Leio sobre os debates entre os presidenciáveis, na televisão, e noto que a estratégia da velha promessa sem pudor é a mesma. Jair Bolsonaro tem a fórmula mágica para resolver os problemas do Brasil, com a criação de uma espécie de "posto Ipiranga", onde vão se concentrar gênios das finanças e da gestão, para indicar-lhe as soluções. Ciro Gomes promete tirar 63 milhões de brasileiros do SPC, hoje impedidos de acesso ao crédito e ao consumo, "por culpa do governo do PT". Henrique Meirelles assegura que criou 10 milhões de empregos como ministro de Lula, e promete mais que tanto, se eleito for, para zerar os 13,5 milhões de brasileiros que estão na rua da miséria.
A estratégia da mentira tem uma trajetória longa na história. Era admitida por Maquiavel, há mais de quinhentos anos. Ele concedia ao governante o direito de uso de meios excepcionais para alcançar os objetivos almejados. Em 1733, circulou na Inglaterra, o panfleto intitulado "A arte da mentira política - Mentir de verdade".
O texto foi atribuído ao escritor satírico e irônico Jonathan Swift (1667-1745), o mesmo autor de "As viagens de Gulliver". Ele discorre sobre as mil maneiras de enganar o povo. A mentira nascia do fato de a alma ter um lado plano, feito por Deus, e outro cilíndrico, feito pelo demônio. O primeiro restituía a imagem das coisas como elas eram. E o cilíndrico, maior do que o primeiro, as deformava. A arte e o sucesso da mentira dependiam dele.
Naquela época a mentira era tida como lícita, desde que "in bonam partem". Ou seja, admitiam-se as falsidades saudáveis para qualquer bom fim. O autor ensinava, inclusive, a maneira mais apropriada e eficaz de destruir uma mentira do adversário. Contando outra.
O "príncipe dos poetas", Olavo Bilac, no final do século 19, escrevia na imprensa: "Para ser político é preciso, antes e tudo, ter força de saber mentir e transigir. Diante do eleitorado, que poderia eu dizer? A verdade? Mas o eleitorado, acesso em justa cólera, me correria à pedradas". Sugeria o poeta que o eleitor gostava mesmo era de ouvir mentiras.
A única coisa que incomodava o amigo alemão, no Brasil, era nunca saber quando as pessoas chegariam aos encontros - conta Antonio Prata em uma crônica. O problema menor era o atraso. Incompreensível, para o estrangeiro, é o sujeito não admitir que está atrasado. "A pessoa manda mensagem, diz "tô chegando". Mas pessoa só chega quarenta minutos depois. Afinal, quando brasileirro diz "tô chegando", em quantos minutos ele chega?"
Também cultivamos o contrário. Acreditamos que a verdade não existe e que os fatos são fabricações. Lula está preso, condenado por corrupção, prática que 97% da população acha que tem que acabar, mas está em primeiro lugar nas pesquisas. Meu pai achava que a ida do homem à Lua era invenção dos americanos.
Tinha uma lógica estranha para justificar sua descrença: eles desceram na Lua, e nela, como sabemos, não se desce, sobe-se. Ela está no céu, acima de todos nós. O papa Francisco prega que a verdade nasce da fé ou apoiada por critérios externos. Aqui, não. Ninguém tem fé num ovo frito. Cremos em Cristo, não nos pregos que o supliciaram.
A falta de fé nas evidências é tão grande que delação premiada não é prova; deputado de confiança do presidente é filmado saindo da pizzaria com mala de dinheiro, mas isso não implica em cumplicidade; ministro do Supremo é padrinho de casamento da filha do empresário de ônibus, mas não se julga suspeito para tirá-lo da cadeia. Na Lua ou no Inferno, seriam elementos de convicção.
Há quem queira incluir o estelionato eleitoral no Código Penal. Criminalizar a conduta da promessa não cumprida, ou de impossível realização. Nem seria preciso. O Código Eleitoral (art. 299) pune com reclusão de 4 anos e multa, quem prometer, dar ou oferecer qualquer tipo de vantagem, para obter, dar voto ou mesmo se abster. Mas, ninguém acredita na lei.
O sociólogo Roberto DaMatta comparava o Brasil à casa grande dos tempos coloniais: no andar de cima os donos do pedaço e, no porão, a senzala com os escravos, a sociedade. Negros escravizados pelos próprios negros, segundo Bolsonaro. "Os portugueses nem botaram os pés na África". DaMatta põe em dúvida, pela cabeça dos céticos deste país: "A bomba atômica existe? E a goiabada cascão? "