10 de julho de 2026
Geral

61% das pessoas assumem descartar alimentos em condições de consumo

Tisa Moraes
| Tempo de leitura: 8 min

Aceituno Jr.
Irani José Pontes aproveita até as sementes da abóbora

Pouco conhecimento sobre as propriedades dos alimentos, pouca criatividade para prepará-los e falta de planejamento para dosar o consumo. Estes são alguns dos principais motivos que levam os brasileiros, diariamente, a jogar comida fora.

Segundo pesquisa conduzida pela agência Edelman, a pedido da Unilever, 61% dos brasileiros assumem descartar alimentos que estavam em perfeito estado de consumo. Entre os mais desperdiçados, estão os perecíveis, como saladas, vegetais e frutas.

O hábito é reflexo do fenômeno chamado "cegueira da geladeira", que faz com que muitas pessoas não "vejam" ou ignorem alguns gêneros alimentícios no refrigerador. É uma prática que acontece, na maioria das vezes, inconscientemente e que, por isso, merece atenção.

O dado, já bastante alarmante, ganha peso ainda maior quando considerada a pouca tradição dos brasileiros em aproveitar todas as partes dos alimentos, como folhas, talos, cascas e sementes - que, geralmente, têm destino certo: o lixo. "Estas são as partes que têm grande valor nutricional, por terem mais fibras, vitaminas e minerais. Elas não precisam ser jogadas fora", ensina a nutricionista Aline Bataier Maronezi Martins, coordenadora do Programa Mesa Brasil do Sesc de Bauru.

Além de gerar economia no bolso, lidar de maneira mais coerente com os alimentos disponíveis dentro de casa pode proporcionar a descoberta de novos sabores. Neste sentido, a criatividade precisa ser colocada em prática, até mesmo para revitalizar as preparações do dia, como o mais usual arroz, que pode servir como base para um risoto ou uma torta salgada.

NADA SE PERDE

Para evitar o desperdício, o que vale é a regra máxima, lá do século 18, do químico francês Antoine Lavoisier: "nada se perde, tudo se transforma". "O chuchu cozido hoje pode virar um doce amanhã. Fica parecido com o doce de mamão. A banana verde pode ser preparada como legume e a extremamente madura pode virar um doce. Já a casca pode se transformar em bife vegano ou uma farofa", enumera Aline.

São descobertas que, cada vez mais, o gerente administrativo Irani José Pontes, 54 anos, tenta explorar. Incentivado pela esposa, com quem se casou em 2005, ele passou a olhar para os alimentos de outra forma, buscando entender seus ciclos de maturação e a época de maior produção de cada um.

"É uma decisão que, obviamente, demanda esforço. Mas, além de significar economia, combater o desperdício é adotar um modo de vida mais sustentável e natural. É nossa responsabilidade reduzir a quantidade de lixo no planeta", afirma.

Foi também com foco no meio ambiente que a jornalista Ieda Rodrigues, 46 anos, passou a adotar hábitos simples para garantir o aproveitamento máximo dos alimentos. A "virada", ela diz, aconteceu ainda na época da faculdade, quando foi impactada pelo curta-metragem "Ilha das Flores", de 1989, dirigido por Jorge Furtado.

"Foi quando eu comecei a refletir de verdade sobre a quantidade de alimentos que as pessoas desperdiçam todos os dias, sobre os recursos demandados para a produção dos alimentos e o impacto gerado pelos resíduos que são descartados", conta.

Neste sentido, ela toma alguns cuidados, como congelar vegetais usados em pouca quantidade e consumir primeiro as frutas que estragam mais rápido.

Conhecer, planejar e ser criativo: tripé da mudança

A Organização das Nações Unidas para Alimentação (FAO) coloca o Brasil na lista dos dez países que mais desperdiçam comida no mundo. A cada dia, são cerca de 41 mil toneladas de alimentos descartadas, o que daria para alimentar, também por dia, 25 milhões de pessoas - ou 13% da população do País.

Ou seja, tudo o que poderia não ter se transformado em lixo seria suficiente para erradicar a fome no Brasil, uma realidade de 14 milhões de pessoas, segundo a entidade. Tanto desperdício, na avaliação da nutricionista Márcia Leme, é resultado de desconhecimento da maioria da população sobre as propriedades dos alimentos, suas características, potencialidades e as possíveis formas de armazenamento e conservação.

Entender quais alimentos podem ser congelados antes ou depois do preparo para serem consumidos em um segundo momento, por exemplo, é uma estratégia valiosa para facilitar as refeições em meio à correria do dia a dia. "As pessoas desconhecem as formas de utilização e isso limita a capacidade de compreensão sobre todas as possibilidades que um único alimento traz", frisa ela, que é professora do programa Alimente-se Bem do Sesi.

Além de criatividade para explorar receitas novas e inusitadas para aproveitar - e reaproveitar - ao máximo os alimentos, outro pilar importante é o planejamento. Detalhes simples como olhar na geladeira para saber exatamente o precisa ser adquirido antes de ir às compras ou calcular a quantidade correta de comida para o número de pessoas que irá se alimentar podem fazer toda diferença no volume alimento que acaba sobrando no prato ou estragando.

"Levar uma lista é essencial, até para evitar compras por impulso. Ter um cardápio minimamente planejado para a semana também ajuda a pensar sobre como variar as refeições e aproveitar os produtos de época, que são mais baratos e têm melhor qualidade", ensina.

