Há muito que o Brasil virou piada lá fora. Por muitas razões, há anos nos caracterizam como personagens de um teatro do absurdo. Mal saímos da Copa do Mundo com Neymar e suas rolagens dramáticas, entra em cena o Dr. Bumbum, chamado pelo jornal Le Parisien de Dr. Popotin. Segundo o inglês Daily Mail, o cidadão prometia "to make her botton bigger". Essas coisas nos remetem ao dramaturgo Titus Plautus, que usou, pela primeira vez, uns 200 anos antes de Cristo, a expressão "tragicomédia". O Brasil quotidiano é um exemplo vivo do gênero iniciado por Plautus, por juntar o sagrado, ou seja, a tênue linha entre a vida e a morte, à farsa, na forma das suas personagens ao mesmo tempo reais e fantásticas.
Na semana que terminou, a polícia carioca caçava o Dr. Bumbum, com direito a divulgação das fotos dos procurados em cartazes tipo "Wanted". Recompensa de dois mil reais por qualquer informação que pudesse levar à sua detenção. Até os alunos das Emeis já sabem que Denis Cesar Barros Furtado, especialista em procedimentos estéticos nas nádegas, exagerou na dose de polimetilmetacrilato (PMMA) e matou sua paciente Lilian Calixto, de 46 anos. A bancária de Cuiabá ainda teria pago R$ 20 mil pelo procedimento que custou sua vida. Apesar do Dr. Bumbum ter uma respeitável ficha policial, com acusações por homicídio, sonegação, violência, porte de arma e exercício ilegal da Medicina, o Dr. Bumbum é celebridade há anos na internet. É curioso que o Conselho Regional de Medicina nada tenha feito para impedi-lo de realizar procedimentos sem título de especialista. O cirurgião plástico, de 45 anos, até pousava com o torso nu para seus 660 mil seguidores nas redes. Mostrava fotos das suas clientes de bruços e comentários como "sexy sexy" ou "nádegas a declarar". Um trágico comediante, esse Dr. Bumbum. Sua plateia superava a do Dr. Hollywood, que conseguiu convencer gente famosa, como Kim Kardashian, a ter um "botton" sedutor Made in Brazil. Em Beverly Hills, as mulheres estão se preocupando menos com os fartos seios, adorados pelos norte-americanos do século passado. Nascido em São Paulo, o dr. Robert Rey - esse é o nome da fera - chegou a se lançar como candidato à Presidente do Brasil, em 2016. Tentava ressuscitar o Prona, do "meu nome é Enéas". Fracassou, mesmo como candidato a deputado federal pelo Partido Social Cristão, frustrado por ter gasto "muita sola de sapato".
Os antropólogos já estão ouriçados com essa temática glútea. Explicam que os ideais do corpo mudaram desde o início do século 21. Ao mesmo tempo concordam que as linhas curvas dos quadris e nádegas de uma mulher são uma das suas principais características identificadoras. No meu tempo de adolescência a molecada dizia das meninas: "conheço até por detrás". Os mais antigos, só não conseguem entender por que alguém gasta tempo e dinheiro e se submete a pôr a vida em risco, apenas para aumentar sua parte inferior. Por que essa moderna adulação da garupa? Aí, entram os sociólogos: as razões estão na cultura das celebridades e na proliferação da pornografia desde o início do século, via internet. Como a última coisa que a pornografia faz é promover o sexo íntimo e amoroso - os fundos ganham destaques. Opinam os cientistas sociais: as mulheres mais poderosas da história tinham ancas largas, como Catarina II, a Grande (a propósito), da Rússia. Em cena os naturalistas: a natureza fez dos quadris um forte sinal visual para os homens. Os antropólogos acreditam que as fêmeas humanas desenvolveram seios maiores para desviar as atenções das suas costas, à medida que evoluímos para preferir o acasalamento face a face, a intimidade e a união do par (waall). Ah, bom... quem sabe, por isso, a obsessão secular por clivagens, ostentada por ícones do cinema do meu tempo, peitudas como Marilyn Monroe, Rita Hayworth e Ava Gardner. Agora, Rihanna e Beyoncé ganham espaço ao introduzirem o bumbum em suas rotinas de palco, como uma maneira de receber elogios.
Nos Estados Unidos, a imprensa qualifica essa moda como "big fat ass brazilian style" (algo como rabo rechonchudo ao estilo brasileiro). Aqui, já contamina a política. Geraldo Alckmin, para tentar turbinar sua candidatura, vendeu a alma ao Centrão (DEM, PRB, SD, PR, PP) a troco de uma dose de polimetilmetacrilato. O Dr. Bumbum da corrida presidencial já começa a levar por detrás. Nem ainda o acordo foi sacramentado e o Paulinho da Força (SD) começa a acenar para o Ciro Gomes.