09 de julho de 2026
Geral

Entrevista da semana: Paulo Sérgio da Silva Santos

Marcus Liborio
| Tempo de leitura: 8 min

Samantha Ciuffa
Paulo Sérgio é professor na FOB/USP: dedicação e amor pela profissão

Um dentista que odiava ir ao dentista, porém, decidiu seguir na odontologia justamente porque queria ser um profissional que não causasse dor aos pacientes. Desde criança, Paulo Sérgio da Silva Santos, que é professor há oito anos da Faculdade de Odontologia de Bauru (FOB) da Universidade de São Paulo (USP), já praticava o dom de observar a necessidade do outro, buscando formas de ajudar o próximo.

Por acompanhar a mãe, que lecionava em uma escola primária, aprendeu a ler e a escrever aos 4 anos de idade. Um ano depois, estava matriculado na primeira série. Inclusive, ensinava os alunos com dificuldade no aprendizado. "Tenho a impressão de que a vontade de querer ajudar e servir vem lá de trás, quando eu ainda era criança", lembra Paulo, atual coordenador da área de pacientes especiais do Centro de Pesquisas Clínicas da FOB/USP. 

Aliás, é neste local que o professor do Departamento de Cirurgia, Estomatologia, Patologia e Radiologia da faculdade deixa aflorar o seu espírito altruísta, já que o setor atende muitos pacientes oncológicos. O trabalho tem dado tão certo que, em abril deste ano, o Centro de Pesquisas Clínicas recebeu uma moção de aplausos na Câmara Municipal de Bauru.

Movido pelo dom de transformar a vida do outro, Paulo coleciona algumas histórias emocionantes. Uma delas envolve um paciente com câncer que fez questão de comemorar o aniversário na clínica. "Aquilo me emocionou muito porque eu sempre tento falar para os meus alunos a relevância do acolhimento, do tratar bem, do olhar nos olhos", exalta. 

Jornal da Cidade: Além de dentista, o senhor tem graduação como enfermeiro, certo? Como surgiu essa vocação para a área da saúde?

Samantha Ciuffa/Reprodução
Ele ainda na escola: aprendeu a ler e escrever aos 4 anos

Paulo Sérgio: Desde os 8 anos, eu queria ser dentista. O principal motivo é porque eu sentia dor, odiava ir ao dentista e sofria muito. Então, eu queria ser um dentista que não deixasse que as pessoas sentissem dor. A minha ideia era fazer algo para que os pacientes não sofressem no consultório. Causar um efeito contrário. Eu fazia o Ensino Médio em um colégio de regime internato, em Hortolândia, e meus pais moravam em Santa Catarina. Naquela época, não tinha e-mail. No período do vestibular, eu faria as provas em Florianópolis e mandei os documentos pelos Correios, mas não coloquei o número do CEP. O envelope ficou no Correio por dois meses e eu perdi todos os vestibulares de Odontologia. Minha mãe falou que tinha uma amiga que morava em São Paulo, perto de uma universidade com curso de Enfermagem. Sugeriu que eu fizesse meio ano e, depois, tentasse Odontologia novamente. Fiz meio ano, não passei no vestibular de Odontologia e acabei terminando a faculdade de Enfermagem com 19 anos.

JC: Terminou a faculdade aos 19 anos? É isso mesmo?

Arquivo Pessoal
Paulo e os pais Abigail Santos e Antônio Roberto dos Santos

Paulo: Sim. Eu entrei com 5 anos no primário. Minha mãe era professora de escola primária e não tinha com quem me deixar. Com 4 anos, eu já sabia ler e escrever. Eu ficava no fundo da sala vendo ela dar aula e aprendi. Quando algum aluno tinha dificuldade, ajudava a ensinar. Tenho a impressão de que a vontade de querer ajudar e servir vem lá de trás, quando eu ainda era criança.

JC: E o curso de Odontologia? Veio quando?

Paulo: Eu trabalhei uns três anos como enfermeiro em um hospital de São Paulo. Depois, comecei o curso de Odontologia pela Unisa (Universidade de Santo Amaro). Cursava Odontologia à noite e continuei trabalhando no hospital durante o dia. Me formei com 26 anos e o chefe do hospital, à época, já me chamou para trabalhar num serviço especializado que chamava Odontologia do Trabalho.

JC: Como passou a atender pacientes oncológicos?

Paulo: Um dia, em um almoço em São Paulo, encontrei um amigo médico. Ele disse: "Vamos comigo para uma reunião de transplante de medula óssea?". Chegando lá, ele me apresentou para o chefe da equipe de transplante, dizendo: 'Esse aqui é o Paulo e ele vai ser o dentista da equipe de transplante de medula óssea'. Disse isso do nada! Pediram para eu ver um paciente, mas eu não tinha a mínima noção do era aquilo. Foi então que comecei a estudar essa área e a atender pacientes com câncer, ainda lá em São Paulo.

JC: E como veio para a FOB/USP?

Paulo: Há 8 anos, abriu uma vaga, fiz o concurso e passei. A vaga era em estomatologia e radiologia. Quando eu fiz o concurso, já tinha experiência com pacientes oncológicos. Além da experiência na Santa Casa de São Paulo, fiz mestrado e doutorado na USP, em São Paulo, com pacientes com câncer transplantados de medula óssea. Quando eu vim para Bauru, no meu concurso, uma das coisas que chamou atenção na discussão foi exatamente essa questão do suporte a paciente com câncer e a área de odontologia hospitalar, que, aqui em Bauru, não havia. Era uma vaga só e concorrência grande. Tenho a impressão de que chamou atenção. Dois anos e meio depois que fui contratado, abriu o Centro de Pesquisas Clínicas (em 2013), que, naquela época, se chamava Clínica Multidisciplinar.

