08 de julho de 2026
Articulistas

A educação do olhar

Roberto Magalhães
| Tempo de leitura: 3 min

Nossos olhos gostam da novidade. Encantadoras são as pessoas que acabamos de conhecer. Depois deixam de ser. Roubam-nos o sono as roupas enquanto moram nas vitrines. No corpo, já não nos enfeitiçam mais. Olhos assassinos são assim: gostam de matar aos poucos o que um dia os encantou. A curiosidade, por exemplo, morre no exato instante da descoberta. Otto Lara de Rezende disse que "o hábito suja os nossos olhos e lhes baixa a voltagem". Bem isso, a retina vira rotina e nada se enxerga mais.

Contudo, olhos também se educam, sempre se pode aprender a enxergar melhor. Em boa parte da vida, muito do que nos ensinaram era mentira, outras vezes, ingenuidade e, sobretudo, odioso preconceito. Aprendemos a ver a cor da pele, a orientação sexual, a classe social, os poderes do homem, os deveres da mulher... Não aprendemos, contudo, a enxergar pessoas. Daí a necessidade de reeducar o olhar para que tudo possa ser revisto, reavaliado de forma diferente e mais humana.

Olhos educados são olhos poéticos que, iluminados, recusam a mentira ensinada. Rebeldes, saem da perversa passividade. É o que diz poeticamente Miguel Torga: "Canta poeta, canta! Violenta o silêncio conformado. Cega com outra luz a luz do dia. Desassossega o mundo sossegado. Ensina a cada alma a sua rebeldia".

Sem a rebeldia do olhar, viver é (ainda mais) perigoso. Afinal é temerário acreditar nas imagens que dizem ser o que não são. O olhar rebelde despe a vida da sua casca de hipocrisia. Recusa o caminho previamente marcado. Nega-se a ouvir aquela velha história. Quer ver o que poucos veem, o debaixo do pano.

Fomos adestrados para enxergar o que nos possa recompensar materialmente, os objetos da ostentação. Não olhamos as coisas em si, nelas vemos apenas caminhos para outras conseguir. São coisas-meio. Olhar, assim interesseiro, não pode ser contemplativo. Contemplativo é o olhar desinteressado, nada quer, senão a alegria de ver.

No mundo pequenininho, ao qual não damos a devida atenção, o olhar descompromissado extasia-se com o que consideramos insignificante. Pode ser um inseto, uma lágrima, um sorriso, qualquer coisa, enfim, que possa emocionar. Vale muito escalar a montanha exaustiva, quando do mais alto a beleza se deixa surpreender. No profundo silêncio desse momento, apenas contemplamos, nada além desejamos. Alberto Caeiro também fala desse encontro com a natureza: "Da minha aldeia, vejo quanto da terra se pode ver do universo. Por isso, a minha aldeia é tão grande como outra terra qualquer, porque eu sou do tamanho do que vejo".

No aprendizado do olhar, existe uma lição fundamental: aprender a enxergar o outro. Sair do lago narcísico, em que as águas só espelham a adoração da própria cara. Podemos sim (por que não?) encantar-nos com a cara alheia, com o pensar alheio, com o diferente de tudo que somos. É caminho para interiormente se enriquecer. Quem não sai de si, outra coisa não vê, senão a própria cara, o que muito pobre é.

Rica em imagens, em detalhes, a vida exuberante tem muito a nos mostrar. Contudo, só o olhar sensível pode com ela se encantar. Um bom começo seria aprender com os olhos das crianças. São olhos de brincar, olhos de fantasia, nunca cansados de descobrir. Foi o que disse Oswald de Andrade: "Aprendi com meu filho de dez anos que a poesia é a descoberta das coisas que nunca vi".

O autor é professor de redação e autor de obras didáticas e ficcionais.