09 de julho de 2026
Articulistas

O que muda na campanha

Zarcillo Barbosa
| Tempo de leitura: 4 min

Ninguém sabe ainda quais serão as consequências políticas e institucionais do atentado contra o candidato Jair Bolsonaro (PSL). Pelo menos, todos os envolvidos na campanha concordam sobre a necessidade da sua condução dentro dos limites da convivência civilizada entre contrários. Bolsonaro deixa de ser alvo de Geraldo Alckmin (PSDB), que mandou retirar os ataques contra o adversário. Do hospital, Bolsonaro envia recado à militância, "para aliviar". Ele mesmo, dois dias antes de ser gravemente ferido dizia em um palanque no Acre, que queria ter uma arma para "metralhar os petralhas". Seu vice, general Mourão (PRTB), chegou a acusar o PT de ser responsável por alimentar a animosidade: "Se querem violência, os profissionais da violência somos nós". Na entrevista concedida aos jornalistas da Globo News, na noite de sexta-feira, o tom do militar da reserva já era todo ternura.

A facada em Juiz de Fora, o tiro contra a caravana de Lula, o impeachment de Dilma, as prisões da Lava Jato, o "nós contra eles", são ingredientes da mesma fogueira. O ambiente político-eleitoral tornou-se particularmente tenso devido à inevitável impugnação legal da candidatura do ex-presidente Lula, com base na Ficha Limpa. Mas tudo transcorre como deve ser, nos tribunais. Não é assunto a ser resolvido nas ruas. O país se prepara para realizar a sua sétima eleição direta, depois de institucionalizada a redemocratização, em 1988. São três décadas de estabilidade que precisam ser defendidas e incorporadas pela sociedade como patrimônio da nação.

Após o atentado, mudam as estratégias de campanha diante do clima emocional. A morte trágica de Eduardo Campos, em 13 de agosto de 2014, catapultou Marina Silva, sua vice na chapa do PSB. Diminui o protagonismo de Lula preso, com a mudança de foco da mídia. Bolsonaro não participa mais de debates, o que é uma vantagem para quem se faz de mito. Livra-se das censuras de Marina Silva. Ela encarna o feminismo e tem argumentos de sobra para empurrá-lo contra a parede. Candidato que quer armar a população, vira gato escaldado. Imagine se, em vez da faca de cozinha, seu algoz tivesse um revólver. Ou um fuzil. Rejeitado por 39% do eleitorado, analistas do Datafolha admitem que esse número deve cair. A comoção provocada pela tentativa de assassinato, diante das câmeras, alimenta o imaginário popular. Esvazia a influência de Lula nas camadas menos favorecidas. Entra em cena a fake facada. A Fundação Getúlio Vargas contabilizou 1.702.949 tuítes ironizando o fato e a vítima. Em apenas 16 horas o ataque a Bolsonaro tornou-se o evento brasileiro de maior repercussão, com 3,2 milhões de menções. Inclusive em espanhol e em inglês.

Pessoas com muitos seguidores nas redes sociais estão sendo recrutadas pelos candidatos para agirem como internautas desinteressados, que defendem o que pensam e elogiam pleiteantes de cargos públicos. Mas em troca de dinheiro. Quanto mais seguidores tiverem, mais elas são remuneradas. O fato delas existirem "em carne e osso", afastam as suspeitas de que se fala com robôs. Há registros na internet, de mensagens cheias de ideias confusas de autoria de Adélio Bispo de Oliveira, o homem da faca. Segundo a Polícia Federal, trata-se de uma pessoa desequilibrada. Ele mesmo confessa que agiu sozinho, "a mando de Deus".

Na história, os atentados políticos sempre geraram desejos de vingança e de autoritarismo. D. Pedro II escapou de um atentado a tiros, na saída de um teatro, e três meses depois, no dia 15 de novembro de 1889, a Monarquia caiu. Em 1930, João Pessoa foi assassinado a tiros por motivações não-políticas. Era vice de Getúlio Vargas, na campanha ganha pelo paulista Júlio Prestes. O clima emocional derrubou Washington Luiz. "Façamos a revolução antes que o povo o faça", foi o grito de guerra dos populistas contra o baronato do café. Fim da República Velha e início dos extremismos que levaram ao conflito armado entre os constitucionalistas de São Paulo e o governo Vargas. O próprio Getúlio, eleito presidente em 1954, seria levado ao suicídio depois de um atentado a Carlos Lacerda, em que morreu o major-aviador Rubens Vaz.

O Brasil precisa de paz e patriotismo para as reformas necessárias à volta do crescimento econômico. O atentado serve para que todos, em especial políticos e militantes envolvidos na campanha, reflitam sobre o que está em jogo e tratem de conter qualquer ato de inspiração autoritária e ilegal.

O autor é jornalista e articulista do JC.