10 de julho de 2026
Tribuna do Leitor

Mais humanidade, por favor!

Patrícia Santos
| Tempo de leitura: 3 min

Uma notícia nesta semana, aqui mesmo no Jornal da Cidade, me causou uma dor extrema.

Não foi raiva, ódio ou indignação (embora todos os sentimentos estejam presentes também). O que senti em maior grau foi dor. Doeu no meu coração e na minha alma ler que uma grávida de 40 anos foi estuprada. Parafraseando Raul Seixas: "Pare o mundo que eu quero descer". Como lidar com uma notícia dessas? Pergunta sem resposta...

Observando os comentários que vieram após a publicação da notícia, me deparei com "Bauru está terrível". Não, infelizmente não é apenas Bauru, o mundo está terrível. Li também comentários como "castração química". Claro que aumentar as penalidades do sistema criminal é uma vertente a ser analisada. Países aonde a justiça é temida e respeitada tendem a ter índices menores de violência, o Brasil precisa com urgência de um sistema prisional que funcione, não para prender mais gente, mas que funcione para criar cada vez menos delinquentes.

Mas e quanto à questão psicológica desses criminosos? Ninguém comentou sobre isso. A cultura existente e cada vez mais visível do estupro está por toda parte, a questão é como retirar isso da nossa sociedade? Fazendo um adendo explicativo aqui: "cultura do estupro" não é o nome dado ao incentivo ao crime, como alguns leigos entendem. Primeiro, a palavra cultura em definição livre é algo como "hábitos adquiridos", o termo "cultura do estupro" reforça a ideia de que esses comportamentos não podem ser interpretados como normais ou naturais, se é cultural, nós criamos. Criamos quando, em uma sociedade, a violência sexual é normalizada ou justificada por meio da culpabilização da vítima, isso significa que existe uma cultura do estupro. Já ouvi de pessoas (infelizmente) próximas que a mulher que anda de roupa curta e que mostra o corpo está pedindo para ser estuprada, pois caminha rebolando e chamando atenção masculina, por isso ela mereceu...

Essas pessoas acreditam mesmo no que dizem, e não veem que o erro está no ato de violência e não na roupa. E pergunto a estes: qual é a desculpa para uma mulher de 40 anos gravida já no quarto mês de gestação ser estuprada? Qual a desculpa para idosas, crianças, qual a desculpa para as que andam com saias longas?

Chega de inventar desculpas! Passamos da fase de justificar, será que alguém ainda não entendeu que o problema do estupro não está na vítima?

Estupradores que querem estuprar mesmo se castrados utilizam outros meios. Quem nunca leu notícias de estupros em que foram utilizados objetos como cabo de vassouras quando o indivíduo não consegue uma ereção? Dê um google e ficará chocado com a quatidade. Ou mesmo a violência praticada em grupos, a violência cultuada em bando, onde todos se juntam para praticar um crime em "comum". Não, isso não pode continuar!

É necessário mais do que punir, é preciso eliminar na fonte com mais educação de qualidade, com mais segurança e justiça.

Precisamos começar eliminando desde a corrupção dentro do poder público, na polícia, na rua e até dentro de casa. Afinal, se você encontra uma carteira e não devolve, está passando uma imagem errada para seu filho que é uma criança aprendendo com atos dos pais; se um marido obriga por chantagem ou força física ter sexo com sua esposa mesmo ela dizendo "hoje não", será que também não é um ato de violência? Precisamos de mais respeito aos pequenos detalhes, mais empatia para podermos criar no futuro uma sociedade melhor. Se cada um fizesse sua parte para melhorar o mundo no todo já seríamos um país melhor.

Pesquisas mostram que em lugares aonde a população é mais honesta, a política por consequência se torna mais transparente. O Brasil foi uma colônia de exploração desde o início, e parece que sempre invejamos os países de primeiro mundo que foram colônias de povoamento, mas não fizemos muita coisa para se assemelhar a esses lugares, houve revoltas e vontade de mudar, mas em algum momento nós nos perdemos. Deixamos o "todos contra um" para seguir o "cada um por si" e em sociedade isso é um erro. Atingimos níveis de violência que não podem ser mais aceitos.

Nenhum lugar é perfeito, mas precisamos com urgência melhorar, como está não dá mais!