09 de julho de 2026
Articulistas

A facilidade da felicidade

Roberto Magalhães
| Tempo de leitura: 2 min

Nunca foi tão fácil ser feliz. Estrada fartamente mapeada e sinalizada. Não tem como dar errado. E como querer é poder, basta acelerar. Única condição: não tirar os olhos das placas que margeiam o caminho. E são muitas. Nas livrarias, os títulos gritam nas prateleiras: Ame e seja livre! Conheça os segredos da paz interior! Desperte o milionário que existe em você! Comece a viver hoje! Nas smartelinhas, dedos ágeis clicam o Google, nossa estrela guia, que não nos deixa sem respostas. Para quem Nele crê, nada faltará. Em púlpitos religiosos, a prosperidade já vem com código de barras e promessa de entrega imediata. Incrível, a felicidade virou facilidade. É só acelerar, estamos na preferencial. Seria tudo perfeito, não fossem tais bocas simplistas e mentirosas. Pior, perversas.

Vivemos numa sociedade doente que outra coisa não tem feito senão produzir pessoas doentes. Para vender (é só o que interessa), o mercado tem se aproveitado do que temos de pior, a nossa vaidosa cara no espelho.

Despida de sentido, a vida passou a ser regida pela lógica de um consumismo desvairado. Nas fontes midiáticas, insufla-se o pior individualismo, mas silenciados ficam os valores comunitários. Estimula-se a competição desenfreada, mas quase nada se fala do espírito cooperativo. Nenhum interesse tem o capitalismo em construir uma sociedade humanizada, seu único interesse é hiperbolizar produção e consumo.

Preocupado apenas com o que é mercadoria, tudo faz para nos afastar dos conceitos que fragilizam a competição, como ética e fraternidade. Difícil, contudo, aceitar que essa felicidade puramente mercadológica possa nos realizar espiritualmente, simplesmente porque ela nos rouba a dimensão afetiva, a convivência fraterna com o outro.

Essa cultura narcísica, observa Eduardo Gianetti, em Trópicos Utópicos, tem feito com que não nos interessemos pelos chamados "bens democráticos", aqueles possuídos por boa parte das pessoas. Desejamos, isso sim, os "bens oligárquicos", simplesmente por pertencerem a um universo reduzido de privilegiados. São bens posicionais por nos situarem no andar de cima.

Quanto mais escassos, mais desejados. Assim já era em 63 dC , quando Petrônio escreve a obra latina Satiricon, em que um milionário romano confessa esse desejo da diferença: "Só me interessam as posses que despertam no polulacho a inveja de mim por possuí-las". Nada mudou desde então, continuamos querendo, mais do que o bem em si, a inveja que no outro ele possa causar.

Assim, enfeitados por fora, vamos tropeçando, ainda que tenhamos seguido as placas da facilidade da felicidade. "Vem por aqui" continuam insistindo tais vozes condutoras da manada. Gosto do poema "Cântico Negro", do poeta português José Régio, pela devida resposta que dá a esse convite manipulador: "Não, não vou por aí! Só vou por onde me levam meus próprios passos. Prefiro escorregar nos becos lamacentos, redemoinhar aos ventos, como farrapos, arrastar os pés sangrentos a ir por aí.

Se vim ao mundo, foi só para desflorar florestas virgens e desenhar meus próprios pés na areia inexplorada! O mais que faço não vale nada". Se é para seguir alguém, melhor repetir José Régio: "Não, não vou por aí!"