Em Bauru, 39 crianças e adolescentes, entre 5 e 17 anos, vivem em oito lares sociais da cidade à espera de adultos que os levem para terem momentos de carinho, lazer e cuidado fora dos muros das entidades. Chamado de Apadrinhamento Afetivo, o programa que proporciona essa assistência aos pequenos não visa a adoção, apesar de possível. A missão do serviço é a de minimizar os efeitos dos traumas em crianças e adolescentes que perderam o vínculo total com seus familiares, seja por violência ou negligência.
A baixa adesão ao cadastro do Programa de Apadrinhamento Afetivo da Vara da Infância e Juventude torna este cenário ainda mais dramático. Em toda Bauru, não há mais do que 12 adultos cadastrados no programa - e 9 deles já são padrinhos de crianças.
Segundo a Vara da Infância e Juventude, este número é três vezes menor que o registrado há alguns anos.
FORMALIDADES
| Marcele Tonelli |
| Crianças e adolescentes destituídos de suas famílias passam dias à espera de padrinhos e madrinhas para terem momentos de lazer fora de abrigos |
Entre os motivos que explicam a redução no interesse em participar do programa, duas situações teriam colaborado. Uma delas é a institucionalização do Apadrinhamento, com a publicação da portaria N.º 12/2017 pela Vara da Infância e Juventude, que trouxe formalidades e regras a serem cumpridas pelos pretendentes ao serviço, em termos de documentação.
"Cada vez que você cria uma formalidade, o brasileiro desiste. As pessoas não querem ser entrevistadas e estudadas para participar. Antes, quando o padrinho existia de modo informal, voluntários que frequentavam os abrigos acabavam estabelecendo vínculos. Levavam crianças para casa aos finais de semana e para participar de festas familiares e datas festivas, como o Natal", avalia o juiz Ubirajara Maintinguer.
Hoje, os padrinhos passam por reavaliação a cada 2 anos. Além de levar o menor passear e viajar, ele deve dar assistência afetiva, moral e educacional, estando presente ou ligando sempre que possível.
| Marcele Tonelli |
| Nádia Limão: entidades estão de portas abertas à espera de pretendentes ao apadrinhamento |
"É importante a criança saber que tem importância para alguém de fora, nem que conversem pelo telefone uma vez na semana. Aqui, damos todo carinho, mas eles sentem que há um lado profissional", exemplifica Nádia Limão, coordenadora do Lar Social Flora (Aelesab).
PRETERIDOS
Outra mudança que colaborou para a redução de pretendentes foi a mudança de perfil dos menores disponibilizados para o apadrinhamento, que passou a privilegiar crianças acima dos 5 anos e as que possuem problemas de saúde físico ou mental, ou ainda que são objetos de adoção inter-racial.
"Quando as crianças de 2 a 4 anos deixaram de atender ao perfil do programa, o desinteresse aumentou, infelizmente", reforça Rosângela Vaz, psicóloga integrante da equipe técnica da Vara da Infância, que auxilia no treinamento das entidades que participam do programa.
Apesar das consequências, a mudança foi vista como positiva pelo Judiciário por privilegiar o apadrinhamento dos menores que eram preteridos pela adoção na cidade anteriormente.
PARA A VIDA
A portaria também trouxe mais segurança e tornou o processo mais justo. Antes, em virtude do envolvimento afetivo causado pelo apadrinhamento, muitos casos culminavam em adoção das crianças menores. O que gerava problema com a lista formal de pretendentes à adoção.
O padrinho afetivo continua podendo escolher se quer ou não adotar, mas, agora, as crianças maiores. "Ele não precisa se limitar ao período de acolhimento, pode seguir para o resto da vida, como acontece com o padrinho de batismo, de casamento..." cita o juiz Ubirajara.
| Samantha Ciuffa |
| Hilário Nunes da Silva e Márcia Bibiana Bozzini da Silva acolhem crianças de abrigos desde 2014 |
Benefícios do apadrinhamento
Tanto o magistrado quanto a psicóloga da Vara da Infância lamentam a baixa adesão ao programa e alertam para os benefícios que o Apadrinhamento gera na vida do acolhido.
"Essas crianças e adolescentes, quando perdem a vinculação afetiva com a família e são preteridas na adoção, sofrem regressão no interesse de frequentar a escola, em se relacionar com outras pessoas e em frequentar cursos de profissionalização, ou seja, de buscar um objetivo de vida", pontua Ubirajara.
