11 de julho de 2026
Articulistas

Repetidas cristalizações

João Pedro Feza
| Tempo de leitura: 2 min

Psiquiatra e escritor, Flávio Gikovate (1943-2016) deixou 34 livros. Sabia escrever longamente, mas também era bom de resumo. Em um de seus textos, com base no "princípio do prazer de Freud", sintetizou: "O homem é uma criatura que foge do que lhe provoca dor e busca o que lhe dá prazer". E ainda: "É preciso cuidado para não cometer o erro de considerar algo desinteressante apenas porque nós não o entendemos".

Pois, é, meu caro psicoterapeuta: não sei se as coisas estão melhorando desde a sua partida. E olha que instrumental para deixar o novo fluir não falta. Insistimos, para pegar carona na expressão anterior, em um "princípio da repetição". Ora, se tudo o que curto já é o que conheço como mergulhar em outras praias do saber - capazes de proporcionar prazer?

Para ser sincero, todos temos essa tendência a consagrar coisas e nelas morar para o resto da vida. Exemplo: a pessoa gosta do azul. Fim de papo, não está em discussão: será a cor preferida para todo o sempre. Ponto. Onde fica a corajosa curiosidade de afrontar o desconhecido e, dali, extrair satisfação?

Pensamos: "Fulano de tal é o melhor". Por que essa convicção precisa se tornar algo cristalizado e irremovível? "Nunca alguém vai jogar como ele!". Será? E se já houver alguém jogando mais - a gente é que não se joga para perceber? "É o maior de todos". De onde vem tamanha certeza?

Tenho um pouco de preocupação com dois aspectos: 1. A falta de genuína curiosidade dos mais jovens. 2. A presença de uma certa soberba prematura neles. Já acho preocupante a gente firmar gostos absolutos aos 47. Em qualquer idade, vamos dar uma chance ao interesse de desbravar.

Tem um programa no "Multishow" chamado "Experimente". Levam cantores, cantoras e bandas em começo de carreira. Vamos espiar. Há uma série de novos autores de livros por aí: ampla produção poética, ficcional, confessional. Vamos ver. Claro, clássicos são clássicos em qualquer ramo de atividade humana - até no fast food. Mas onde está escrito que até os clássicos não podem chegar um pouco pra lá para outro se achegar?

"Um dos requisitos fundamentais do verdadeiro cientista é a humildade. Ela se baseia na certeza de que as nossas mais sólidas convicções se diluirão em algum momento do futuro", avaliou Gikovate. Ele deu a dica: vamos inventar o "princípio da diluição". E ficar amigo do desconhecido em nome de um amanhã iluminado.

O autor é editor do JC.