| Aceituno Jr. |
| Por conta do barulho, Carlota precisa sair da sala para ler |
A sala é um dos cômodos que permanece quase o tempo todo inabitado na casa da aposentada Carlota Magalhães, 74 anos. Apaixonada por leitura, a moradora da rua Bernardino de Campos, na Vila Souto, precisa recorrer aos quartos que ficam mais ao fundo do imóvel quando quer ter o mínimo de sossego e silêncio.
Apesar de também reclamar dos carros e caminhões, ela é taxativa ao afirmar que o grande vilão da sua tranquilidade são as motos, muitas delas com o escapamento modificado, que correm a toda velocidade, provocando um barulho ensurdecedor.
"Minha sala é muito bonita, mas tenho que ficar no quarto. É o único lugar em que consigo ler, ver televisão. Na sala, o barulho é impressionante. É muita falta de educação. Moro há 30 anos na Bernardino, que eu chamo de Infernardino, e está cada dia pior", diz.
O uso de escapamentos ocos, comumente chamado de abertos, aumenta ainda mais o ronco dos motores e a perturbação aos moradores. E, em Bauru, os motociclistas barulhentos dificilmente são punidos, já que, visualmente, e com o veículo em movimento, o escapamento adulterado não é tão facilmente identificável.
Comandante de grupo do Pelotão de Trânsito da PM, o sargento Marlon Tofta Duarte explica que a autuação pelo uso de escapamentos adulterados só pode ser feita mediante abordagem. Não cabe, portanto, a utilização de decibelímetros ou mesmo a aplicação de multa por som alto com base na Resolução 624, que começou a vigorar em 2016.
"Esta resolução permite que o PM ou agente de trânsito faça a autuação ao verificar o som do lado externo do veículo, sem a necessidade de uso do decibelímetro. Mas ela se aplica somente para equipamentos de som automotivos e não para outros ruídos provocados pelo veículo", explica.
DESCARGA DIRETA
Da fábrica, o escapamento das motos vem originalmente com todo um sistema de diminuição de ruído e poluição. Para provocar um ronco mais intenso, muitos proprietários procuram oficinas para retirar o dispositivo que abafa o ruído do motor, chamado de 'miolo', deixando apenas o cano.
| Samantha Ciuffa |
| Adriano não consegue conversar com clientes quando motos barulhentas passam por sua loja |
Nesse caso, a descarga, tanto de gases poluentes quanto do som do motor, é direta. Trata-se de uma prática comum na cidade, que também perturba Adriano Coelho Hernandes, 53 anos, proprietário de uma loja de parafusos e ferramentas localizada na quadra 5 da rua Antônio Alves.
"Quando essas motos passam, a gente não consegue nem conversar com o cliente no telefone. E é algo que acontece todo dia e incomoda não só a mim, mas a todos os estabelecimentos vizinhos. De quatro anos para cá, parece que a situação piorou. As pessoas não têm educação", comenta.
A ausência do miolo ou do abafador é infração considerada grave e gera multa de R$ 195,23 e cinco pontos na carteira de habilitação. Segundo o sargento Marlon Duarte, o perfil majoritário dos motociclistas flagrados com escapamentos modificados é de homens jovens e que gostam de alta velocidade.
"Tem aqueles que, em vez de usar escapamentos cortados ou abertos, optam por trocar o escapamento original por um modelo esportivo. Neste caso, se estiver em perfeitas condições, com abafador e sem descarga livre, a utilização é autorizada", explica.
MAIOR CONTROLE
E os motociclistas que insistem em utilizar escapamentos modificados terão, em breve, uma dificuldade a mais para burlar a fiscalização. É que, no ano passado, o Contran publicou a Resolução 716, que irá retomar a inspeção técnica veicular, suspensa desde 1999.
O prazo para o Detran implantar o programa é 31 de dezembro de 2019. A partir de 2020, então, todos os veículos deverão passar pela inspeção a cada dois anos, sendo a medida pré-requisito para efetuar o licenciamento anual. E, entre os critérios, o veículo será reprovado se não passar com êxito pela inspeção de controle de emissão de gases e ruído.