"O padrinho vem para suprir essa falta, dar suporte, aconselhar, resgatar a alegria dessa criança ou adolescente e até para dar perspectiva de um futuro melhor", acrescenta a psicóloga Rosângela Vaz.
'Temos amor e carinho para dar, só falta alguém'
"Somos bonzinhos, nós todos temos amor e carinho para dar, só falta alguém, mesmo que seja para ligar e sair de vez em quando" É em tom de apelo voltado aos amigos abrigados que Lívia (nome fictício), de 14 anos, fala sobre o quanto o apadrinhamento tem sido importante na vida dela.
A preocupação com os demais colegas revela um instinto protetor surgido ainda na infância, quando, mesmo antes de completar sete anos, ela cuidava dos três irmãos mais novos, na tentativa de minimizar os efeitos da negligência dos pais em casa.
Para evitar constrangimentos, os entrevistados nesta reportagem terão seus nomes preservados, em consonância ainda com o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA).
Abrigada há sete anos, Lívia é uma das únicas adolescentes apadrinhadas em um abrigo na região Sudoeste da cidade. "Eu fico esperando o final de semana chegar para a minha madrinha me buscar com a filhinha dela, que eu adoro. Ela me pergunta se eu tô bem, como foi minha semana, como estou na escola. Às vezes, ela me leva para passear nos shoppings, no Zoológico ou em aniversários. Eu gosto muito dela, queria que fosse minha madrinha para sempre", afirma.
'FAZ FALTA'
Sem padrinhos atualmente, mas com a esperança de que voltará a estabelecer laços com alguém ou alguma família fora dos limites do abrigo em que está há dois anos, Luan (nome fictício), de 11 anos, lembra saudoso dos passeios para os quais era levado.
"Minha madrinha me levava ao shopping e nas festas de família, eu tinha primos e até uma avó. Quando eu dei problemas na escola, ela foi na reunião. Sinto falta disso", conta Luan. O vínculo acabou rompido, depois de uma tentativa frustrada de transformar o apadrinhamento em adoção.
Atualmente, Luan é mais uma dentre as dezenas de crianças acima dos 5 anos que aguardam por apadrinhamento nos abrigos da cidade.
SONHO
Aos 15 anos, cinco deles vivido em abrigos diversos após a morte da mãe e histórico de rejeição familiar, Vinicius (nome fictício) diz sonhar quase todas as noites com uma vida diferente.
"Queria mesmo é uma família nova, com pai, mãe, irmãos e, quem sabe, até um gatinho", dispara. "Mas um padrinho também serve. Só queria passear um pouco mais, sair daqui do abrigo, e nem precisa comprar nada pra mim. Gosto mesmo é de andar em lugares diferentes", explica. "Sinto falta de ter alguém para abraçar, mas que seja de fora daqui do abrigo", completa.
'FICO ESPERANDO'
A vontade em ser adotado também é maior do que a em ser apadrinhado para Caio (nome fictício), de 15 anos. "Lá na casa da minha madrinha não tem criança chorando e gritando como aqui no abrigo. Tenho mais liberdade e atenção lá, e tem até piscina para nadar", ressalta o garoto, também com histórico de violência familiar em seu passado.
"Se em algum final de semana ela (madrinha afetiva) não vem eu fico esperando mesmo assim. Tenho vontade de ser adotado para não ter que passar por isso", reforça Caio.
'Eles precisam sentir que têm valor fora do abrigo'
Para muitos, o final de semana é sinônimo de alívio e alegria, mas para Nádia Limão, coordenadora de um abrigo de menores na cidade, este é justamente o período mais tenso para quem trabalha no local.
Enquanto algumas crianças são levadas para passeios e viagens com seus padrinhos, a maioria lida apenas com mais um dia normal na rotina.
"Quando chegam os padrinhos aqui, outras crianças e adolescentes acabam pedindo para eles para serem levados juntos. É triste", observa. "Precisamos urgente de mais pretendentes ao apadrinhamento na cidade. As pessoas pesam que é preciso ter dinheiro, mas não é verdade, a finalidade do programa é dar apoio, carinho e cuidado, nem que seja por meio de uma ligação na semana. Aqui, damos carinho, mas para eles é algo profissional. Eles precisam sentir que têm valor no mundo lá fora, que mais gente se preocupa com eles", enfatiza.
Como filhos: amor incondicional
No Apadrinhamento, a adoção é possível, mas esta não é a finalidade do programa. Ser padrinho, portanto, significa também aprender a se despedir da criança ou adolescente após dias de dedicação.
