Estávamos eu e minha esposa sob a sombra da caixa d'água do Aeroclube de Bauru, na década de noventa. Ela lamuriosa, pois acabávamos de confirmar em exame de ultrassonografia o terceiro aborto espontâneo. Já havíamos passado por internações, anestesias gerais, curetagens.
Tínhamos muita esperança que mais esta tentativa fosse concretizada. Fizemos várias investidas, exames, injeções e nada aparecia de irregular em nossos resultados. Nesta última, a que me refiro em especial, foi a mais dolorosa, pois ali morava a nossa última esperança.
Tínhamos ido para São Paulo para consulta com um renomado médico especialista, no dia pré-agendado estávamos no consultório, quando entrou a filha de um eminente político, hoje octogenário, só para vocês verem a importância do profissional, isso tudo sem não antes de vendermos nosso carro, um "opalão" 1978 frente alta, branco, para juntar dinheiro na empreitada.
Outra vez, vários outros exames e, como se confirmou mais tarde, infrutíferos. Lá estávamos, ambos tristes, tentando eu consolar minha amada diante de doloroso quadro, expressei uma outra maneira de termos nossos filhos, mas que desse jeito eles seriam gerados no coração, e não na barriga. Ela me olhou, ainda com os grandes olhos verdes marejados de lágrimas e concordou, só fazendo uma exigência: de que os filhos adotados fossem em mesmo número dos malogrados, imposição esta que de imediato concordei!
Na mesma semana, estávamos no Fórum, fomos muitos bem atendidos pelas assistentes sociais, que nos passaram todas as orientações com muito carinho e dedicação. Feito a ficha, aguardamos ansiosos a ligação telefônica que, em média, demoraram dois anos, pois foram três, como prometido a minha esposa, os adotados. Ainda hoje, passadas algumas décadas desse fato tão maravilhoso, me recordo de cada uma das crianças ainda bebês que fomos buscar na maternidade. Que sensação indescritível! Pegar no colo, beijar e, de imediato, não sei como isso acontece, perceber que já eram nossos, que parece que nós nos conhecíamos a séculos, e a impressão que sim em poucos segundos com a gente, não iríamos mais ficar sem nossas crianças, que amaremos sempre!
Muitas pessoas me perguntam como elas vieram "rápidas". Indago então o que elas queriam quando fizeram aquela ficha lá no Fórum, já citada: menina, recém-nascido, que se pareçam com os pais etc. Como se isso fosse sinônimo de felicidade. Explico que nada exigimos, e que as diferenças seriam bem-vindas, cor da pele, sexo do nenê, de alguns meses, ou mais crescidinho. Aliás sobre esta última afirmação, se hoje fosse adotar, queria um mais "velhinho", indo ao encontro do significado da adoção tardia, pois tenho certeza que seria igualmente feliz.
Muitos ainda nos perguntam se não tivemos medo, pelos problemas que eles poderiam trazer, oriento ainda que todas as dificuldades que tivemos e temos com eles, qualquer filho ou filha biológica teríamos também. E se eles quiserem conhecer a mãe, os familiares biológicos? Ora vamos procurar! Não tenho e nunca tive medo dessa possibilidade, pois confio nos valores que passei a todos meus filhos e com certeza não os perderia nunca por esse motivo. Também nunca instiguei nenhum sentimento que pudesse deixá-los com sanha da mãe biológica, afinal elas tiveram a bondade de tê-los, e graças a essa atitude, eu os criei.
Outra situação é que sempre falei a verdade para eles, mesmo quando eles não entendiam, falado de exemplos, como o Super-homem que também foi adotado. Em determinado momento de nossas vidas, essas conversas ficaram tão naturais para eles que percebi, missão cumprida. Tem muitas crianças para serem adotadas, exijam menos, não tenham medo, e vão à luta, nada temam, e tenham a certeza que quem ganhará serão vocês, mais que eles.
Hoje, como disse, eles já estão crescidos, continuamos amando crianças, pois na atualidade participamos do programa intitulado Família Acolhedora, e estando nesse programa, não podemos adotar, para evitar conflito de interesse, preparamos a criança, cuidamos dela como se fosse nosso, todavia chega o dia de ele ir embora, e apesar de tristes , sabemos que cumprimos nosso dever, afinal o amor é o único sentimento que quanto mais dividimos, mais temos, sendo assim caso contrário, se pudéssemos adotar, já seriam mais quinze aqui em casa...
Como diz a frase de Graça Leal: "Uma criança adotada pode não sair de uma barriga conhecida, mas entra de coração na vida de desconhecidos."