08 de julho de 2026
Articulistas

A utilidade do inútil e o nosso atraso

Pedro Grava Zanotelli
| Tempo de leitura: 4 min

Em 2011, quase no final do governo, Lula assinou projeto de participação do Brasil, como Estado-membro, no Observatório Europeu do Sul (ESO, sigla em inglês), uma associação de 14 países que há 50 anos opera, no Deserto do Atacama (Chile), um observatório astronômico que reúne os maiores telescópios mundiais baseados em terra. Entre eles o "Very Large Telescope", tido como o mais avançado do mundo. A participação custaria R$ 1 bilhão, a ser pago em 10 anos. O projeto devia ser ratificado pelo Congresso, mas este só o aprovou quatro anos depois, em 2015, e os presidentes Dilma e Temer não assinaram e nem pagaram as cotas. Resultado: o consórcio suspendeu a participação do Brasil. Agora os cientistas brasileiros só poderão participar de pesquisas concorrendo com outros interessados numa rigorosa seleção. Pelo acordo o Brasil participaria do patrimônio do observatório, com direito a voto.

A suspensão, dias atrás, provocou dois tipos de reação: um lamentando e dizendo que mais uma vez o Brasil perde a oportunidade de caminhar junto com os países mais adiantados em pesquisa e tecnologia; o outro de que foi bom porque, com mais de 27 milhões de brasileiros sem trabalho, com muitas famílias sem ter onde morar e pessoas morrendo nas filas dos prontos-socorros, não era hora mesmo de gastar um bilhão de reais para ver estrelas. Na rede social e mesmo no Congresso surgiram muitas expressões depreciativas.

Wladimir Lyra, hoje astrônomo, mestre e doutor pela Universidade de Uppsa - Suécia, lembra que quando optou pelo estudo de Astronomia, muitos lhe disseram: "Astronomia? Mas por que? Vai viver de estrela? O que vai comer, poeira cósmica? Por que você não faz alguma coisa que dê dinheiro?" Até faz lembrar Olavo Bilac com: "Ora (direis) ouvir estrelas! Certo perdeste o senso!"

Com certeza essa segunda reação confere com a da maioria da população, que vive mais voltada para o utilitarismo, o que dá renda, o que dá lucro e considera como inúteis os saberes fundamentais no cultivo do espírito e no crescimento civil e cultural da humanidade. É o que escreveu o filósofo italiano Núcio Ordine no livro "A Utilidade do Inútil", publicado aqui no Brasil em 2016. Diz ele: "No mundo em que vivemos, dominado pelo homo aeconomicus, dói ver os seres humanos, que ignoram a desertificação crescente que sufoca o espírito, consagrarem-se exclusivamente a acumular dinheiro e poder. Dói ver triunfarem, nas redes de televisão e na mídia, as novas representações do sucesso, encarnadas no empresário que consegue criar um império blefando ou no político impune que humilha um parlamento fazendo votar leis de interesse pessoal. Dói ver homens e mulheres ocupados numa corrida louca em direção à terra prometida do lucro fácil, enquanto tudo que está ao seu redor - a natureza, os objetos, os outros seres humanos - não lhes suscita interesse algum".

Seu livro reúne os registros que ele fez das contribuições do pensamento filosófico, científico e literário para a civilização da humanidade, num esforço para mostrar que o que consideramos inúteis é que fundamenta tudo o que hoje consideramos úteis, das descobertas às invenções que em meio milênio tornaram o homem mais conhecedor do seu corpo, através da decifração do genoma, do domínio de doenças incuráveis, de fábricas fantásticas, cheias de robôs, do espaço cósmico cheio de satélites, tornando as comunicações globais instantâneas, enfim tudo o que hoje se faz para ganhar dinheiro resultou do esforço desvinculado da finalidade econômica.

O fim sempre foi o conhecimento de si mesmo e do mundo em que vivemos. O desenvolvimento foi a consequência. Confrontando a sua conclusão com a situação atual ele comenta: "Mas a lógica do lucro solapa as bases das instituições (escolas, universidades, centros de pesquisa, laboratórios, museus, bibliotecas, arquivos) e disciplinas (humanísticas e científicas) cujo valor deveria coincidir com o saber em si, independentemente da capacidade de produzir ganhos imediatos ou benefícios comerciais".

O nosso atraso está exatamente no pouco ou nenhum interesse pelo que, devido à lógica do lucro, consideramos inútil, apesar da lógica da razão fazer constar na Constituição o dever do Estado com a pesquisa básica e a educação, sem as quais não há desenvolvimento.

O Estado, contudo, é representado por pessoas e elas é que decidem o que é bom ou ruim, mas como elas são fruto dessa educação que decaiu, o que elas decidem já vem contaminado. Um cronista da Folha descolou um termo que se ajusta bem aos governos que temos tido - 'caquistocracia' = governo dos ruins ou dos piores.

O Dicionário Mirador registra 'caquistia' como "relação de feitos pouco honrosos", como os dos últimos tempos - o dinheiro que não foi para pesquisa básica e educação foi para corrupção e desperdício devido à má gestão dos recursos públicos.