08 de julho de 2026
Articulistas

Caligrafia e emoção

Prof. Joaquim Eliseo Mendes
| Tempo de leitura: 3 min

Esta crônica não é indicada ou recomendada a leitor jovem, mesmo sênior, pois ser-lhes-á altamente chata e desinteressante, mas aos idosos e superidosos (classificação legal recente), enfim, aos que povoam ou ainda circulam em minha faixa etária dos renitentes "entas". Antes de continuar divagando, quero reportar-me ao Dicionário Aurélio que traz as seguintes observações: "Caligrafia - do gr. Kalligrafhia - Arte de escrever à mão segundo determinadas regras e modelos" e, ainda, "Maneira própria de cada pessoa no uso dessa arte; letra."

E o leitor desta matéria que certamente pode se enquadrar em uma das citadas classificações deverá estar pensando qual é o motivo ou as razões de eu estar abordando um assunto ultrapassado que não diz respeito à nossa atualidade, em que pouco se escreve a mão ou exercitando a caligrafia, pois a predominância absoluta é a da escrita digital, tanto no celular como no computador. Realmente, é para se estranhar e, no entanto, vou justificar-me. "Caligrafia" será o título do capítulo de um despretensioso livro que, a duras penas, estou ensaiando para publicar ainda neste ano e que nos idos "no nosso tempo" era uma disciplina obrigatória do currículo do grupo escolar, de qualquer escola pública.

Tempo em que havia um caderno próprio intitulado "Caderno de Caligrafia" para a prática dessa disciplina, com duas aulas semanais. Caligrafia escrita que tinha suas regras em que as letras com hastes duplas deveriam chegar à linha de cima ou de baixo e em que as palavras sem as mesmas eram escritas no meio das duas centrais. Quando a frase sugerida pelo professor era repetida quatro vezes em uma página de sete linhas.

E mais, o professor ou professora corrigia e dava notas. Após discorrer sobre a caligrafia que ainda hoje é praticada por verdadeiros artistas calígrafos em convites especiais, remeto-me à outra parte do título: "Emoção". Justamente porque o leitor, curioso, deverá estar ainda especulando a relação colocada, pensando o que tem uma coisa a ver com a outra.

E agora sou eu que pergunto: qual será a sua emoção ao encontrar e rever um amarelado caderno de caligrafia do seu tempo de grupo escolar, como aconteceu comigo? E, felizmente, em bom estado de conservação! Mais ainda, será que você, prezado leitor, tem a felicidade de possuir ou encontrar algum como eu tive a sorte, que o transporte à idade do grupo escolar, ao tempo de uma inocente criança como nós fomos?

Pois essa magia aconteceu comigo ao encontrar entre as relíquias para o enriquecimento do futuro livro o meu caderno de caligrafia, o qual me transportou 75 anos atrás, para 1943, levando-me a sentir novamente a sensação de criança, de aluno, sentado na carteira dupla de uma sala de aula, exercitando a aula de caligrafia do dia.

E neste momento tenho em mãos e revejo o amarelado caderno, cuja capa traz os seguintes escritos impressos, depois do Brasão da República: "Grupo Escolar - Caderno de Caligrafia - Aluno Joaquim Elisio Mendes - Professor Antonio Brondi - Ano...N. .. Tip. Comercial-Baurú". E, em páginas internas: "10-9-43 João e José jogam futebol"; "25-9-43 O Brasil tem vinte e seis estados"; "28-9-43 Vou fazer o exame no começo de Novembro". Querido amigo leitor, você pode imaginar a minha emoção procurando transportar-me àqueles dias, àqueles momentos?

Quanta emoção! A sua não seria a mesma?