08 de julho de 2026
Regional

A conquista do valor agregado

Nélson Gonçalves
| Tempo de leitura: 18 min

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Antes de investir em beneficiamento, a associação vendia o café em coco, na casca, perdendo pelo menos 11% no valor de venda do grão

A Associação de Produtores de Café Natural Bairro Paraíso do Alto de Torrinha ainda não realiza compra conjunta de insumos. A comercialização também é realizada de forma independente. O próximo passo do coletivo será se organizar para comprar em escala.

"Hoje cada um vende o café de acordo com seus compromissos. A necessidade de cada um é diferente, com prazo de financiamento e despesas pessoais. A associação vai se preparar para fazer compra de insumos em conjunto. Já estamos discutindo isso, iniciando as conversas com um, com outro, tirando dúvidas. É uma boa fazer isso para comprar mais barato, com menor preço. O insumo mais caro hoje é fertilizante", menciona Ivalindo Gazola. 

A associação acessou o programa de produção sustentável, o Microbacias II do governo paulista. "Nos organizamos, formalizamos a associação e hoje dividimos o custo operacional entre todos. Temos automotriz (colhedeira) comprada com o projeto. Isso já tem cinco anos e terminamos de pagar a máquina no final do ano passado. A colhedeira é operada pelo próprio sócio. Nós também recebemos instrução técnica do fabricante e a manutenção da máquina ou ajuste de algum problema por uso é feito por nós mesmos. Fomos aprendendo no dia a dia", informa Ivanildo.

Segundo ele, entre os 28 sócios produtores, alguns têm terra arrendada para plantação de cana-de-açúcar. "Todos os colegas têm eucalipto plantado. Isso ajuda a compor a renda. Aqui em Torrinha o que preocupa sempre é o risco de chuva de granizo. Não tem um tempo certo, mas entre março e dezembro preocupa mais. Da lavoura, o controle de pragas é eficiente, com duas ou três pulverizações. A ferrugem  por exemplo tem de tomar cuidado", menciona. 

Ivanildo conta com a participação da esposa Fabiana na lavoura. "Ela ajuda com trator, com o secador. É minha parceira essencial. A cidade de Torrinha tem bom serviço de saúde para os casos de socorro rápido, um problema mais comum que aparece, a escola pública é boa. Temos uma vida tranquila, bom boa qualidade. Aliás eu ia me esquecendo que temos o jornalista Carlos Nascimento entre nossos sócios. Eu moro no sítio com minha mãe. Casei e fiquei por aqui", revela.

O produtor gosta de pescaria, da convivência com os filhos de 4 e 12 anos, e de tocar violão. "Tem um Mosteiro aqui onde fica a sede da associação, bem perto. Eu toco violão lá há 20 anos na missa já. A vida aqui é boa, com a graça de Deus". E o que falta?: "Tocar o projeto com as próximas etapas, batizar o café para comercializar alguma coisa com o nome da associação e vender pronto, já em pacote. Alguns já fazem o café artesanal, embalam e entregam pronto. Isso agrega ainda mais valor ao produto final", finaliza.            

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A Associação dos Produtores de Café Natural Bairro Paraíso do Alto de Torrinha integra um dos 287 projetos que geram valor agregado em agricultura familiar no Estado de São Paulo pelo programa Microbacias II

Fotos: Divulgação
Ivanildo Gazola produz café em área de 12 hectares; em conjunto, os 28 produtores da associação somam 230 hectares da cultura

Da semente à produção integrada

A Associação de Produtores de Café Natural Bairro Paraíso do Alto de Torrinha (SP) ainda não realiza compra conjunta de insumos. A comercialização também é realizada de forma independente. O próximo passo do coletivo será se organizar para comprar em escala.

