08 de julho de 2026
Articulistas

Mãos

Alexandre Benegas
| Tempo de leitura: 2 min

Voluntário, auxiliava o padre em seus afazeres litúrgicos. Conhecia os rituais, tamanha dedicação. Apascentava os mais necessitados. Recepcionava com audição acolhedora pecados inconfessáveis de irrestrito pecador. Envergava-se nas arrecadações de cestas básicas no amparo a instituições sociais. Entre tudo o que estava em seu controle, somente um o dominava. Os cochichos dos fieis acerca de sua mão. Carregava mãos inchadas. Despachava nas unhas o pus proveniente da desconhecida infecção. Fissuras amareladas por fungos, instalados na umidade entre os dedos, emprestavam-lhe à secreção um ar de icterícia. Uma pele escamada, perceptivelmente irritada.

Longe de ser hanseníase, de ser um leproso. Apenas uma vermelhidão, que acompanhado da coceira, rendia-lhe saldo negativo para comentários. Incomodado com a altitude e com a latitude da fala alheia serpentária, buscou um médico. Nada grave. Apenas uma circunstancial queda de imunidade. Com o tempo e com correta administração medicamentosa, tudo se resolveria.

Objeto de estudo o bicho homem! À mão que alimenta, que alberga o necessitado, também hostiliza, aciona, sob o intrépido cano das metralhadoras, o disparo, o estouro. Às mãos, de antemão, da família perturbada a orar pelo filho livrar-se das drogas. Às mãos rotas e pestilentas dos políticos destruidores de sonos e de sonhos. Às mãos invasivas dos estupradores e dos pedófilos. Às mãos aneladas dos pastores, mercantilizadores da fé. Às mãos céleres do agiota. Às mãos pavlovianas dos dadores de aulas que adestram para decorar a quem decora sem aprender. Às mãos dos homens poderosos que compram bajuladores no lugar de amigos. Às mãos dos ansiosos que compram a cama, mas não o sono. Às mãos do agente de viagens que vende pacote turístico, e não alegria. Às mãos na contramão.

Às mãos da vó, que recepcionam o pedido de benção do neto. Às mãos da mãe que, em afetivo gesto, diz: Leve um agasalho, meu filho. Às mãos que batizam. Às mãos do semeador, cujo trabalho se rende à justeza da colheita. Às mãos da educadora capazes de conduzir aprendizado ao aluno, às mãos do mecânico reparador de autos, às mãos da esposa receptora dos carinhos e gestos nupciais, às mãos do fiscal dos vestibulares, responsável por fechar os portões pontualmente às 13h. Às mãos dos árbitros despachantes de faltas e expulsões. Às mãos analfabetas, às mãos excluídas, às mãos negadas ao convite matrimonial, às mãos rejeitadas à dança. Às mãos, nos dadas pela singela razão de recepcionar o que de bom o outro possa oferecer aos nossos corações.

Após missa dominical, o padre ofereceu à comunidade uma festa em prol das reformas da igreja. Às mãos, luvas. Por medo ou por receio, ninguém se aproximou dele. Sentado. Sozinho ficou durante o festejo dançante. Em casa, despe-se para dormir. O sono demora. As mãos, reunidas de vontades, convocam dedos mensageiros a acariciarem os pentelhos em círculos concêntricos, formando tranças dispersas, até avançar com os dedos, em obediente alegria, num gesto de ir e vir.