08 de julho de 2026
Esportes

'Olhar focado'

Tisa Moraes
| Tempo de leitura: 6 min

Malavolta Jr.
Atletas da categoria de base do Bauru basket participa de pesquisa do Olhar Preciso, Joan Vickers,  professora Universidade de Calgary e Sérgio Tosi Rodrigues, professor da Unesp Bauru
Imagem captada mostra o campo de visão de um dos atletas do Bauru Basket em um lance livre: mira na cesta

O que diferencia atletas de alto rendimento dos que apresentam apenas desempenho mediano? Para uma pesquisa conduzida há 30 anos no Canadá, características como o porte físico e a rapidez não deixam de ser importantes, mas a capacidade do jogador para se manter focado durante a execução de algumas tarefas podem representar a diferença entre quem perde e quem vence uma disputa.

Bastante reconhecido dentro da comunidade científica, o estudo sobre o "olho quieto" chega, agora, a Bauru: mais especificamente, às categorias de base do Sendi/Bauru Basket, por meio de uma iniciativa da Universidade Estadual Paulista (Unesp) de Bauru, com apoio da própria pesquisadora que cunhou esta expressão, a professora doutora Joan Vickers, aposentada da Universidade de Calgary, no Canadá.

Ela explica que o "olho quieto" é um tipo de aumento na percepção visual que permite aos atletas eliminar qualquer distração enquanto preparam seu próximo movimento. Trata-se da capacidade de permanecer com o olhar focado e estável, antes e durante a execução de uma tarefa, por tempo suficiente para que o jogador tenha a melhor resposta motora em momentos de pressão máxima.

A maioria dos atletas considerados geniais obtém este desempenho de maneira inconsciente, mas a boa novidade é que é possível treinar o "olho quieto", uma forma de aplicar a ciência para aumentar a qualidade do esporte de alto rendimento. Em Bauru, o estudo foi iniciado há cerca de um mês, envolvendo quase 30 jogadores das equipes sub-19, sub-17 e sub-16 do Dragão.

A coleta de dados, que serão posteriormente analisados, foi feita a partir de duas câmeras, que captaram os movimentos do atleta especificamente durante a execução de lances livres. Uma das câmeras acompanha o movimento completo do corpo do jogador e outra fica acoplada em uma espécie de capacete, que fica na cabeça do atleta.

RASTREADOR DE OLHAR

Este último equipamento é dotado de uma espécie de rastreador de olhar, importado dos Estados Unidos e conhecido como "eye tracker". "O olho quieto de um jogador de elite, nesta tarefa em particular (lance livre), dura cerca de um segundo", explica Joan Vickers, citando o tempo necessário entre a preparação mental e o arremesso, em que o atleta permanece com o olhar fixo em direção à cesta.

As gravações feitas pelo "eye tracker" dão aos pesquisadores o campo de visão exato do jogador durante o lance. Por meio de um software, as imagens foram acrescidas de uma linha vertical e outra horizontal, que se cruzam ao centro. Assim, é possível observar, de maneira bastante clara, quando o atleta desvia o olhar da cesta, mesmo que por uma fração de segundo, sem que ele perceba.

"Pessoas que não conseguem manter o olhar estável têm mais problemas com concentração e foco. Elas estão mais suscetíveis à ansiedade e à pressão e, portanto, a tendência é de que erem mais", acrescenta a pesquisadora.

Professor do departamento de educação física da Faculdade de Ciências da Unesp, Sérgio Tosi Rodrigues foi orientando de Vickers em seu doutorado e foi a partir dele que o experimento dentro do Bauru Basket se tornou possível.

Além da verificação do desempenho do "olho quieto" dos atletas locais, o pesquisador acrescentou aos estudos a medição do equilíbrio dos jogadores, por meio de uma plataforma com sensores, capazes de aferir a distribuição da força dos pés dos atletas durante os lances livres. "Queremos verificar como as medidas do centro de pressão, do equilíbrio, se relacionam com a capacidade de manter o foco do olhar", revela.

