Brian Henrique Pereira Santos tem 4 anos. Ele é segundo dos três filhos da do lar Bruna Pereira Barbosa, 22 anos, moradora do residencial Chácara das Flores 2 - do programa Minha Casa Minha Vida -, no Parque Roosevelt, região do Parque Jaraguá, em Bauru. Neste ano, Bruna, assim como outras milhares de pessoas na cidade, não tem dinheiro para comprar roupas de frio e recorreu à Secretaria do Bem-Estar Social (Sebes) para conseguir agasalhos para ela e os filhos neste ano.
A partir daí é que surgem histórias de doadores como Leandro Barravieira Tiossi, 30 anos. Gerente de uma oficina na Vila Falcão, ele não conhece a família de Brian, não sabia para onde iriam seus agasalhos doados e muito menos imaginou que teria sua boa ação fotografada pelo JC na última semana.
Mas foi com o intermédio desta surpresa preparada pelo JC nos Bairros que alguns resultados, ou seja, as reações de quem recebe as contribuições da Campanha Municipal do Agasalho 2018, puderam ser registradas.
| Samantha Ciuffa |
| Natalia Vieira durante entrega de doações a Bruna Pereira Barbosa e os filhos Brian Henrique Pereira Santos e Emily Pereira Bispo, de 1 ano |
Nesta e nas próximas páginas, as histórias reforçam a importância que a campanha tem no município. No Pousada da Esperança 2, por exemplo, moradores têm dado lição de amor ao próximo, distribuindo roupas e alimentos de graça.
'ALÍVIO'
Bruna Pereira Barbosa conta que a mudança para o residencial MCMV, há um ano, trouxe mais conforto à família, que morava em um casebre no Parque das Nações. Mas com a melhoria, os gastos aumentaram com a parcela do imóvel, do condomínio e da energia elétrica. Além disso, a família cresceu no último ano, com a chegada de Emily, o que também ajudou a ampliar os gastos. "Só meu marido está trabalhando e o salário não dá para tudo, a situação deu uma apertada. É a primeira vez que peço agasalhos na Sebes, por necessidade mesmo", conta Bruna.
Foi com um sorriso tímido no rosto que Brian recebeu, das mãos da assistente social da Sebes Natália Vieira, o moletom doado por Leandro. Sem pensar duas vezes, já foi logo colocando a roupa nova sobre o uniforme da escola no portão de entrada do residencial. "Serviu, tia", dispara.
Além do moletom, outros agasalhos foram entregues à família na última terça-feira (5). "Um alívio ter dado certo, as crianças crescem rápido demais, é difícil", agradece Bruna.
AJUDA TODO MÊS
Leandro Tiossi conta que todo mês reserva uma pequena parte do salário para comprar itens e ajudar quem precisa. Doador ativo do Esquadrão do Bem, ele resolveu doar peças também para a Campanha do Agasalho. “Tenho um filho de 8 meses, penso nele sempre
que doo algo para crianças. É muito triste não ter o que comer ou vestir. Para os adultos, costumamos doar coisas nossas que são usadas, mas, para as crianças, eu geralmente compro algo novo na cidade, como este moletom.”
No Pousada da Esperança 2, agasalho e comida a quem precisa
Amparadas nas doações da Campanha Municipal do Agasalho 2018, as vizinhas Flávia Cristina dos Santos Lima, 31 anos, e Romilda de Marins, 63 anos, montaram um ponto independente de distribuição da campanha no Pousada da Esperança 2. Nomeada como Varal Solidário, a ação já distribuiu, neste ano, cerca de 15 sacos (de 100 litros) de roupas e sapatos a moradores do bairro e moradores de rua.
O espírito solidário por lá rendeu ainda outro trabalho. Pai de Flávia, o pastor Ronaldo Alves de Lima, 51 anos, reformou, com a ajuda de amigos, uma geladeira e acomodou o eletrodoméstico na calçada da esquina da casa da filha, com objetivo de oferecer marmitas de graça (leia mais abaixo).
O VARAL
| Samantha Ciuffa |
| Ponto de distribuição da Campanha do Agasalho no Pousada 2, na quadra 1 da rua Homero de Oliveira Ribeiro, pretende beneficiar até 300 famílias |
A ideia de montar o Varal Solidário surgiu da necessidade em ampliar as boas ações que Flávia e seu pai, o Ronaldo, já praticavam na quadra 1 da rua Homero de Oliveira Ribeiro. "Sempre surgia gente pedindo roupa ou comida na igreja ou aqui em casa", conta.
Foi aí que apareceu Romilda, vizinha e atualmente estudante de assistência social, que se uniu a eles, neste ano, para ajudar a ampliar a iniciativa da doação de agasalhos, por meio de parceria com a Sebes e o Fundo Social de Solidariedade, presidido pela primeira dama Lázara Gazzetta, responsável pela Campanha do Agasalho.
Em maio, as voluntárias receberam 15 sacos de agasalhos oriundos da campanha municipal. As peças renderam quatro dias de bazar Varal Solidário (as ações vão das 10h às 16h, geralmente). E o próximo já está programado: 15 de junho.
"Mas precisamos pegar mais sacos de agasalhos lá na Sebes, porque muita gente participou e doamos quase tudo", detalha Romilda.
As peças de roupas são acomodadas em uma arara improvisada com a estrutura de uma barraca antiga. O objeto é colocado na calçada da casa de Flávia, com as roupas para doações penduradas. Ainda no local, a mesa de cozinha dela comporta o restante das peças e também sapatos para doação.