"Hoje cada um vende o café de acordo com seus compromissos. A necessidade de cada um é diferente, com prazo de financiamento e despesas pessoais. A associação vai se preparar para fazer compra de insumos em conjunto. Já estamos discutindo isso, iniciando as conversas com um, com outro, tirando dúvidas. É uma boa fazer isso para comprar mais barato, com menor preço. O insumo mais caro hoje é fertilizante", menciona Ivalindo Gazola. 

A associação acessou o programa de produção sustentável, o Microbacias II do governo paulista. "Nos organizamos, formalizamos a associação e hoje dividimos o custo operacional entre todos. Temos automotriz (colhedeira) comprada com o projeto. Isso já tem cinco anos e terminamos de pagar a máquina no final do ano passado. A colhedeira é operada pelo próprio sócio. Nós também recebemos instrução técnica do fabricante e a manutenção da máquina ou ajuste de algum problema por uso é feito por nós mesmos. Fomos aprendendo no dia a dia", informa Ivanildo.

Segundo ele, entre os 28 sócios produtores, alguns têm terra arrendada para plantação de cana-de-açúcar. "Todos os colegas têm eucalipto plantado. Isso ajuda a compor a renda. Aqui em Torrinha o que preocupa sempre é o risco de chuva de granizo. Não tem um tempo certo, mas entre março e dezembro preocupa mais. Da lavoura, o controle de pragas é eficiente, com duas ou três pulverizações. A ferrugem  por exemplo tem de tomar cuidado", menciona. 

Ivanildo conta com a participação da esposa Fabiana na lavoura. "Ela ajuda com trator, com o secador. É minha parceira essencial. A cidade de Torrinha tem bom serviço de saúde para os casos de socorro rápido, um problema mais comum que aparece, a escola pública é boa. Temos uma vida tranquila, bom boa qualidade. Aliás eu ia me esquecendo que temos o jornalista Carlos Nascimento entre nossos sócios. Eu moro no sítio com minha mãe. Casei e fiquei por aqui", revela.

O produtor gosta de pescaria, da convivência com os filhos de 4 e 12 anos, e de tocar violão. "Tem um Mosteiro aqui onde fica a sede da associação, bem perto. Eu toco violão lá há 20 anos na missa já. A vida aqui é boa, com a graça de Deus". E o que falta?: "Tocar o projeto com as próximas etapas, batizar o café para comercializar alguma coisa com o nome da associação e vender pronto, já em pacote. Alguns já fazem o café artesanal, embalam e entregam pronto. Isso agrega ainda mais valor ao produto final", finaliza.            

Projeto exige ir além da produção 

O programa Microbacias II alcançou 287 projetos entre associações e cooperativas, 61 comunidades quilombolas e 15 indígenas no Estado de São Paulo 

Do caminhão a embaladoras a vácuo, de colhedeiras a silos, o programa de produção sustentável voltada ao mercado Microbacias II encerra seu primeiro ciclo em setembro deste ano, tendo acumulado a inclusão de 287 projetos realizados por associações ou cooperativas de produtores rurais, 61 comunidades quilombolas e 15 indígenas. O investimento em máquinas, estrutura de produção e armazenamento e ou reformas e melhorias somou R$ 188,2 milhões para os coletivos de cooperados. Para os quilombolas, o programa injetou R$ 10,8 milhões, e outros R$ 2,5 milhões foram para as comunidades indígenas desenvolverem o plano de negócios aprovado. As informações são da Coordenadoria de Assistência Técnica Integral (Cati), com sedes regionais da Secretaria de Agricultura e Abastecimento do Estado de São Paulo.

Conforme o coordenador da Cati, João Brunelli Júnior, o projeto tem US$ 78 milhões de empréstimo realizado pelo governo do Estado junto ao Banco Munidial, com contrapartida de US$ 58 milhões. "O projeto não é só uma iniciativa de negócios. É uma programa que envolve consultoria, preparo para gestão e custeio, compra de equipamentos, reformas em instalações. US$ 14 milhões foram investidos em estradas rurais. A aprovação de 287 projetos de associações envolve plano de negócios, desde a fase de documentação, habilitação das cooperativas, com diretoria formada, elaboração de projetos técnicos, compra de maquinários diretamente pelos beneficiados e ações em execução em diferentes cadeias produtivas", apresenta.

