09 de julho de 2026
Bairros

Protetor de motoristas e viajantes será celebrado hoje em Bauru

Ana Beatriz Garcia
| Tempo de leitura: 11 min

Reprodução
Dia de São Cristóvão é comemorado anualmente em 25 de julho, de acordo com a tradição da Igreja Católica

Muito se ouviu falar deles durante o início deste ano. E, desta vez, não foi por conta do "buzinaço" que causam circulando pelas ruas de Bauru nas comemorações de São Cristóvão, mas, justamente, pela falta de circulação. Em um ano de ganhos e alguns avanços para a classe, os caminhoneiros se unem a motoristas de carros e de motos para, mais uma vez, celebrar a fé e a devoção ao santo protetor dos viajantes (leia mais abaixo).

A 53.ª edição da tradicional comemoração, que teve início ontem na paróquia de São Cristóvão, em Bauru, continua neste domingo (22), a partir das 7h30, com a tradicional carreata e bênção dos veículos (veja nas próximas páginas), que se repetirá das 15h às 18h. A programação religiosa ainda conta com duas missas em louvor ao santo, que serão às 10h30 e às 19h30, a última, com a participação de dom Rubens Sevilha. A expectativa é receber cerca de 2 mil pessoas nos dois dias de festa, além de contar com o apoio de voluntários e da comunidade vizinha.

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Gerson Aparecido de Paula recebe parentes de São Paulo em dias de festa

Como é o caso de dona Zulmira de Oliveira, 77 anos, que mora no quarteirão ao lado da Igreja de São Cristóvão, na rua Juan de La Cierva - interditada durante os dias de festa. "É bom que fica aqui do lado de casa e dá para participar", comenta a aposentada que, por problemas de saúde, está há algum tempo afastada das atividades religiosas. "Antes eu ia mais, meu filho vai nessa festa desde pequeno e agora, quando dá, levamos meu neto", afirma. O pequeno Ewerthon Camargo de Oliveira, 7 anos, já conhece os festejos de São Cristóvão e aguarda essa edição. "Eu gosto de ir para comer pastel", completa.

Mesmo com a grande mobilização e paralisação causada nas ruas ao redor da paróquia, a vizinhança afirma que a festa é uma grande realização, sem incômodos. "Se pudesse, queria que fosse até mais do que uma no ano", comenta Gerson Aparecido de Paula, 75 anos.

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Zulmira de Oliveira aproveita a proximidade da paróquia de sua casa para ir à festa com seu neto Ewerthon Camargo de Oliveira

De acordo com o aposentado que mora na rua Clóvis Barreto Melchert, em frente à igreja, a 'campanha' para a família conhecer a festa foi boa. "Moro há 11 anos nessa casa. Quando cheguei, já existia a festa. O andor do santo até ficou em casa durante um período. Sempre falei tão bem da quermesse que meus irmãos e sobrinhos de São Paulo aproveitam o final de semana de festa para virem para minha casa", afirma.

Além da programação festiva, seo Gerson aproveita da proximidade com a paróquia para aproveitar a programação religiosa. "Logo de manhã, quando começo a ouvir as buzinas, já pego meu carro e dou a volta no quarteirão para ser abençoado. Depois participamos da missa também. É uma festa muito emocionante", finaliza.

HISTÓRIA

Na parte religiosa da festa, recorda-se a vida e morte de São Cristóvão. Nascido em Canaã, terra de pagãos, o santo, que é celebrado na data de 25 de julho, recebeu o nome de Repróbus. Conta a tradição que ele era uma homem muito forte que desejava servir ao mais forte. Assim, serviu ao general do exército. Percebendo que o general temia espíritos maus e os cristãos os expulsavam com tranquilidade em nome de Jesus, Repróbus resolveu servir a Jesus.

Decidiu, então, morar à margem de um rio muito perigoso para fazer a travessia de pessoas, as quais levava em seus ombros. Certo dia, transportou um menino que ficava cada vez mais pesado à medida que o levava. Ele sentia estar levando todo o peso do mundo em seus ombros. Ao final da travessia, o menino revelou ser o próprio Jesus, que lhe confirmou a fé e a missão de atravessar pessoas no rio perigoso. Daí o nome "Cristóvão", que significa "aquele que carrega Cristo".

O amor com que São Cristóvão passou a exercer seu humilde serviço converteu a muitos na região. Por isso, ele foi preso. Não renegando sua fé, foi martirizado e tornou-se um dos santos mais conhecidos em todo o mundo.

VOCÊ SABIA?

