Um vírus altera a sua estrutura química para fugir do ataque do sistema imunológico. Para enganar o predador, o bicho-pau se vale da forma de graveto e em árvore se camufla. As formigas que se cuidem: existe aranha que, mimetizando ser formiga, delas fazem boa refeição. O mundo natural é assim: enganar o outro é lei de sobrevivência. Coisa de vida e morte. O amanhã pertence a quem sabe mentir.
No mundo dos homens, o jogo continua e a mentira vem do berço. Antes mesmo de falar, o bebê já sabe que o choro é ferramenta a seu favor e dele faz uso nada econômico. O que dizer, então, dos adultos? Usando uma linguagem camaleônica, o bicho-homem sabe que mentir é uma das leis da selva de pedra, que não perdoa aos descuidados. No pensamento darwiniano, mentir é coisa comum, mecanismo inato de sobrevivência. Também assim o diz Eduardo Giannetti: "Todos os animais humanos são em algum momento enganadores ativos e vítimas de engano; todos estamos intermitentemente enfrentando ambas situações". Se navegar é preciso, enganar é ração diária no mundo da selva negocial.
Mentimos, uns mais, outros menos, mas mentimos. Pequenas ou grandes mentiras. Inocentes ou maldosas. E quando não mentimos, exageramos, contamos meia-verdade, omitimos detalhes, enfim pintamos o fato com tinta mais leve ou mais forte, conforme queiramos abrandar ou agravar o contado. Quem conta um conto, todos sabemos, mexe no ponto.
Agora, sem dúvida, a maior mentira é aquela que contamos para nós mesmos. E incrível, nela acreditamos. É o que fazemos o tempo todo sem o percebermos. A automentira faz com que acreditemos que somos o que não somos. Gostamos tanto de nós mesmos que, narcisisticamente, sempre estamos adoçando o nosso chá com falso açúcar. Gianetti disso nos dá bons exemplos: "o meu carro novo é instrumento de trabalho, o do vizinho, fruto da vaidade e da exibição; o turismo que faço é cultural, o do vizinho, crasso e vulgar". Para a mãe amorosa, ainda que todas as evidências digam o contrário, o filho é um modelo de virtudes. Aliás, tais evidências negativas ela não tem a menor dificuldade em reconhecê-las no filho da vizinha. Sem se dar conta, a mãe mente para si mesma. É natural que assim seja. O autoengano lhe é conveniente. A automentira nos ajuda viver. Não poucas vezes, pensamos que agimos impulsionados por nobre motivação, quando, em verdade, a energia que nos move é rasteiramente egocêntrica. Somos todos, de alguma forma, mães mentirosas. Outras vezes, mentimos para nós mesmos porque recusamos enxergar a verdade que nos machuca.
Em junho de 2016, um homem entrou na Pulse, boate frequentada por gays lésbicas, bissexuais e transexuais em Orlando, na Flórida. Armado de fuzil e pistola, matou 49 pessoas e feriu 53. Para ele, a homossexualidade era indecente, mais do que isso, insuportável. O pai do assassino disse à imprensa que o filho ficara revoltado com uma cena que observara num bar, em Miami, pouco tempo antes do atentado: dois homens se beijavam descaradamente e, pior, na frente do filho dele de três anos. Essa teria sido a motivação do massacre que ele praticou na boate americana.
Verdade ou autoengano? Para o psicanalista Contardo Calligaris, autoengano, uma mentira que o assassino contou para si mesmo: "Claro, qualquer um pode discordar do desejo e da conduta sexual de outros; mas quando alguém se sente compelido a agir para impedir ou punir uma conduta sexual diferente da sua é que, de fato, ele está tentando reprimir seu próprio desejo de se engajar nessa conduta diferente". Bem isso, esse ódio exterminador revela a homossexualidade não resolvida em si pelo matador homofóbico. No fundo, toda essa fúria estava centrada numa imagem que ele recusava aceitar: a possibilidade de o filho vê-lo beijando outro homem.
O que pensamos ser, não somos. A mentira que contamos para nós mesmos é uma forma inconsciente de defesa, também de ataque. Melhor não confiar muito no que pensamos. René Descartes, o filósofo da dúvida, deixou-nos célebre frase: "Penso logo existo". O fato de se perceber pensando garantia-lhe a consciência de existir. Parodiando o filósofo francês, há quem diga que a dúvida é o melhor caminho: "Penso, logo hesito".