CHUTEIRA 'NOVA'
| Samantha Ciuffa |
| Arlete Correa e os netos Lorena de Oliveira Santana e Alisson Macrin escolhem peças de frio |
Foi no último Varal Solidário que Alisson Macrin, de 10 anos, conseguiu finalmente um par de chuteiras para jogar futebol na escola e na rua com os amigos. "A gente joga society, essas chuteiras novas (usadas, mas em boas condições) vão ajudar bastante", comemora.
Já a prima dele, Lorena de Oliveira Santana, também de 10 anos, procurava um par de Melissas no mesmo saco. "Essa aqui é linda e é meu número, tô procurando o outro par, tomara que encontre", diz a garota.
Enquanto isso, a vó deles, dona Arlete Correa, 64 anos, selecionava roupas de frio para ela, os netos e para alguns filhos também. "Tem que aproveitar, tem coisa boa aqui", diz Arlete, também moradora do bairro.
SÓ O NECESSÁRIO
Segundo Romilda, o Pousada da Esperança 2 é formado por cerca de 5 mil famílias. Para que a ação consiga contemplar os que mais precisam, cerca de 300 famílias, ela conta que tem controlado as doações com rigor. "Aqui, as pessoas só levam o que realmente precisam. Quando vemos alguém levando coisa demais, a gente breca, porque senão outros ficarão sem", comenta a voluntária.
Ela, inclusive, é a responsável por divulgar a ação. "Geralmente, faço vídeo no Facebook para avisar o pessoal aqui do bairro os dias de Varal Solidário", detalha Romilda.
AÇÃO VOLUNTÁRIA MANTÉM GELADEIRA EM CALÇADA
| Samantha Ciuffa |
| Pastor Ronaldo Alves de Lima |
“Jesus diz que devemos repartir o pão. Tenho me esforçado ao máximo para viver a palavra”. A frase é de Ronaldo Alves de Lima, pastor no Pousada 2, e idealizador de um projeto chamado Geladeira Solidária, que distribui marmitas de graça no bairro.
Antes da missão religiosa, ele conta que era dono de um ferro velho. Foi lá que ele teve a ideia de reformar uma geladeira e colocá-la na esquina da casa da filha, próximo à sua igreja, para distribuir comida. “Fiz amizade com alguns usuários de droga que costumavam frequentar o ferro-velho. Tinha gente que ficava cinco dias sem comer. E eu sempre ajudava e dava alguma coisa, porque acho que não adianta a gente criminalizar o viciado”, explica. “Foi aí que um parceiro, o Paulinho do Samba do Bem, me ajudou, doando um freezer e a geladeira. Daí coloquei o projeto em ação”, diz o pastor.
O eletrodoméstico fica na calçada da esquina da casa da filha dele, Flávia Lima, na quadra 1 da rua Homero de Oliveira Ribeiro. Ronaldo e a filha dividem a conta de energia e se ajudam na missão de confeccionar as marmitas, que são produzidas com a comida extra que Flávia e sua vizinha Romilda preparam na janta ou no almoço para suas famílias.
“Estamos todos desempregados, mas nos ajudamos como dá. Às vezes, a gente ganha um saco de arroz, noutras um pouco de mistura. Por dia, deixamos na geladeira de 12 a 18 marmitas. E o pessoal passa e leva tudo, principalmente de madrugada”, detalha Romilda.
Só 2% das doações são de peças infantis
Assim como Brian, outras dezenas de crianças moradoras de regiões periféricas da cidade aguardam por agasalhos neste inverno.
O motivo da demora em atender todas elas é a dificuldade que a Campanha Municipal do Agasalho tem em arrecadar peças que sejam infantis.
De acordo com a funcionária da Sebes e coordenadora da ação Natalia Vieira, só 2% do total arrecadado são de agasalhos infantis. Até a última quarta-feira, aproximadamente 30 mil peças haviam sido arrecadas na ação e nem 1 mil eram infantis.
A campanha teve início em abril e deve ser encerrada até o final de agosto.
"Alguns parceiros acabam comprando peças novas para ajudar", comenta Natalia.
ESTRUTURA
| Aceituno Jr. |
| Antes de serem distribuídas para entidades, agasalhos passam por triagem no "Fundão" da Sebes, explica Natalia Vieira |
Tudo o que é recolhido nos pontos de arrecadação da campanha vai para um lugar chamado de "Fundão", um galpão na sede da Sebes. E as peças infantis ficam separadas em um armário, geralmente fora de sacos.
O local fica sob responsabilidade da secretaria e do Fundo Social de Solidariedade, presidido pela primeira dama Lázara Gazzetta.
"O Fundo não tem estrutura, por isso a Sebes ajuda com tudo o que pode. Até a sala da casa da Lazinha (Lázara) vira depósito de arrecadações nesta época, sempre buscamos agasalhos lá que a população doou", comenta José Carlos Fernandes, titular da Sebes.
Existem ainda outras dificuldades quando o assunto é doação: 80% das roupas que chegam são femininas, e outra parte das sacolas acaba dispensada por falta de condições para doação. "São roupas rasgadas, sujas. Até calcinha com absorvente e cueca suja já encontramos na triagem. Não recebemos peças íntimas, a não ser que sejam novas", lembra Natalia. "É preciso se colocar no lugar de quem irá receber a doação", salienta Natalia Vieira.
Parceria: Campanha quer chegar a 100 mil peças neste ano
A Campanha Municipal do Agasalho “Aquece Bauru” já conta com dezenas de parceiros pela cidade (veja no quadro). A meta para este ano é arrecadar 100 mil peças e 2 mil cobertores, em cerca de 300 postos de coleta.
“Recebemos grande apoio de grupos de ciclistas recentemente. Tudo o que recebemos é destinado para entidades sociais, que trabalham junto com os Cras (Centros de Referência em Assistência Social) e para associações de moradores, que prestam contas
posteriormente”, explica Lázara Gazzetta.