08 de julho de 2026
Articulistas

A era dos simplismos

Luciano Olavo da Silva
| Tempo de leitura: 3 min

Em geral, quando uma criança na tenra idade desenha a montanha que viu, ela o faz por meio de uma linha convexa que nem de longe reproduz as filigranas do formato e dos recortes da montanha real. O desenho simplificado decorre da necessidade de adequar a complexidade da realidade aos limites de apreensão e representação ainda em desenvolvimento na criança.

Com o amadurecimento, a maioria dos adultos se liberta da necessidade simplificante e elabora desenhos mais complexos e próximos da realidade, ao passo que outros mantém seus desenhos primitivos, seja porque viciam no hábito cômodo do reducionismo, seja porque, devido a alguma falha no desenvolvimento, não progridem adequadamente na habilidade de perceber ou representar os detalhes da realidade.

Infelizmente, percebo que vivemos um tempo em que, a despeito de a realidade se tornar cada vez mais complexa, há um apego assustador e crescente pelos simplismos irresponsáveis e generalizantes, pelos rótulos, pela celeridade, pelo descompromisso conceitual e por todo tipo de artifício que produz a ilusão de que a realidade cabe nos "posts" das mídias sociais, nas frases de efeito criadas pelos marqueteiros, nas respostas "lacradoras" dos radicais e na brevidade dos "twitters" reproduzidos pelas celebridades descartáveis que nos são impostas como modelos de tudo.

Nesse contexto, assume um aspecto meio dogmático e sagrado as ideias do tipo: "bandido bom é bandido morto", "todo homem é estuprador", "Jesus Cristo foi refugiado", "vote nulo e anule a eleição", "tá com pena leva pra casa", "toda regra tem exceção", "empoderamento feminino", "dívida racial histórica" e coisas do tipo, que, a meu ver, prestam um inestimável desserviço à complexidade da realidade, não corrigem e nem mesmo auxiliam na correção dos males a que se referem, e, o que é pior, aprisionam as consciências em ideias pequenas e distorcidas, dando a elas a falsa concepção de terem compreendido o problema para o qual olharam, quando estão apenas desenhando o tema da maneira mais simples possível, feito a criança que faz uma linha convexa no intento de representar uma montanha repleta de recortes e detalhes.

Precisamos crescer, e, feito o adulto que naturalmente substitui os desenhos simplistas de criança por representações mais próximas da complexidade real, devemos também substituir os reducionismos comezinhos que obviamente não dão conta da velocidade e complexidade em que vivemos por representações mais fiéis aos fatos sociais em toda a sua profundidade.

Os "posts" de facebook têm algum valor na sociedade moderna, mas jamais serão substitutos dos bons jornalistas, dos bons livros, das boas pesquisas, dos bons documentários e de todas as boas fontes seguras e fundamentadas de cultura, informação e análise criteriosa da realidade. Um pensamento crítico precisa de critério para se definir como tal, mas se o seu critério não vai além da confusão conceitual, generalista e simplória de um post de facebook ou de uma frase de twitter, você não irá além da criança que tenta fazer a complexidade de uma montanha caber na singeleza de uma linha convexa.

As pessoas até saberão a que você está se referindo, mas perceberão que sua representação é primitiva e distante da realidade, e ficarão a se perguntar se ela decorre do hábito preguiçoso do simplismo ou da lamentável incapacidade de compreender e representar a realidade em toda a sua magnitude.

O autor é especialista em direito eleitoral e colaborador de Opinião.