08 de julho de 2026
Tribuna do Leitor

Contemplação

Roque Roberto Pires de Carvalho - E-mail: roquerpcarvalho@gmail.com
| Tempo de leitura: 3 min

Para que serve uma tarde de sábado típica de estação fria com o céu empanando o brilho do sol? - seguramente é uma tarde especial para aplicação bem demorada da vista e do espírito com profundas reflexões...

No tempo acadêmico havia uma disciplina com o nome de Introdução ao Direito e o professor (Francisco Ribeiro dos Santos) quando iniciava suas aulas com as declinações latinas para alunos jejunos empolgava-se. Na medida que os alunos desembaraçavam ele aplicava suas lógicas e dizia alto e em bom som: "Tempus fugit...!" e sua intenção era dizer ao futuro bacharel que o tempo foge sem parar, ou seja, perdeu um prazo judicial, perdeu uma audiência, perdeu a causa... Ora, era assustador! Como assim? E o professor no alto de sua cátedra sentenciava em bom português: "O direito não protege os que adormecem...". E, para encerrar, ele acrescentava que a palavra "jus" de Direito, direito de origem humana organizando a vida em sociedade. No sentido objetivo era "jus-norma agendi" e no sentido subjetivo "jus-facultas agendi" e os alunos deixavam a sala lembrando-se do Digesto, trechos de Ulpiano, Pompônio, Gaio, Justiniano e outros conceituados da época romana, segundo JIherig, Kelsen e Cóssio.

Esses nomes permanecem na história do mundo e na memória de quem se põe a contemplar a vida sempre ou mais ou menos preocupado com o passar do tempo. 1936/2018 - 82 anos são passados, mudaram-se os números e, segundo uma velha certidão de nascimento diz que seu titular também ficou naturalmente envelhecido! Para ele havia uma consolação! Visitava sempre as praças públicas da cidade e lá contemplava veteranas árvores, vigorosas com suas raízes e frondosas copas verdes ou floridas em suas épocas próprias e que, ao lado de árvores jovens não sentiam nenhuma inveja, afinal, também para elas o tempo vai passar... e felizes serão quando não atacadas pelas mãos dos homens, pragas ou insetos predadores.

Sua prole que era considerada grande ficou enorme... argh! - conheceu filhos, genros e noras, netas e neto, bisneta e bisneto.

Nesta contemplação pretérita foi possível conferir metas nunca antes imaginadas. Ser levado pelas batidas do coração até locais com grandes desafios a serem vencidos na escola, na família, no trabalho e no convívio social.

Na sua primeira aula como professor de ensino médio prometeu para si mesmo ser um professor que ensinasse o prazer de aprender o gosto bom das coisas e sem fazer nenhuma advertência solene. O aprender com leveza e simplicidade e nos encontros sucessivos em salas de aula exibir a alegria de desfrutar da companhia dos jovens - alegria que está sempre ao alcance da mão. Como é sabido a alegria mora no momento e não no futuro. Alegrias da formatura, do casamento, do nascimento, da viagem, da promoção, da loteria, da eleição, da casa nova, da aposentadoria foram eventos do passado. A alegria se estampa no aqui e no agora no espaço da casa e no espaço da rua. Se não a encontramos, não é culpa dela. Nossos pensamentos andam muito longe dos lugares onde ela mora.

Antes do crepúsculo, retornou ao jardim das suas memórias para contemplar a presença humana nos bancos da praça, bares e cafés, prédios centenários em cidade velha e a alegria das crianças ao redor do coreto enquanto uma banda de música inundava o ambiente com seus dobrados cívicos, marchas e rancheiras para gáudio dos ali presentes.

Ele contemplava tudo isso e sentia-se alegre e muito feliz...!