Todas as vezes que venci uma discussão impondo um ponto de vista pela (1) performance de minha voz, (2) pela insistência ou (3) pela articulação que fiz extracampo, eu perdi amigos, oportunidades e credibilidade. Nunca participe de discussões para ganhar!
Na verdadeira discussão, os argumentos vencem pela coerência das ideias. Discussão é ringue de ideias sem lugar para "ganhar no grito". Discussão é palco onde suposições dançam ao sabor da lógica. Discussão é tela de emoções que argumentos provocam nas pessoas. Discussão é espetáculo do "com-vencer" e sensação final de que todos ganharam. Se não for assim não passou de bate-boca, briga de comadres ou simulacro democrático. Articular antes da discussão chama-se conspiração!
Discussão requer igualdade entre participantes onde todos expõem seus argumentos. Se não houver "con-senso", que se prolongue a discussão no tempo ou em etapas. Sem consenso, não haverá um "com-viver"! Todas as discussões com vencedor, adubam o ressentimento e ódio nas pessoas. No Brasil está quase impossível discutir sem desqualificar o outro ou ridicularizá-lo caçoando! E verdades absolutas não existem!
EVOLUÇÃO
Aprendi que gozações e brincadeiras jocosas não têm lugar na convivência saudável. Podemos rir, brincar e se divertir às custas de nossas próprias limitações, mas preocupando-se em não atingir o âmago do outro! Se o indivíduo é careca você acredita que realmente não se importa? Deixe que ele brinque com sua careca, mas não você, é grosseiro! O mesmo, não o faça com obeso, velho, deficientes corporais como surdez, óculos e cicatrizes!
Se ele pinta ou não o cabelo, seja inteligente e sutil, não comente nem quando estiver sozinho com a pessoa! É grosseiro. Têm histórias engraçadas que são mancadas ou foras. Elas podem nos divertir, mas antes pense se a brincadeira não é pejorativa, desenvolva esta sensibilidade. Ela também te levará a não falar palavrões, abordagens chulas e constrangedoras. Acredite: as pessoas não gostam e ficam chateadas, mesmo que disfarcem e brinquem que te aceitam ou gostam de sua companhia.
Quem faz jocosidades e usa palavrões pode argumentar: mas vou conversar e interagir como? Reflita, deve estar faltando assunto porque não tens cultura, não assiste teatro e filme, não lê livro e nem visita exposições! Antes de falar use dois filtros. O primeiro: o que dizer, vai fazer o bem ou o mal? O segundo filtro: lembre-se que (a) pessoas primitivas falam de pessoas ou vida alheia, (b) pessoas medianas falam de coisas e bens, enquanto que (c) as pessoas evoluídas conversam sobre ideias, argumentos e posturas. Onde você se encaixa?
TABUS
Aprendi que é possível discutir politica, religião e futebol, mas com humanos que não sejam: 1. Donos da verdade absoluta, 2. Os mais inteligentes do mundo, 3. Ditadores de família que se impõem pelo dinheiro ou chantagem a base de brincadeiras picantes, ironias e humilhações dos que pensam diferente! Todos têm o direito de pensar de acordo com sua experiência, cada um que faça suas opções e que todos respeitem o limite do próximo, não importa quem seja, mesmo que seja um presidiário como até Jesus foi um dia!
Com estas pessoas, aprendi que é melhor disfarçar e conversar sobre futebol, o tempo e qual o vinho ou carro preferido! Se a pessoa insistir, vou ao banheiro, apareceu uma dor de cabeça ou alguém me ligou e caio fora à francesa, ou seja, de fininho!
Estarei fazendo bem a mim, a ele e ao ambiente! Aprendi que ninguém convence ninguém, apenas a reflexão promove a decisão de mudar! Ninguém ensina ninguém, é a pessoa que decide aprender, mas depende só dela!
REFLEXÃO FINAL
Simplicidade é complexidade resolvida! Humildade faz parte da simplicidade. É difícil ser simples. Se dominaste a complexidade do orgulho, responda: eu tenho tolerância e respeito incondicional com o próximo, sem se importar quem seja, pense ou em quem vote? É difícil, mas necessário!
Olhem só o que José Saramago disse: "Aprendi a não tentar convencer ninguém. O trabalho de convencer é uma falta de respeito, é uma tentativa de colonização do outro!" Chega, não quero mais discutir. Adeus! (... saindo de fininho...)
Alberto Consolaro é professor titular da USP - Bauru. Escreve todos os sábados no JC.