Sobra no prato

Quando a comida chega ao prato, resta a última oportunidade de evitar o desperdício dos alimentos. Para trazer conscientização sobre a importância de cada indivíduo servir-se apenas com a quantidade que irá consumir, a Universidade de São Paulo (USP) realiza, anualmente, uma iniciativa dentro do restaurante universitário do câmpus de Bauru.

Na área reservada à entrega das bandejas usadas, uma equipe do programa USP Recicla aborda estudantes, funcionários e usuários internos para que, de maneira voluntária, ofereçam para pesagem suas bandejas com as sobras de alimento após o almoço.

“É mais uma atividade de incentivo, para motivar as pessoas a refletirem e prestarem atenção, e não para recriminar ou criar uma situação indesejada. Tiramos fotos, entregamos o selo de ‘diga não ao desperdício’. E temos visto uma evolução ao longo do tempo”, cita a professora Ana Carolina Magalhães, coordenadora do programa, desenvolvido pela Faculdade de Odontologia de Bauru (FOB/USP).

O peso limite preconizado pelo projeto é de 25 gramas de sobras, considerando também restos como cascas e ossos. Diariamente, são servidas entre 300 e 450 refeições no restaurante e, de acordo com a professora, nesta última edição, realizada no mês passado, não mais do que sete pessoas deixaram sobras acima do valor estabelecido. O trabalho foi promovido pelo terceiro ano consecutivo, sempre com o objetivo de celebrar o Dia Mundial do Meio Ambiente, comemorado no dia 5 de junho.

30% da produção agrícola se perdem antes de chegar à mesa do consumidor

Para especialistas, mesmo quando os produtores atendem demandas de larga escala, é possível adotar medidas simples para reduzir perdas

Quioshi Goto Quioshi Goto
Sérgio Ishicava: alimento machucado é o 1.º a ser descartado

Estudos apontam que 30% de toda a produção agrícola brasileira se perdem antes de chegar à mesa do consumidor. E, dentro desta cadeia, a etapa mais crítica contempla o manuseio pós-colheita e transporte, responsável por metade deste desperdício.

Segundo Sérgio Mitsuo Ishicava, assistente agropecuário da Coordenadoria de Assistência Técnica Integral (Cati), órgão vinculado à Secretaria Estadual de Agricultura e Abastecimento, os produtos hortifrutigranjeiros, por não serem processados, são os que registram os maiores índices de perda.

"Alguns legumes, por exemplo, são transportados em caixas de madeira. Em contato com uma superfície áspera e, sendo apertados para caber a maior quantidade possível na mesma caixa, estes produtos vão ficando machucados e expostos a contaminações. Além disso, sem ventilação, a taxa de respiração do produto aumenta, diminuindo a durabilidade pós-colheita", esclarece.

Os alimentos oriundos da horticultura também são os mais castigados quando chegam aos supermercados, principalmente quando são empilhados em grandes quantidades em um mesmo local. "Aquele alimento vai amassando, ficando machucado e ele vai ser o primeiro a ser rejeitado pelo consumidor", considera.

Nem mesmo as longas distâncias que estes produtos percorrem em um país continental como o Brasil ou mesmo a logística necessária para a colheita e escoamento de grandes quantidades de itens agrícolas justificam as perdas tão elevadas registradas em território nacional. Quem faz esta avaliação é a engenheira agrônoma do Centro de Qualidade em Horticultura da Companhia de Entrepostos e Armazéns Gerais de São Paulo (Ceagesp) da Capital, Anita de Souza Dias Gutierrez.

MUDANÇA

Ela concorda, evidentemente, que é preciso garantir que os produtos sejam comercializados o mais rapidamente possível para evitar perdas. Como exemplo, cita a Central de Abastecimento de Hortifrutigranjeiros (Ceasa) da Capital, que recebe 11 mil toneladas de frutas e hortaliças por dia, com perda de 150 toneladas, ou 1,4% do total.

"Proporcionalmente, a perda é mínima, porque a passagem é muito rápida. A maioria dos produtos é comercializada no mesmo dia", detalha. Anita pontua, porém, que a necessidade de atender a tempo demandas de grande escala não pode servir como desculpa para o manuseio brusco durante a colheita e a pós-colheita ou para a falta de cuidado na embalagem ou no transporte das mercadorias.

Entre as medidas necessárias, ela cita, está a necessária proibição de transporte a granel de frutas como abacaxi e mamão, método que ela considera "comprovadamente, um grande gerador de perdas".

"A receita para reduzir perdas na horticultura é extremamente simples, mas ela depende de milhares de pessoas em toda a cadeia e, por isso, se torna tão difícil. A mudança tem a ver com capricho e não com tecnologia. O produto com melhor qualidade, colhido com mais cuidado, vai ser mais valorizado por quem compra. O preço pode até dobrar", pondera.

Neste sentido, o Centro de Qualidade da Ceagesp promove, periodicamente, cursos, palestras e visitas técnicas de campo com o objetivo de orientar os produtores sobre a padronização dos produtos, rotulagem e embalagem. "É preciso que os produtores entendam que a comercialização faz parte do negócio e que eles podem almejar esta diferenciação de valores para se tornarem mais competitivos", completa.