10 de julho de 2026
Tribuna do Leitor

Parabéns a todos os pais! Parabéns ao meu pai!

Zarife Hussein Vilas Boas Siotto
| Tempo de leitura: 6 min

Muitas vezes a gente fica saudosa, o pensamento voa e relembramos muitas coisas que ficaram depositadas em nosso subconsciente.

Quando conheci o mar, meu pensamento se voltava para meu pai. Tentava imaginá-lo ainda adolescente, com seus 16 anos, num navio rodeado de imigrantes, com alguns conterrâneos e outros tantos também de outros países.

Sobre ele (o mar) viera, imagino, ao mesmo tempo que corajoso... temeroso. Certamente, com incertezas e esperanças. Imaginava quanto foi difícil aquela situação que lhe fora imposta pelas circunstâncias da vida, como também deveria ser penoso para os outros tantos imigrantes.

Mas eu pensava em meu pai... Órfão de pai e mãe, desde mais ou menos 3 anos, embora cuidado pelos seus parentes. Era ele e somente uma irmã, Hêlue, mais velha, que já havia se casado. Embora mais novo, se sentia responsável por ela, por isso pensava voltar em breve. No seu querido Brasil, sua segunda pátria querida, como ele sempre dizia... "Melhor país do mundo, não tem guerra, não neva por meses seguidos, terra boa, pena que não é valorizado como deveria ser".

Ao longo da sua vida, pagador dos seus impostos, fez uso de sua cidadania. Presença marcante, muitas vezes irreverente na sua maneira de se expressar, nem sempre compreendido por pessoas despreparadas para interpretar o que ele queria dizer, lhe trouxera muitos dissabores na vida.

Profundo admirador de pessoas honestas, ilustres, exaltando-o com muita eloquência. Nossa casa sempre foi modesta, mas em sua mesa nunca deixou faltar o pão. Respeito aos alimentos sempre lhe foi sagrado.

Religioso, nunca deixou de fazer suas orações, agradecendo todos os dias pela sua vida e suas refeições.

Hospitaleiro, em sua casa já abrigou muitos que necessitavam de sua ajuda por alguns dias, das quais algumas famílias nordestinas que nem conhecia, mas que na ocasião necessitavam de sua ajuda.

Sempre teve muita consideração com seus patrícios e familiares. Em especial seu querido (irmão) Salim Fayad (era assim que ele se referia e o considerava), pessoa querida que com seu jeito brando, honrado e exemplar conquistou a todos na cidade e os meus pais.

Sempre se referia a ele com muito carinho e dizia à minha mãe aos domingos: "Vou visitar meu querido irmão e sua família"... Logo cedo a mamãe dizia: "Não vai visitar senhor Salim Fayad hoje?". Certamente, se inteirava da sua terra também, porque sempre voltava com o jornal árabe nas mãos.

Lia jornais que traziam notícias de sua terra natal, de modo que se informava sempre do que se passava aqui e por lá. Eu não me lembro do meu pai ter ficado um dia sem ler e escrever na sua vida, exceto a última semana em que ficou hospitalizado, antes da sua passagem.

Quanto o visitávamos, nos recebia com muita alegria nos saudando nos dois idiomas, nos abraçando e beijando. Meu pai era intenso nos seus sentimentos. Era rude, severo, mas também muito amoroso.

Muitas vezes, eu me sentava em seu colo e ele me falava algumas palavras carinhosas como: "Zaguidura, aiunebinte" (soava assim mais ou menos), "você é a menina dos meus olhos". Às vezes, também cantava para mim e me ensinava cantar junto: "Hanna Zarife ti bejie"... não me lembro mais o restante.

Papai nos ensinou a ter respeito e educação para com ele e com todos onde nos encontrássemos, como cumprimentar, pedir licença, pedir por favor e agradecer. Era fundamental em nossa educação.

Palavras simples, mas educadas, são tão importantes para que nosso convívio social se torne mais leve ou mais agradável em nosso dia a dia. Às vezes, eu reclamava que determinadas pessoas não nos considerava como ele as considerava, mas ele dizia: "Não faz mal filha. Então, seja melhor que eles".