Brunelli afirma que a maioria dos projetos alcançou acesso ao mercado com valor agregado. "A entrega da mandioca não se dá mais suja, mas a vácuo, recortada com padrão ao fornecedor e sem o atravessador, porque esse processo do plantio ao produto final embalado permite ao produtor acessar direto o consumidor ou o comerciante. Existem projetos com dificuldade de desenvolvimento específico, como a cadeia de leite, onde o preço oscila muito e a produção em escala é mais difícil com custo de transporte. Mas nas demais cadeias os projetos estão muito bem organizados", avalia. 

A Cati aponta estudo prévio realizado pelo Banco Mundial, financiador do programa. "O estudo estatístico realizado pelo Banco Mundial com 144 beneficiados pelo Microbacias II revela que as ações aumentaram o nível de sobrevivência frente ao mercado desses produtores, houve diversificação de produtos, desenvolvimento de novos negócios e mercado, e aprimoramento em gestão, contabilidade e regulação. O impacto no valor total comercializado nas organizações é de 87% e o aumento no comércio de produtos foi de 29%, conforme a avaliação de impacto feita pelo próprio Banco Mundial", diz Brunelli.

Novos mercados

O coordenador da Cati aposta na abertura de novos mercados. "A organização e a profissionalização, da produção ao fornecimento com valor agregado está permitindo às associações buscarem novos espaços. A participação na compra pública é um mercado aberto, como os 30% destinados à merenda escolar. E esses produtores têm condições de chegar ao mercado de igual para igual com a iniciativa privada em vários cinturões de produção", argumenta. 

Para João Brunelli Júnior, sia o paternalismo do Estado e fica a profissionalização. "Esses produtores não vão querer nunca mais ficar só com a lida na lavoura para vender seus produtos sem agregar nada e perder em preço e novos negócios. Não tem paternalismo nessa relação. O Estado financia a estrutura, o maquinário, as condições de produção. Eles se organizam, se profissionalizam e cuidam de seu próprio negócio. O produtor tem de ser fornecedor de matéria prima com o produto acabado, pronto, ao final", defende.

O próximo projeto no segmento será o Agriproclima. "Esta etapa depois do Microbacias II tem presença no ambiental com foco no econômico. Você vai fortalecer a estrutura no campo também incluindo as questões de energia, tratamento de resíduos, manutenção e acesso a água, recuperação de mata ciliar, conservação de solo, recuperação de vossoroca", menciona.

O coordenador adianta que o perfil de atuação dos técnicos também muda. "Nossa formação e histórico é muito voltada à assistência técnica, que permanece e é essencial. Mas teremos também de dar suporte com gestão de negócios, formação de centro de custos. Para isso vamos capacitar 100 técnicos da Cati para a gestão voltada depois à profissionalização dos produtores", adianta. 

Quintadas e feiras

Os 363 projetos aprovados no programa voltado à produção sustentável e mercado, entre associações e comunidades indígenas e quilombolas, teve metade do valor das contrapartidas, ou R$ 35 milhões, financiado pela linha do fundo da Secretaria de Agricultura e Abastecimento (Feap). 

O prazo para pagamento é de seis anos, com dois de carência. "O juro foi de 3% ao ano, um juro negativo porque é menor do que a inflação hoje", conta o coordenador da Cati, João Brunelli Júnior. Em razão do tipo de atividade e das condições sociais especiais, as contrapartidas dos quilombolas e indígenas foi fixada em apenas 1%. "Foi aplicado como percentual simbólico como salvaguarda social. Dos 61 projetos em quilombos, 30 estão em Eldorado, no Vale do Ribeira paulista", aponta. 