JC: Acredito que deve ter algumas histórias emocionantes vividas nesse Centro de Pesquisas Clínicas da USP...

Paulo: Tive um paciente com câncer de boca. Para preparar a condição bucal dele antes do tratamento com quimioterapia, tivemos que tirar todos os dentes da arcada inferior dele. Isso é muito traumático porque envolve estética, função de mastigação. Durante a radioterapia e quimioterapia, os pacientes têm muitas feridas na boca e o nosso suporte é para aliviar o sofrimento. Fazemos tratamento com laser e tomamos todos os cuidados para que o paciente passe por essa fase sem sofrer tanto. E ele decidiu não operar e realmente está curado. Um dia, ele chegou pra mim e disse: 'Eu vou fazer aniversário e só tem dois lugares que eu gostaria de passar o aniversário: com a minha família e com vocês, aqui'. Aquilo me emocionou muito porque eu sempre tento falar para os meus alunos a relevância do acolhimento, do tratar bem, do olhar nos olhos. Essa é uma preocupação que eu sempre tive.

JC: O senhor participa de uma parceria pioneira entre FOB e Famesp. O que é essa parceria?

Paulo: Propomos um serviço de odontologia dentro do Hospital Estadual. Começamos atendendo os pacientes com câncer, renais crônicos, cardiopatas e as UTIs adulta e pediátrica. Hoje, temos um dentista contratado, dois docentes aqui do departamento e oito pós-graduandos prestando esse serviço inédito de odontologia hospitalar.

JC: Deixando um pouco de lado o Paulo professor, o que o senhor gosta de fazer nas horas vagas?

Paulo: Gosto de programas culturais, ver filmes, ir ao parque. Vou ao Horto, Jardim Botânico, Zoológico. Gosto do contato com a natureza. Gosto de conhecer lugares novos e até fiz um blog chamado 'Onde Ir Em Bauru', no qual escrevia sobre os lugares que visitava, restaurantes etc. Mas, meu maior hobby é viajar com a família.

JC: Falando em família, conte um pouco mais sobre ela...

Arquivo Pessoal
Paulo com os filhos Tiago e Paulo Roberto, e a esposa Marcia

Paulo: Conheci a minha esposa no hospital. Trabalhávamos juntos. Fizemos faculdade juntos também: ela Biomedicina e eu, Odontologia. Depois, ela também fez Odontologia. Casamos e tivemos filhos somente seis anos depois de casados. Meu filho mais velho tem 19 anos. Ele nasceu prematuro, com 33 semanas. Ficou 27 dias na UTI. Graças a Deus, não teve sequela nenhuma. Então, tivemos certo receio em ter o segundo filho, que veio três anos e meio depois. Hoje, ele está com 16 anos. Os dois são bem família.

JC: E quais as principais lembranças da sua infância?

Paulo: Não sou muito saudosista. Acho que o melhor momento da minha vida é o que eu vivo hoje. A minha infância em Campo Grande foi um período muito legal porque, naquela época, brincávamos na rua, soltávamos pipas, andávamos de bicicleta. Era uma vida de liberdade que, hoje em dia, não se vê mais. Outro bom momento foi durante a faculdade de Enfermagem, quando fiz os melhores amigos, que tenho até hoje.

JC: Diante de tudo isso, tem algum sonho a ser realizado ainda, profissional ou pessoal?

Paulo: Eu nunca imaginava que um dia seria professor na USP. Não faço esses planos. Sempre penso: "O que eu posso fazer para melhorar e ser mais útil"? Se um dia aquilo tiver uma consequência, legal. Se não tiver, está tudo bem também. Conquistar a posição de um professor de livre-docência é algo que eu nunca havia imaginado. Agradeço a Deus pela oportunidade e às pessoas que me acolheram, pois me sinto privilegiado pelas conquistas. Sou realizado e feliz com o que eu faço hoje. Qualquer coisa a mais, está bom. Desejo que os meus alunos tenham o mesmo espírito de humanidade e de vontade de transmitir conhecimento, para melhorar o mundo ao seu redor. Já com a família, quero ver meus filhos profissionais bem formados, conseguir ver os netos e ter um fim de vida tranquilo, sem coisas graves. Poder chegar ao final da vida vendo a família feliz.

PERFIL

Nome: Paulo Sérgio da Silva Santos

Nascimento: 9/8/1966

Cidade: Ponta Porã (MS)

Esposa: Marcia Mirolde Magno de Carvalho Santos

Filhos: Paulo Roberto Carvalho dos Santos, 19 anos, e Tiago Carvalho dos Santos, 16 

Pais: Antônio Roberto dos Santos, 82 anos, e Abigail da Silva Santos, 76 anos

Lembrança de infância: "Liberdade para brincar na rua"

Livro: Qual É A Tua Obra? - Mário Sergio Cortella

Música: O Melhor Vai Começar - Guilherme Arantes 

Hobby: Viajar 

Time do coração: São Paulo

Filme: Rain Man 

Nota 10: Honestidade, Justiça e respeito humano 

Nota 0: Política no Brasil