Há alguns dias, umas das minhas melhores amigas deixou de ser virgem. Este momento importantíssimo e crucial na vida dela ocorreu pouco antes de completar 26 primaveras. Na verdade, ela simplesmente descobriu que não era mais virgem. Aliás, descobriu que nunca fora virgem. Por duas décadas e meia, ela não foi virgem. Ela é libra!
Esta é mais uma das histórias inacreditáveis que vêm lá de Avaí. Talvez por sua ligação nobre com os indígenas - os anfitriões de todos os povos do Brasil -, esta cidade cativante seja um terreno fértil para as melhores estórias (com 'E' e sem 'H' mesmo) que já ouvi. Quase lendas...
E aí vai mais uma delas. Esta minha amiga, por mais de 25 anos, achou que era do signo de virgem. Sempre fez tudo o que os astros ditavam em busca de prosperidade, sucesso, dim dim, sorte e amor. Antes de sair de casa, sempre dava aquela leve consultada no horóscopo do dia. Escolhia desde a cor da calcinha até mesmo as pedras da bijuteria de acordo com o que as revistas do querido João Bidu indicavam.
Chegou a findar namoros que nem haviam começado porque os pretendentes eram arianos e a combinação não tinha o tal encaixe astrológico com as suas características típicas virginianas.
E mais: fez até uma tatuagem no pé com o símbolo de virgem porque sabia que, em um mundo em tamanha metamorfose, o signo era um dos únicos pontos imutáveis em sua vida.
Assim ela viveu por mais de 25 anos. Livre, leve e solta. E virgem! Até que, em uma determinada noite ociosa, ela foi verificar o horário em que nascera e a Bomba de Hiroshima se abateu sobre sua vida. Foi aquela revelação digna de fim de temporada de The Walking Dead. O horário em que ela veio ao mundo deixava claro: era libra! Consultou, consultou e consultou. Outras revistas, outros sites e outros astrólogos. Mas, todos tinham a mesma conclusão fatídica: libra, libra e... libra.
Agora, talvez, ela passará a mudar as cores das calcinhas e quem sabe dará uma chance aos arianos do Tinder. Mas, em seu âmago, será que algo vai mudar? Será que foram as suas convicções e visões virginianas que a transformaram na grande amiga que é? Será que, agora, ela deixará de ser a pessoa alegre e especial que sempre foi? Não sou vidente, mas, tenho a absoluta certeza que não.
E você? Tem algum amigo assim? Em vésperas de mais uma eleição que, infelizmente, caminha para dividir o País, será que aquele amigo que pensa - e vota - diferente deixou de ser a pessoa que você sempre conheceu? Será que as nossas certezas e repúdios (mesmo que coerentes e justos) são maiores do que todos os laços que já criamos? Será que somos formados por quem somos ou por nossas convicções?
Que tenhamos uma eleição em paz e que, independente ou não da nossa preferência, a democracia, tão posta em xeque nos últimos tempos, se faça valer mais uma vez. E que, depois do resultado das urnas, as nossas diferenças não nos façam viver ainda mais em desunião. Que possamos preservar o companheirismo típico de virgem. E, claro, o equilíbrio de libra!
O autor é editor do JC, jornalista responsável da TV SP Bauru e especialista em Linguagem, Cultura e Mídia.