Para a Cati, o programa disseminou a comercialização direta. "Produtos embalados a vácuo, já recortados, processados, ganharam contratos diretos na fonte, com as associações. E quem fez o plano de negócio envolvendo conservação e transporte (adquiriu veículo baú, câmara fria, etc) passou a atuar direto em quitandas, comércios de bairros em cidades maiores, além de se inserir de maneira natural em feiras com a novidade de apresentar produto pronto, estimulando a economia local. O resultado vai além do valor agregado. É uma cadeia de produção que evita o êxodo rural, mantém boa parte dos filhos envolvido na atividade, no campo e gera grupos empresariais familiares", aborda.

Outro ponto destacado por Brunelli é que o Estado não interfere na relação. "O Estado recebeu os projetos, avaliamos e aprovamos. Demos orientação, fiscalizamos obras, aquisições, checagem de documentos fiscais. Mas quem comprou o maquinário, a câmara fria, o trator, a colhedeira, a máquina embaladora, o tijolo e cimento para a reforma ou ampliação foi o produtor. Ele fez contato com o fornecedor e negociou diante do plano de negócios aprovado. Tiveram que aprender também a gerenciar, a comprar, a acompanhar obra, pensar em custo de manutenção de máquinas. O sistema gerou credibilidade no meio e junto à sociedade", acrescenta.

         

Exemplos de iniciativas

Do caminhão a embaladoras a vácuo, de colhedeiras a silos, o programa de produção sustentável voltada ao mercado Microbacias II encerra seu primeiro ciclo em setembro deste ano, tendo acumulado a inclusão de 287 projetos realizados por associações ou cooperativas de produtores rurais, 61 comunidades quilombolas e 15 indígenas. O investimento em máquinas, estrutura de produção e armazenamento e ou reformas e melhorias somou R$ 188,2 milhões para os coletivos de cooperados. Para os quilombolas, o programa injetou R$ 10,8 milhões, e outros R$ 2,5 milhões foram para as comunidades indígenas desenvolverem o plano de negócios aprovado. As informações são da Coordenadoria de Assistência Técnica Integral (Cati), com sedes regionais da Secretaria de Agricultura e Abastecimento de São Paulo.

Conforme o coordenador da Cati, João Brunelli Júnior, o projeto tem US$ 78 milhões de empréstimo realizado pelo governo do Estado junto ao Banco Mundial, com contrapartida de US$ 58 milhões. "O projeto não é só uma iniciativa de negócios. É uma programa que envolve consultoria, preparo para gestão e custeio, compra de equipamentos, reformas em instalações. US$ 14 milhões foram investidos em estradas rurais. A aprovação de 287 projetos de associações envolve plano de negócios, desde a fase de documentação, habilitação das cooperativas, com diretoria formada, elaboração de projetos técnicos, compra de maquinários diretamente pelos beneficiados e ações em execução em diferentes cadeias produtivas", apresenta.

Brunelli afirma que a maioria dos projetos alcançou acesso ao mercado com valor agregado. "A entrega da mandioca não se dá mais suja, mas a vácuo, recortada com padrão ao fornecedor e sem o atravessador, porque esse processo do plantio ao produto final embalado permite ao produtor acessar direto o consumidor ou o comerciante. Existem projetos com dificuldade de desenvolvimento específico, como a cadeia de leite, onde o preço oscila muito e a produção em escala é mais difícil com custo de transporte. Mas nas demais cadeias os projetos estão muito bem organizados", avalia. 

A Cati aponta estudo prévio realizado pelo Banco Mundial, financiador do programa. "O estudo estatístico realizado pelo Banco Mundial com 144 beneficiados pelo Microbacias II revela que as ações aumentaram o nível de sobrevivência frente ao mercado desses produtores, houve diversificação de produtos, desenvolvimento de novos negócios e mercado, e aprimoramento em gestão, contabilidade e regulação. O impacto no valor total comercializado nas organizações é de 87% e o aumento no comércio de produtos foi de 29%, conforme a avaliação de impacto feita pelo próprio Banco Mundial", diz Brunelli.