As expectativas, segundo o preparador físico da base do Bauru Basket, Everton de Moraes, são as melhores. "Há muita tensão envolvida em um jogo, principalmente nos lances livres, que podem ser decisivos em uma partida. Os atletas das categorias de base ainda estão em evolução e é muito válido ter uma ferramenta para poder melhorar o percentual de acertos deles", analisa.

Treinamento

Os testes foram realizados no ginásio Panela de Pressão e, agora, os dados coletados serão processados no Laboratório de Informação, Visão e Ação do departamento de educação física da Unesp de Bauru. Segundo o professor Sérgio Tosi Rodrigues, não há prazo para a conclusão dos estudos. "Quando os resultados ficarem prontos, e se o Bauru Basket aceitar, poderemos iniciar a aplicação dos conceitos de treinamento do olho quieto", adianta.

Joan Vickers explica que os atletas que não dispõem da habilidade inata do "olho quieto" podem treiná-lo a partir da conscientização sobre como seu olhar deve se comportar na execução de uma tarefa. "Nos testes com o 'eye tracker', eles se surpreendem com a instabilidade do seu olhar, quando mostramos os resultados nas imagens, e se tornam motivados a fazer como os atletas que conseguem manter o olhar estável. E é fácil mudar. Eles podem melhorar, tentando se aproximar de um bom exemplo", observa.

Bem humorada, a pesquisadora diz esperar que a aplicação dos seus estudos ajude as categorias de base do Dragão a vencer campeonatos e que os alunos da Unesp possam desenvolver novos projetos sobre o tema. "Desejo sucesso aos atletas e aos estudantes de graduação e que eu possa desfrutar de tudo isso".

Apesar de ter se aposentado da Universidade de Calgary em dezembro do ano passado, Vickers continua seus estudos sobre o "olho quieto", já que há muitos aspectos ainda não compreendidos a respeito do tema. Com mais tempo para viajar e apoiar projetos novos, como o de Bauru, que se relacionam com sua extensa pesquisa, ela veio primeira vez à cidade neste mês para participar do 9º Congresso Brasileiro de Comportamento Motor, realizado pela Sociedade Brasileira de Comportamento Motor no câmpus da Unesp de Bauru. O evento reuniu pesquisadores de todos os estados brasileiros.

'Olho quieto'

A professora canadense Joan Vickers iniciou os estudos sobre "olho quieto" há 30 anos, na tentativa de entender como atletas que não tinham o melhor porte físico e nem eram os mais rápidos se sobressaíam sobre os demais. "Havia algo a mais por trás do sucesso. Por exemplo, Pelé, é bem pequeno, assim como Messi, e eles estão entre os melhores jogadores de futebol do mundo. Há algo no modo como eles pensam, como focam e como isso se relaciona com suas habilidades motoras em situações críticas", diz.

Foi, então, que ela coletou, durante uma temporada inteira, dados de uma equipe de atletas que recebia o mesmo tipo de treinamento e que participavam das mesmas ligas. E as estatísticas comprovaram que, quanto melhor era o desempenho de um jogador, por mais tempo e de forma mais estável ele permanecia com o olhar sobre a bola antes e durante seu movimento para acertá-la.

"Há algo especial no cérebro de um atleta com 90% de aproveitamento de lances", descreve, salientando que foram encontradas significativas diferenças na permanência e antecipação do olho quieto destes jogadores, quando comparados com os que tiveram aproveitamento em torno de 50%. Segundo Vickers, esta variação está intimamente ligada à forma como o cérebro do atleta processa uma informação visual e como ele se mantém focado para oferecer uma resposta motora.

"Temos 100 bilhões de neurônios no cérebro, que se organizam a cada vez que o indivíduo vai desempenhar uma tarefa. Essa organização leva tempo. As redes neurais são extensivas, especialmente as que atuam na atenção visual. Este período comportamental que a gente chama de olho quieto está vinculado à necessidade de estas redes neurais se prepararem para a execução do movimento", acrescenta.