07 de julho de 2026
Articulistas

Lua na cabeça

Francisco Habermann
| Tempo de leitura: 2 min

Belíssimo fenômeno astronômico foi presenciado recentemente. O eclipse lunar, fugaz que foi, promoveu o surgimento de suspiros admirados pela imagem avermelhada da lua nos céus. Colorida na nossa retina sensível, claríssima nas mentes reflexivas.

Aproveitando o belo fenômeno visto daqui da nossa pequenez terrena, aposto nas reminiscências. Embora o fugaz evento astrofísico tenha encantado olhares, penso nas reflexões demoradas que o fenômeno provocou nas mentes. Dizem os poetas que a lua e as estrelas são inspiradoras. Confirmo o dito, embora não seja poeta. Das recordações saudosas, uma se destaca em minha cabeça. É das lembranças que guardo da educação básica na infância e juventude. Quero falar delas, as vivenciadas em época de cuca fresca.

O tempo da educação tradicional que vivi em Leme, no interior do Estado de São Paulo, na década de 1940-50, foi meu tesouro de formação. Meu só, não, mas de todos os contemporâneos de então, em todas as cidades brasileiras e - tenho certeza - inspirou, nos dias de hoje, a extraordinária expansão da rede de ensino atual.

Na época em que se ia a pé e sozinhos à escola, desde o primeiro ano, o progresso não se verificava só no campo intelectual, mas também no social e no comunicativo, ampliando as inter-relações pessoais.

Conhecia-se cada vizinho, cada comerciante, cada residência ou estabelecimento comercial onde se passava em frente. Eram conhecidos e amigos dos pais, o que gerava confiança na criança em trânsito. Tempos de segurança que ficaram impressas no íntimo de cada um de nós. Sem medo, tínhamos a vida pela frente, baseada na confiança do estudo e do trabalho.

Em casa, meu irmão Wagner e eu, após as aulas, voltávamos às ruas da cidade, agora com tarefa comercial, oferecendo de casa em casa os apreciados confeitos artesanais da tradicionalidade alemã, como bolachas de mel, sequilhos, apfelstrudel e outros quitutes feitos carinhosamente pelos pais. A segurança que estes depositavam em nós, os filhos, nesta tarefa adicional, reforçava a nossa confiança diante da vida. Foi uma experiência pessoal ímpar, concluo hoje.

Essa atividade nobre e fundamental para nossa família fortalecia laços de conhecimento social iniciados no caminhar escolar diário. Era um tesouro a mais em nossas vidas, além de ajudar no sustento econômico familiar. Recordo os fatos acima na semana do reinício das atividades escolares e torço para nenhum eclipse me ocorrer na memória das experiências vividas. Memória sem eclipse, mas já com lapsos. Se a mãe percebesse, logo diria: tá com a cabeça na lua!

O autor é professor da Faculdade de Medicina da Unesp de Botucatu - fhaber@uol.com.br