08 de julho de 2026
Tribuna do Leitor

Jornadas do atraso

Henrique Matthiesen - O autor é bacharel em Direito e jornalista
| Tempo de leitura: 2 min

Há cinco anos o Brasil se convulsionava em protestos que objetivavam abalar as estruturas do poder. Mudanças profundas em nossa política e em nossa questão social eram a tônica do movimento, que começava sua jornada contra os 0,20 centavos do aumento das passagens de ônibus, na cidade de São Paulo.

Ambicionava-se o padrão Fifa para saúde, educação, transporte, etc; desconheciam o alto grau de putrefação, corrupção e perversidade que a Federação Internacional de Futebol escondia.

Surgem neste contexto ambíguo os "blackblocs", grupo violento de caráter fascista, que tencionou a depredação e a negação de toda política.

Sem líderes e sem bandeiras claras germinava-se o ressurgimento do ódio de classes - que permeou o Brasil desde sua colonização.

Oriundos da classe media, bestializados pelas manchetes, e pelo alto grau de mobilização, esbanjavam despolitização e iníquos privilégios, não se apercebendo que se comportavam como embriões de imensuráveis retrocessos.

Contra tudo e contra todos se esvaziariam deixando como legado a intolerância, e as digitais do golpe que viria depois. Enfim, era apenas a reprodução do mais do mesmo, de nossa hipócrita "Classe Dominante", preconceituosa e segregacional.

O legado - dessas jornadas do atraso - está na crise aguda que passamos atualmente; uma crise de representatividade, em um governo desprovido de legitimidade, num fascismo ascendente, dentre outros fatores anacrônicos.

Manifestoches dos mais impudicos interesses bastardos vestiram-se de verde amarelo para pedir o impeachment de Dilma Rousseff.

Endeusaram um pato amarelo, rezaram a cartilha moralista de Eduardo Cunha, viraram todos o juiz Moro, e agora pedem a intervenção militar.

Bestializados pelo analfabetismo histórico, ganharam as ruas a despeito da perda de credibilidade da esquerda - fracionada e altiva. Ganharam força dentre o vazio e a mediocridade que permeia a política hoje.

Desprovidos, das raízes conceituais da mais nobre têmpera do caráter, são contraditórios, dispersivos, homofóbicos, racistas e elitistas.

Este é o resultado das jornadas do atraso, da aspiração a uma primavera que virou inverno, de uma juventude envelhecida pelo encanecido atraso de nossas classes dominantes, de docilmente manipuláveis da subordinação e subserviência das coisas não pátrias.

Enfim, perdemos uma grande oportunidade, e avançamos mais uma vez para o atraso.