O que é falta de humildade? Será que reconhecer nossas virtudes, habilidades e competências configura-se em falta de humildade? Seríamos arrogantes por isso? Sinceramente, tenho alguns pudores para reconhecer as coisas que realizo com maestria. Sei lá, é estranho... Fico meio sem jeito, encabulado... Não sou daquele tipo que fica confortável com elogios. Meus familiares já perceberam isso, e sempre falam que devo reconhecer o meu valor. Fui até fazer terapia a fim de perder essa timidez.
Conversamos muito em família; eu, esposa e filhos; tenho um casal de filhos e um enteado. Nessas conversas há divergências, claro, mas também muitas convergências. E dia desses pedi aos meus familiares que me auxiliassem no processo de autoconhecimento. Sugeri que escrevessem três coisas que eles, meus familiares, acham que eu faço bem feito. Nunca vi tanta pressa em pegar caneta e papel... Pensei: realmente sou um ser diferenciado, alguém com luz própria e admirado pela família, coisa, aliás, rara, contou-me certa feita um amigo. Penso que talvez estivesse eu com a estima baixa para pedir isso, precisando que me levantassem o astral...
Minha esposa foi a primeira a escrever, além de solicitar para falar em voz alta a minha habilidade para que todos escutassem... Eu, claro, aceitei... Então ela não se fez de rogada e afirmou que eu sou muito bom em interromper as pessoas quando elas estão falando. Nisso você é craque, faz como ninguém, disse. Quando desabafamos com você logo recebemos uma interrupção, você é tão bom nisso que não conseguimos completar a primeira frase... Meus filhos, encorajados pela atitude da minha esposa, em seguida afirmaram que uma de minhas maiores habilidades é passar horas ao celular sem conversar com eles. Você é muito bom, pai, em dar atenção para o celular. Já meu enteado cravou que dificilmente alguém sabe falar mal das pessoas como eu. Segundo ele, sou imbatível, campeão em falar mal dos outros.
Eu respondi a todos eles, disse que não, que não sou bom nessas coisas, mas eles bateram o pé... ops... a voz e falaram para eu deixar a modéstia de lado, que reconhecer essas "habilidades" não é ser arrogante não. Meu filho, do alto de sua sabedoria, ainda asseverou: Reconhecer que faz bem essas coisas vai te ajudar no processo de autoconhecimento, pai.
Então, estive pensando com meus botões... De fato reconhecer o que fazemos bem feito pode transformar nossa vida e o olhar que temos para o mundo e as pessoas. Mesmo sabendo que não sou o único craque nessa seleção que interrompe os outros, dá muito valor ao celular e fala mal dos vizinhos, ainda assim posso reconhecer que sou bom nesses quesitos e manter minha humildade.
Como dizem os "boleiros": Graças a Deus e foco nos três pontos...
O autor é colaborador de Opinião.