NOVOS MERCADOS

O coordenador da Cati aposta na abertura de novos mercados. "A organização e a profissionalização, da produção ao fornecimento com valor agregado está permitindo às associações buscarem novos espaços. A participação na compra pública é um mercado aberto, como os 30% destinados à merenda escolar. E esses produtores têm condições de chegar ao mercado de igual para igual com a iniciativa privada em vários cinturões de produção", argumenta. 

Para João Brunelli Júnior, sia o paternalismo do Estado e fica a profissionalização. "Esses produtores não vão querer nunca mais ficar só com a lida na lavoura para vender seus produtos sem agregar nada e perder em preço e novos negócios. Não tem paternalismo nessa relação. O Estado financia a estrutura, o maquinário, as condições de produção. Eles se organizam, se profissionalizam e cuidam de seu próprio negócio. O produtor tem de ser fornecedor de matéria prima com o produto acabado, pronto, ao final", defende.

O próximo projeto no segmento será o Agriproclima. "Esta etapa depois do Microbacias II tem presença no ambiental com foco no econômico. Você vai fortalecer a estrutura no campo também incluindo as questões de energia, tratamento de resíduos, manutenção e acesso a água, recuperação de mata ciliar, conservação de solo, recuperação de vossoroca", menciona.

O coordenador adianta que o perfil de atuação dos técnicos também muda. "Nossa formação e histórico é muito voltada à assistência técnica, que permanece e é essencial. Mas teremos também de dar suporte com gestão de negócios, formação de centro de custos. Para isso vamos capacitar 100 técnicos da Cati para a gestão voltada depois à profissionalização dos produtores", adianta.  

Desafios pra fora da porteira

Expandir negócios além dos circuitos curtos de comercialização, comprar insumos em grupo e se adequar a regras de rastreabilidade de produtos terão de ser enfrentados

Depois de serem apresentados ao universo do valor agregado, os produtores terão pela frente uma série de outros desafios que, no tempo, vão consolidar e gerar produtos com marcas. A maioria das associações ainda não compra insumos de forma coletiva, há pela frente a necessidade de produzir em escala para atender além dos circuitos curtos - quitandas, comércios de bairro e feiras livres - e, também, a adequação em relação a regras como a rastreabilidade da produção ao balcão de venda.

Para o coordenador da regional da Cati em Bauru, assistente agropecuário Marco Aurélio Parolin Beraldo, o Microbacias II mexeu com conceitos dentro do serviço público e nas propriedades. "A geração de agrônomos e técnicos que atua no segmento, em sua maioria, foi preparada para o conteúdo acadêmico, de assistência no campo. Esse tipo de projeto, como o Microbacias II exigiu preparação para suporte, gestão, a capacitação de produtores para o negócio. O grande aprendizado é a formação, para eles e para nós servidores, pra fora da porteira. Capacitar técnicos além dos processos produtivos é uma exigência natural", aborda. 

Sobre os mercados abertos, Beraldo também vê transformações. "O Ceasa, por exemplo, só comprava tudo in natura. Agora começou a mudar. O entreposto está em processo de mudança, onde os armazéns já compram produtos envasados, a vácuo. O programa da merenda é outro potencial. O PNAI abre outra porta", acrescenta.

Marco conta que, em razão de todas essas "janelas de oportunidade", as diretrizes estão em discussão. "Estamos discutindo temas nesse sentido, como ver se vale a pena as organizações venderem para supermercados nos moldes atuais. Há custo de gôndola, custo de participação na rede para inserção do produto. É um custo no negócio que hoje não cabe no bolso do do produtor para vender para os grandes, as redes, por exemplo. Assim, até se preparar, os mercados periféricos, os supermercados de bairros de cidades como Bauru é que continuam valendo a pena", aponta.