São Cristóvão é venerado em 9 de março na Grécia, em 9 de maio pela Igreja Ortodoxa, em 16 de novembro em Cuba e em 10 de julho em algumas localidades da Espanha e dia 25 de julho na Igreja Católica Romana.

Em ano de discussões sobre a classe, caminhoneiros ganham bênção e apoio

Douglas Reis
Como em todos os anos, os veículos serão abençoados em dois períodos

Neste ano, o Brasil passou por uma discussão abrangente sobre o papel dessa classe de motoristas, os caminhoneiros. Essa será a primeira carreata com a participação dos caminhoneiros após a greve e, para a igreja, um momento de reflexão e gratidão. A expectativa é que passem pela bênção mais de mil carros, como em todos os anos, e em seguida a igreja continua com sua programação festiva e religiosa (veja quadro).

"Nós aproveitamos o final de semana que antecede a data do santo, dia 25 de julho, para que haja a maior participação dos bauruenses, já que não se trata de um feriado", explica o administrador paroquial, padre Márcio José Cattche. "A igreja demonstra, através de sua bênção neste dia específico, a sua solidariedade aos caminhoneiros que sobrevivem das estradas, do transporte de carga. Essa mensagem ganha um relevo especial por conta do momento que passamos, em que lembramos a busca da justiça e equidade nas relações sociais, através também da manifestação desses caminhoneiros já que, ao nosso ver, a demanda reivindicada foi justa", comenta Cattache.

"Este ano, a população brasileira parou, ainda que tenha sido às forças, para pensar na importância dos caminhoneiros. É importante dar esse destaque e pedir a proteção de São Cristóvão e nós, como igreja, também colocarmos a importância dos caminhoneiros em nossas vidas. Ser caminhoneiro não é uma profissão só para eles, mas o trabalho que eles prestam é para toda a sociedade", complementa padre Rafael Zagatto Lima, vigário paroquial que participa da festa há três anos.

TRAJETO

Para celebrar essa data com bênção e orações, a tradicional carreata sairá levando o andor de São Cristóvão à frente pelas ruas da cidade. O trajeto, assim como em todos os anos, começará com o café da manhã, às 7h30, na quadra 40 da avenida Nações Unidas, em frente ao Sindicato das Empresas de Transportes de Cargas de Bauru e Região (Sindbru). Os veículos seguirão até a quadra 17 da avenida Nações Unidas, farão o retorno e entrarão na marginal em frente ao Hotel Obeid. Depois percorrerão pelas ruas Joaquim da Silva Martha e Rio Branco até a quadra 15 da avenida Nossa Senhora de Fátima, onde fica a Igreja São Cristóvão.

GRATIDÃO

Douglas Reis
Mário José Vasconcelos participará da carreata em mais um ano, como faz desde 1972

Proteção. É assim que São Cristóvão é tido pelos que passam os dias na boleia de um caminhão. E é isso que buscam agradecer durante a carreata. Mário José Vasconcelos, de 56 anos, garante que sua vida já foi preservada pelo santo. "Tenho muita fé. Carrego no caminhão um adesivo do santo. Já fui assaltado duas vezes. Em uma delas, o assaltante levou tudo, até o caminhão, mas não mexeu comigo. Então agradeço sempre a São Cristóvão", comenta.

Devoto, Mário participa das carreatas em louvor ao santo desde 1972, quando ainda era pequeno. "Eu sou devoto de São Cristóvão desde que eu me entendo por gente. Todo ano eu entro com o andor do santo na igreja. Faço questão", afirma.

Assim como Mário, outro caminhoneiro que também tem muita devoção e participa da carreata há muitos anos é Oswaldo Pereira Inocêncio, de 46 anos. "Esse é meu 27.º ano participando. É um momento de gratidão pelas graças que a gente recebe, pela nossa profissão e pelos ganhos que tivemos, ainda mais neste ano, com as reivindicações", comenta o motorista, que ainda ajuda nas demandas da festa com transporte de materiais.

No mesmo sentido de gratidão, este é um ano especial para Marcelo Florentino, de 53 anos. "Comecei a pouco tempo a trabalhar com o meu caminhão próprio. Então, é uma festa em que eu vou estar com ele para ser abençoado. Sempre que posso, estou na carreata e agora, com meu negócio próprio, é momento de muito agradecimento", finaliza o caminhoneiro.

