Excelente o artigo "Democracia em xeque", do jornalista João Jabbour (domingo passado), e irretocável quanto aos princípios. Ouso, porém, fazer um pequeno comentário num ponto de discordância.
Não creio que seja a democracia que dê sinais de esgotamento, mas sim o capitalismo. Vejamos o exemplo das famosas "pirâmides": cada pessoa convidada a participar contribuía com um certo valor para com quem encabeçava a "corrente financeira" e levava consigo outras tantas pessoas que igualmente contribuíam. E assim, sucessivamente. Como isso implicava numa progressão geométrica e o número de pessoas é finito, em pouco tempo a "pirâmide" não se sustentava e desmoronava, com lucros para uns poucos que estavam no topo e prejuízo para a maioria da base.
O estelionato desaparecia por uns tempos para ressurgir tempos depois, com outras formas e nova nomenclatura. Assim também o capitalismo - sempre se reinventando para manter uns poucos no topo às custas de uma minoria empobrecida. No Brasil, por exemplo: tivemos o colonialismo, o escravagismo, as políticas oligárquicas, a ditadura e, por fim, a corrupção da política pelo capital privado. Novas fórmulas da mesma perversão.
Decorre daí a contradição irreconciliável entre democracia e capitalismo. Enquanto democracia pressupõe o "poder do povo" e isso implica numa igualdade na correlação de forças, o capitalismo é um sistema que prima pela concentração e desigualdade. No capitalismo, atuam duas forças que, apesar de se moverem no mesmo eixo da engrenagem social, giram em sentidos opostos. Uma força econômica concêntrica, que trás para o centro do poder uma minoria abastada "de peso". E uma força humana excêntrica que afasta desse mesmo centro de poder a maioria frágil - os "pesos-pena" da sociedade.
Cientes dessa realidade, democracias consolidadas têm cada vez mais adotado práticas de equilíbrio social, encontrando soluções mais justas, intermediárias entre o capitalismo e o socialismo, assimilando acertos e corrigindo distorções de um e outro modelo. Surgem daí figuras como o capitalismo de estado, em países como a China, e a social democracia, como na Alemanha e na maioria dos países bem sucedidos da Europa.
Entretanto, há países desenvolvidos (economicamente) e atrasados (socialmente) que continuam cegos à essa nova ordem mundial que se impõe. Basta entender que um sistema em que aquele que produz não tem acesso ao que produziu e a mecanização, ao invés de gerar qualidade de vida, provoca desemprego e concentração de renda, está fadado ao esgotamento. (Observem que, no Brasil, o grosso do agronegócio não é voltado ao brasileiro, mas à exportação e, na indústria, a produção é direcionada para poucos).
A ambição trás desenvolvimento, mas a ganância conduz à autodestruição. Como disse Rousseau, "o homem é o lobo do homem" e nós, aqui abaixo da Linha do Equador - livres do "pecado" -, reinventamos o capitalismo e trouxemos à tona nossa própria versão: somos o "Abaporu" de Tarsila, nos autodevorando socialmente num ritual antropofágico.
Isso explica bem porque a classe dominante que habita o topo da "pirâmide" vem disseminando a ideia de um governo de força... Para esse grupo de "iluminados", o próximo governante não precisa entender de economia... Basta que saiba vociferar e manusear uma arma. Pode ser até um grande mentecapto - uma espécie de capitão do mato à serviço da casa grande, na senzala moderna... Afinal, a desigualdade precisa ser mantida a qualquer custo: seja por um arremedo de democracia, seja por uma ditadura disfarçada.