Há sete meses no programa, a técnica de enfermagem Ana Caroline de Oliveira, 25 anos, conta que se interessou pelo apadrinhamento logo depois de engravidar e se tornar mãe de sua primeira filha, a pequena Ana Luiza, de 4 anos.
"O coração muda quando a gente vira mãe. Eu comecei a pensar muito nessas crianças que ficam em abrigos. Conheço a realidade, é triste. Elas ficam o tempo todo com as cuidadoras, mas não conseguem toda a atenção que precisam", conta Ana Caroline.
Há alguns meses, ela organiza cafés da tarde com bolos diferentes em um lar social da cidade. E, aos finais de semana, passa no local para pegar sua afilhada de 14 anos para passear com ela e Ana Luiza.
"No final do passeio, a gente se despede normalmente, mas continuamos trocando mensagens pelo Facebook. A gente se apega, tem carinho, tem preocupação. Não penso em deixar de ser madrinha tão cedo", cita.
NADA EM TROCA
Também madrinha, a técnica de enfermagem, Cristiane Francisco, 34 anos, avalia o crescimento pessoal que o programa lhe trouxe. "A gente aprende a dar carinho e amor sem buscar nada em troca, e o faz como se fossem nossos filhos, mesmo sabendo que não são e que podem ser adotados por outras pessoas a qualquer hora", considera.
Ela diz que todas as despedidas são tristes, mas que o tempo ajuda e que a ação traz um sentimento de realização. "A gente se acostuma. Não me vejo longe do apadrinhamento e incentivo todas as minhas amigas. É bom sentir que estamos contribuindo com a vida de alguém", completa Cristiane.
Apadrinhamento e Família Acolhedora: qual a diferença?
Além do Apadrinhamento Afetivo existe ainda a Família Acolhedora, que é outro serviço destinado às crianças e adolescentes em situação de risco.
Diferentemente do apadrinhamento, contudo, a família funciona como uma espécie de abrigo, que recebe uma quantia por mês e a guarda provisória da criança ou adolescente, sem limite de idade ou definição de grupo prioritário, para ajudar na criação em tempo integral do mesmo por alguns meses. Mas não é possível adotá-lo ao final da acolhida.
Já no apadrinhamento há a possibilidade de adoção. E há prioridade para crianças maiores e adolescentes com problemas de saúde e grupo de irmãos.
Mas vocês têm que devolver a criança?
Foi na década de 90, após diagnóstico médico da impossibilidade de gerar filhos, que o casal Hilário Nunes da Silva, 56 anos, e Bibiana Bozzini da Silva, 52 anos, resolveu adotar. Policiais militares reformados, eles criaram três filhos adotivos, o mais velho, que recebeu o nome do pai, Hilário Filho, tem 24 anos, o do meio, Giovanni, tem 22 e a mais nova é a Bárbara de 12 anos.
Mas a paixão do casal por crianças e por fazer o bem ao próximo nunca esfriou. Desde 2014, eles integram a lista das Famílias Acolhedoras, vertente que se difere do Apadrinhamento por impossibilitar a adoção. Ao todo, o casal já acolheu 16 pessoas entre crianças e adolescentes.
"A pergunta que a gente mais responde para as pessoas é: mas vocês têm que devolver a criança? E com firmeza eu respondo que sim, não temos problemas com isso. Preparamos e cuidamos dela como se fosse nossa. E quando chega o dia de ela ir embora ficamos tristes, mas sabemos que cumprimos nosso dever, afinal o amor é o único sentimento que quanto mais dividimos, mais temos", observa Hilário.
"Toda pessoa que queira assumir o papel de acolhedor, tem que estar capacitado a amar, a doar-se, a abrir o coração e libertar-se do egoísmo. Não deixamos de amar a criança por ela ter ido embora, se a família assim optar, poderemos manter contato mesmo depois da adoção", finaliza Hilário.
Para mais informações sobre o programa Família Acolhedora: (14) 3879-3650 ou (14) 3204-6242
Laços de afetividade são essenciais
O Apadrinhamento possibilita outras experiências de vida em família e novos exemplos aos pequenos, além de amenizar os efeitos negativos que a institucionalização causa no emocional e no psicológico dessas crianças e adolescentes. "Qualquer laço de afetividade, seja ele amor, carinho, apoio, respeito, atenção, é de extrema importância e capaz de modificar essa dura realidade que eles vivem", ressalta a psicóloga Sílvia Regina Salles, que atua no Lar Social Caetano (Aelesab). "Eles nos relatam se sentirem felizes com algo simples feito em família, como ajudar o padrinho a lavar um carro, por exemplo", completa a psicóloga.