Ele mesmo era bem seletivo em suas relações, mas soube nos educar para, pelo menos no trato, sermos educados com as pessoas. Seu poder aquisitivo não lhe permitia nos proporcionar bons estudos, mas fez o que pode. Em uma das suas inúmeras orientações, nos recomendava que se oferecêssemos alguma refeição ou café, água que fosse, a alguma visita ou viajante, que seria nossa obrigação, pois ao reencontrá-los, que não lhes relembrasse dessa forma. É grosseiro dizia, desagradável às pessoas, a não ser que as mesmas o façam, pois sofrera na pele muitas vezes esse fato por força da sua profissão, embora em todos esses casos a essas pessoas, ele as agraciava com alguns mimos.

Fato marcante em sua vida, porque até para com seus filhos achava-se na obrigação de não ser "pisado", querendo pagar de alguma forma o que era da nossa obrigação para com o nosso país.

Quando não estava estabelecido comercialmente por força da sua profissão, muitas vezes não havia transporte rodoviário ou ferroviário em determinadas regiões, caminhava muitos quilômetros com muito peso das malas nas mãos, às vezes uma valise nas costas, tomando sol, chuva, vento, frio, calor... Muitas vezes a pão e água.

Como nunca tirava férias, condição necessária ao ser humano, para refazer suas energias, seu cansaço físico e metal se tornava evidente no dia a dia, ficando nervoso e impaciente e até extrapolava conosco. Às vezes eu procurava respostas para entendê-lo, mas eu pensava em suas raízes culturais, ainda tão evidentes no seu dia a dia, e o seu conflito com a nossa geração.

Um homem admirável, sem dúvida nenhuma, personalidade muito forte nos seus 86 anos (quando escrevi esse relato). Eu o olhava e o achava muito bonito, sua pele chamava muito a atenção, fruto da alimentação adequada ao ser humano. Nunca fez extravagâncias com seu organismo, a não ser pelo seu esforço demasiado ao trabalho.

Há algum tempo, com sua idade avançada, seu coração, sua pressão arterial, suas mãos trêmulas e seus dois pés cheios de calos lhe trazem grande desconforto, mas não se deixa abater e continua tenaz no seu dia a dia. Graças ao seu interesse e valorização aos seus antepassados, conhece sua árvore genealógica, relatada desde 1690.

Muitas vezes, tentou nos ensinar a ler e escrever a sua língua de origem árabe, mas a sua insistência nos levava à exaustão e, por consequência, ao desinteresse. Sei escrever e falar pouquíssimas palavras, apesar de que, quando criança, frequentei por pouco tempo um lugar que nos ensinava a escrever.

Não posso deixar de reconhecer que embora meu pai, como todo ser humano, tem suas falhas, ele foi uma pessoa obstinada. Foi rigoroso, guerreiro, absoluto, soberano, conservador, por algumas vezes fazia um grande alarido, foi também muito inteligente, esforçado, sábio, ingênuo, poeta, hospitaleiro, amoroso, saudoso, humilde, honesto.

Por algumas vezes, lamentava-se de não ter conseguido voltar e rever sua terra natal e sua querida irmã, que há muitos já havia partido para "o outro lado da vida". Eu ainda era adolescente quando lhe trouxeram a carta comunicando o fato. Eu, até então, numa testemunhara tanta dor. Talvez, ou melhor, com certeza, ele não tenha percebido que sua maior riqueza estava nele próprio. Que embora amasse demais a nossa terra querida que é o Brasil, a distância geográfica não o impediu que seus entes queridos, na sua terra natal, sua irmã Hêlue, sobrinhos e outros parentes estivessem para sempre no seu coração.

Neste mês de agosto, quando se comemora o Dia dos Pais, meu querido pai Hussein Youssef Fayad Bou Assi, estarei fazendo uma viagem de volta à sua terra natal e sei que sua alma estará comigo.

Obrigada meu pai, pelos seus ensinamentos.

Fica aqui minha homenagem e saudade da sua filha.