeachment da presidente Dilma Rousseff, a fragmentação de partidos políticos e a cristalização de posições conservadoras no País.

“Ao mesmo tempo, estas mobilizações, que têm se mostrado bastante complexas, têm arrastado para o cenário político segmentos sociais que passaram a questionar aspectos como a desigualdade”, observa. Estas contradições, ele salienta, têm acirrado cada vez mais os debates, que seguem pouco aprofundados, já que, no curto período de democracia no Brasil, a formação político-cidadã da população continua frágil.

“Num cenário como este, a tendência é as pessoas tornarem absoluto o seu ponto de vista. Esta ausência de uma reflexão política mais complexa da realidade, que tem encontrado nas redes sociais um ambiente propício, volta a se acentuar agora, às portas de mais uma eleição no Brasil”, acrescenta.

Justamente por esta dificuldade de aprofundamento, nos últimos anos, o discurso que posiciona a corrupção como o grande problema do País se fortaleceu, sem que fossem consideradas as contradições do Brasil e até mesmo a presença de corruptos no mercado e dentro da própria sociedade, nas pequenas práticas do cotidiano. “É a superfície da corrupção que está sendo enfrentada e não a estrutura. Não há uma reflexão sobre a capilaridade da corrupção e como ela impede o País de superar a desigualdade e combater a concentração de renda”, avalia.