Os chamados circuitos curtos de comercialização são as melhores oportunidades de negócios hoje para os produtores. "São produtos para compercio como delivery, de pronta entrega, feiras, pequenas mercearias, mercadinhos. Essas são questões que estamos aprendendo no processo, os custos de gestão e de adequação dos negócios. E isso é primordial a partir desta nova etapa", menciona Marco.

Rastreabilidade

Outra questão é a criação de regras de rastreabilidade de produtos, que estão sendo previstas pelo Governo Federal. A origem é tributária. O governo está de olho em aumentar a receita com a cobrança de impostos através da exigência de rastreamento de produtos da roça até o balcão de comércio. 

O governo usa o discurso de segurança sanitária e alimentar, controle. Mas, no fundo, o alvo é ampliar a arrecadação. O problema é que o efeito natural será aumento de custo na cadeia, mais um peso para quem produz. 

As regras ainda estão em maturação. Mas o Ministério da Agricultura já realizou reuniões e edição de normas para a rastreabilidade. Sobre esse tema, ainda em discussão, Marco Aurélio pontua indagações: "O produto fracionado (couve picada) não é processado. E o rastreamento vai atingir os dois? Se atingir o fracionado isso terá de ser revisto pelos produtores. O produto in natura em confronto com o produto transformado, como fica? O que entra e não entra nessas regras?", adianta.

                   

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O coordenador da Cati Bauru, Marco Aurélio Parolin Beraldo, aposta na gestão em negócios para a próxima fase do programa

Reembolso dos investimentos em máquinas e estrutura

O programa Microbacias II devolve 70% do valor investido pelos produtores em maquinário, reforma, construção e ampliações. Não entram nessa conta apenas o terreno. Com isso, as associações que financiaram máquinas também terão recirculação de capital, podendo reinvestir. 

"O projeto define isso como itens elegíveis e faz a devolução até o limite de R$ 800 mil. Então se esses produtores colocaram uma máquina, por exemplo, de R$ 70 mil, compraram e começaram a usar, gerando receita adicional no processo. Eles apresentam os documentos fiscais e a Cati devolve R$ 70 mil dessa máquina para a associação. Isso dá um fôlego para investimentos porque o recurso volta", esclarece Marco Aurélio Parolin Beraldo da Cati Bauru. O reembolso para os projetos com indígenas e quilombolas é de 99%. 

Um dos projetos bem sucedidos na região foi da associação de produtores de Arealva. "Eles entraram com projeto para a estrutura, armazenar, silos, sede, diminuir o custo de produção e facilitar a comercialização com o armazenamento em escala com o silo perto dos compradores, reduzindo despesa com frete. São duas organizações de produtores. A capacidade do negócio é de 12 mil toneladas, ou 40 mil sacas em grãos (milho, soja, sorgo)", descreve.

Arealva contempla negócio com 17 produtores, agora com armazém para 40 mil sacas já a plena capacidade. "A soja é vendida na Bolsa, mas o milho é produto que comercializa com consumidores dos próprios municípios próximos. Agora, com os silos, eles vão buscar lá. Caiu o frete de ida e volta", cita em relação à Associação de Produtores Rurais de Arealva. 

Outro programa é o da Associação de Assentados de Borebi, para a casa de fabricação (pack ing houve). Lá produzem horatliças e invasam a vácuo. A mandioca já é comercializada limpa e em bandejas plásticas, a couve picada e envasada. "Está na fase de finalização, com a obra física pronta e exigências sanitárias contempladas. Um projeto de R$ 190 mil para máquina de cortar, embaladora a vácuo, balança eletrônica", elenca Marco.

As comunidades indígenas de Avaí conseguiram habilitar três projetos em duas aldeias. "Fizeram para compra de implementos agrícolas. Hoje eles vendem para comércio varejista em Bauru e o reembolso do valor investido é de 99%, pela salvaguarda social como regra do projeto", reforça o coordenador.