'É uma festa de família para família'

Douglas Reis
Como em anos anteriores, além da programação religiosa, a paróquia também conta com a quermesse

Com empenho e devoção, cerca de 100 voluntários se dedicam à realização da tradicional festa de São Cristóvão que, assim como nas edições anteriores, neste 53º ano dedica a renda a projetos voltados à comunidade paroquial (leia mais abaixo). Neste ano, a arrecadação da festa é destinada à construção de um sala na capela Nossa Senhora do Rosário, no Parque das Nações, para atendimento de 70 famílias pela Pastoral da Criança.

À frente da paróquia há um ano, padre Márcio José Cattache destaca que a participação da comunidade na festa é de intensa importância. "Este é um momento de convivermos e confraternizarmos. A comunidade tem extrema importância no desenvolvimento das atividades. Também é um momento de ajudar na manutenção da paróquia. É uma festa de família para a família", destaca.

Na coordenação da festividade há 7 anos, Cláudio Barraviera, 63 anos, mais conhecido como Chimbica, conta que há muito trabalho a se fazer, mas que desde os primeiros anos em que participou da festa, notou a dedicação de todos os envolvidos. "Em 1994, estava com a minha esposa e minha filha na quermesse, quando pediram para que a gente voltasse no domingo, às 6h da manhã, para ajudar a varrer a rua e montar barracas. Foi ali que tudo começou. De lá pra cá, nesses 24 anos que estou trabalhando na festa, vejo que todos se dedicam demais, seja a hora que for. Nesses últimos 7 anos como coordenador, não estou sozinho, tenho os parceiros que caminham junto, porque senão não daria conta", brinca.

PARTICIPAÇÃO

Além dos voluntários que trabalham antes e no dia da festa, a comunidade também ajuda a realização dos festejos. Zô Gonçalves, de 41 anos, auxilia na venda de pasteis no dia da festa há 18 anos e destaca que as arrecadações começam com antecedência. "Temos primeiro a festa de Nossa Senhora do Carmo, que também é da nossa paróquia e, logo depois, temos a festa de São Cristóvão. Nos empenhamos nas arrecadações desde a Páscoa para que dê tempo de tudo. A participação de toda a comunidade e os empresários com as doações ajudam muito. De pouco em pouco conseguimos todo o material ou os donativos para comprarmos", comenta.

Malavolta Jr.
Capela de Nossa Senhora do Carmo foi uma das conquistas da comunidade por meio da renda das festas

O mesmo destaca Chimbica, em relação às contribuições. "Como já estamos fazendo a festa há muito tempo, em uma ligação as pessoas já auxiliam e colaboram para que tenhamos todos os materiais da festa. A comunidade ajuda muito", frisa.

Melhorias

De acordo com o organizador da festividade Cláudio Barraviera, o Chimbica, a renda arrecadada, em todos os anos, é destinada a melhorias para a comunidade paroquial. "Nós arrecadamos de 30 até 50 mil reais, todos os anos. Ano passado, por conta da crise, o valor líquido foi um pouco menor, mas nossa destinação sempre foi para construções e reparos", destaca.

Chimbica ainda lembra que, desde a sua primeira festa, as mudanças na paróquia já ocorriam por intermédio da festa. "Uma das primeiras coisas que eu lembro que foram feitas foi a reforma da casa paroquial. Eles já haviam comprado dois terrenos, ao lado da igreja, com o dinheiro das festas que depois, com mais arrecadação, tornou-se o nosso salão paroquial. Nós reformamos nossa paróquia pelo menos cinco vezes, sendo que na última houve a ampliação. Há uns 5 anos, construímos a capela Nossa Senhora do Rosário, no Parque das Nações, e, no ano passado, fizemos a reforma na capela", conclui.

Pela primeira vez fora das comemorações, dom Ricci manda recado aos fiéis

Samantha Ciuffa
Dom Luiz Ricci relembra os anos como pároco na Paróquia de São Cristóvão

Dom Luiz Ricci, atualmente bispo auxiliar de Niterói, fez história à frente da paróquia São Cristóvão, em Bauru. Ainda enquanto padre, Ricci foi pároco por nove anos e guarda as histórias da comunidade e da paróquia no coração. "Tive a graça de preparar essa festa durante esses anos, mas com uma equipe muito competente, com muita gente mobilizada. Isso nos dois momentos, tanto em nossa programação religiosa quanto em nossa programação festiva, que vemos como um momento de convivência e confraternização", destaca o bispo.

Para este ano, primeira vez em que não estará na organização da tradicional desta de São Cristóvão, o bispo manda um recado aos fiéis e aos padres da comunidade. "Gostaria de convidar a todos os condutores para que participem dessa festa. Essa comunidade é uma família para mim, não estarei lá, mas estarei em oração. Desejo aos padres e à comunidade uma boa festa", finaliza.