08 de julho de 2026
Geral

Cinco dúvidas que todos têm sobre a hora da morte

Ana Beatriz Garcia
| Tempo de leitura: 4 min

Malavolta Jr.
Andre Filipe Junqueira fala sobre questões sobre a morte que rondam o imaginário das pessoas

Neste mundo, nada pode ser dado como certo, com exceção da morte e dos impostos, como já escreveu Benjamin Franklin. Durante a vida, vamos nos acostumando com a presença de ambas as exceções, porém, mais que os impostos, a morte nos causa calafrios. Isso porque se trata de um assunto envolto em um universo de tristezas, muitas dúvidas e poucas explicações.

Ao longo dos anos, a medicina paliativista vem trazendo soluções de conforto para tal momento final e destacando a importância de se conversar sobre isso. "Quando a gente fala de morte, a gente sempre fala de vida, porque ninguém sabe o que vem depois da morte. Há uma diferença entre morrer e morte. A morte é a parada das funções vitais, já o morrer é o processo que leva à morte. Se você trabalha esse processo, a morte não é tão sofrida", afirma André Filipe Junqueira, médico geriatra e paliativista e vice-presidente da Academia Nacional de Cuidados Paliativos.

Ele foi o primeiro médico brasileiro premiado pela Sociedade Americana de Oncologia. A escolha levou em consideração a produção científica e o impacto do trabalho do médico na área de cuidados paliativos.

Ele esteve em Bauru para palestrar na 2.ª Jornada Eduardo Alferes de Cuidados Paliativos, evento organizado por José Roberto Ortega Júnior e Tom Almeida e que ocorreu ontem e anteontem na FOB/USP. O médico de Ribeirão Preto, por meio de sua experiência com pacientes em final de vida, explicou ao JC cinco questões que rondam o imaginário das pessoas quando o assunto é morte.

1) Existe essa história de melhora aparente antes da morte?

Muitos têm dúvidas sobre uma súbita melhora pré-morte. André Junqueira diz que, às vezes, isso é observado, mas não é muito nítido. "Quando uma pessoa está em suas últimas horas de vida e evitamos fazer tratamentos mais agressivos, ela acaba ficando mais tranquila e apresenta sinais de conforto, às vezes a gente traduz como melhora. Pode demonstrar tanto no semblante, fisicamente ou até falando que ela está melhor. A pessoa pode estar em uma UTI, mas a gente percebe que, quando recebe visita de familiares, até os sinais vitais ficam melhor. Isso é sinal de um cuidado".

2) Vemos um filme da vida antes de morrer?

De acordo com Junqueira, não é antes da morte que ocorre esse tipo de lembrança, mas em situações de trauma, prévio a um acidente, por exemplo. "Muitas vezes, pessoas que vão passar por um evento traumático puxam a memória até por proteção. Elas podem relatar que viram a vida passar. Já no leito de morte, não é muito comum que as pessoas relatem esse tipo de evento".

3) Dói morrer?

Junqueira explica que não são todas as doenças que vão causar dores. Às vezes, elas vêm podem vir por falta de cuidado com o paciente, mas existem também os casos em que a doença não causa dor e o que existe é o sofrimento existencial. "Isso é quando a pessoa percebe que está deixando de ser quem era. A pessoa está ciente de que vai morrer, não está com dor física, mas sente a dor de estar partindo. A gente traduz isso como dor, mas é o sofrimento que se tem naquela situação. Quando soma a dor existencial com a física, nós chamamos de dor total. Mas, quando houve a despedida e a pessoa está muito bem consigo mesma, por mais que haja a tristeza, não existe o sofrimento. Esses são os tipos de dores no final da vida".

4) As pessoas têm muitos arrependimentos na hora da morte?

"Só morre bem, quem vive bem", diz Junqueira. Ele aponta que, se antes de morrer, o paciente teve tempo de pedir perdão, de se entender com as pessoas, ele parte mais sereno. "Tem um livro que uma enfermeira australiana escreveu sobre esse momento. Há quem relate boas experiências, de realizações, da criação dos filhos e há quem relate seus arrependimentos. Isso também pode variar de acordo com a idade. Eu, que sou geriatra, sempre me deparei com pessoas que já estão mais gratas em relação ao que viveram".

5) Existe a quase morte?

A tão falada Experiência de Quase Morte (EQM) não é uma área dos cuidados paliativos, mas é estudada em todo o mundo. De acordo com Junqueira, a parada cardíaca é exemplo de um das situações em que a EQM pode ocorrer. "A pessoa perde o nível de consciência e entra em sinais mínimos de vida. Ela fica em um nível de subconsciência, que leva à sensação de que está fora do corpo. Existem relatos com muitas pessoas que tiveram paradas cardíacas, por exemplo. Mas, quando as pessoas vão estudar sobre isso, não é muito fidedigno. Pesquisadores, nos EUA, colocaram uma bola vermelha no alto de um armário da sala de reanimação. Então, quando as pessoas diziam que tinham saído do corpo e visto as pessoas ao redor dela, os médicos questionavam sobre o que estaria em cima do armário e ninguém acertou. É um fenômeno que não é muito bem claro".