Está sendo lançado pela Zahar o livro "Ruptura - A Crise da Democracia Liberal", do sociólogo espanhol Manuel Castells, que até parece ter sido encomendado como uma advertência para as eleições brasileiras deste ano. Como prévia ao lançamento, o autor publicou artigo na Folha de 10/06, para dizer que uma nova ordem político-institucional deverá substituir 'a obsoleta democracia liberal que, manifestamente, está caindo aos pedaços em todo o mundo, porque deixa de existir no único lugar em que pode perdurar: a mente dos cidadãos'. Diz, também, que auscultou muitas sociedades e não detectou sinais de nova vida democrática por trás das aparências, considerando 'utópico pensar que o poder destrutivo das atuais instituições pode deixar de se reproduzir em novas instituições criadas a partir da mesma matriz'.
A democracia liberal, exatamente por ser liberal, está sujeita à deturpação que vem ocorrendo em grande parte das nações. Formas de dominação por interesses ideológicos, econômicos, religiosos e egocêntricos têm usado o seu nome para encobrir a sua falsidade. Veja o caso da Venezuela, com sua democracia bolivariana e a ditadura dinástica de Kim-jong-un, chamada de República Popular Democrática da Coreia. Mas não é só em denominações enganosas, o pior está no comportamento dos políticos que usam e abusam da liberdade que ela dá alterando constituições e criando leis de interesses particulares ou para garantir a impunidade por corrupção ou abuso do poder. Chega-se até a subverter o seu significado e importância, considerando que processar e punir corruptos dentro da lei, inclusive presidentes, é destruir a democracia. Isso quer dizer que democracia é deixar os bandidos à solta?
A operação Lava Jato vem tirando a máscara dos deturpadores da democracia e enfrentando a luta ferrenha que eles fazem para se livrarem da merecida punição, usando o próprio fruto do roubo do dinheiro público para custear as defesas caríssimas, que usam inusitados estratagemas a ponto de afetar as decisões judiciais. Os ministros do STF Edson Fachin e Luiz Roberto Barroso, em defesa de maior rigor na punição dos criminosos de colarinho branco disseram que "há uma corrente em prol da manutenção de um sistema penal leniente disfarçada como preocupação com os direitos dos mais pobres". Qualquer pessoa, com um mínimo de esclarecimento, sabe que pobre não da camisa para advogado, a maioria não tem dinheiro nem para recurso em 2ª estância. Para ele o 'trânsito em julgado' é igual à passagem do boi pelo túnel do abate, não tem retorno pelos recursos que podem livrá-lo ou adiar a sua punição até ser prescrita.
O alerta que o autor nos dá é que a crise da velha ordem política, que para nós não é tão velha, mas tem as mesmas características, demanda mudanças profundas de substituição institucional, com clareza de consciência a respeito do mundo em que vivemos. E é nesse nível que a situação pode se tornar caótica, com o surgimento de aproveitadores da insatisfação das pessoas com a podridão institucional e injustiça social. O Brasil está nesse ponto e ele alerta que dessa situação surgem os caudilhos e as máfias que se apoderam do poder. Na relação de pré-candidatos já dá para distinguirmos alguns com pinta de caudilho e muitos envolvidos em denúncias de corrupção formando alianças, no estilo mafioso, para a sua continuidade nas posições institucionais de poder. O engodo está nos discursos de fidelidade à democracia, respeito à Constituição e combate à corrupção, como se seu lado sujo não fosse conhecido. E é dessa 'matriz' que possivelmente sairão os novos (velhos) ocupantes do poder.
O povo está sendo vítima de um autoengano, o que torna a situação mais perigosa. Pelo alto índice de reprovação, o governo Temer está sendo encarado como o culpado da crise que o País vive. Quem afundou o País em crise foi o governo lulopetista, do qual o Temer e seu partido fizeram parte. O partido até mudou de PMDB para MDB, com a ilusão que isso tiraria a parte da culpa que lhe cabe. O governo Temer foi constituído com uma parte boa, formada pela equipe econômica e uma parte podre, formada pelos políticos envolvidos em corrupção, inclusive ele. Do lado do Legislativo, com alta concentração de parlamentares com algum envolvimento em corrupção, mais os da oposição, que juraram combater o governo até à morte, as medidas que poderiam dar algum alívio até o novo governo em 2019, não vingaram ou foram aprovadas em parte e fora de tempo. Com as últimas trapalhadas do governo e judicialização oportunista, o país mergulhou de vez num desarranjo total. O panorama das próximas eleições não oferece nenhuma visão que crie esperança. O que resta é uma espécie de 'separar o trigo do joio', porque há mais joio do que trigo. Quem sabe dará para conseguir algumas sementes sadias para a nova safra. Só vai depender do juízo dos eleitores.