Nesse sábado (29), foi o Dia Mundial do Coração, órgão vital do corpo humano que continua sendo maltratado por muita gente. Segundo dados do Ministério da Saúde, em média, duas pessoas morrem por dia em Bauru por problemas cardiovasculares, como infarto e AVC.
Apesar dos expressivos avanços tecnológicos na medicina para prevenção, diagnóstico e tratamento das doenças, o índice de mortalidade na cidade vem se mantendo praticamente inalterado ao longo dos últimos anos. De 2010 para cá, com pequenas oscilações, a média tem sido de aproximadamente 800 mortes anuais.
| Malavolta Jr. |
| Rubens Cury: "Nada substitui a mudança do estilo de vida" |
| Samantha Ciuffa |
| Roberto Berber: "Conhecimento avança, mas prevenção não" |
No ano passado, por exemplo, 825 pessoas perderam a vida em Bauru em decorrência de enfermidades cardiovasculares. Somente no primeiro semestre de 2018, foram 444 óbitos. Para especialistas da área, a persistência dos números leva a uma única conclusão: as pessoas estão cuidando mal da própria saúde.
"Por mais tecnologia, medicação, informação e médicos preparados que existam hoje para a detecção precoce e o tratamento das doenças cardiovasculares, nada substitui a mudança do estilo de vida", crava o cardiologista Rubens Cury.
A constatação é compartilhada pelo presidente regional da Sociedade de Cardiologia do Estado de São Paulo (Socesp), Roberto Chaim Berber. "O conhecimento científico avança, mas a prevenção não está evoluindo no mesmo ritmo. Por isso, o número de mortes não regride como deveria", diz. Hoje, a tecnologia disponível é tamanha, especialmente na rede privada, que é possível realizar até mesmo ressonância magnética e tomografia do coração. Os procedimentos podem ser indicados, por exemplo, quando alterações são percebidas em exames mais simples, como o eletrocardiograma e o ecocardiograma. "A ressonância tem a função de verificar se há redução do fluxo sanguíneo para o coração com os batimentos cardíacos acelerados. Já a angiotomografia verifica a quantidade de cálcio nas artérias coronárias e placas que as estejam obstruindo", detalha Cury.
NOVO PROTOCOLO
Na rede pública, atendimentos ambulatoriais, cirurgias e internações também são oferecidos no Hospital Estadual e Hospital de Base. É para este último, inclusive, que hoje os pacientes com AVC socorridos pelo Samu são encaminhados, sem necessidade de espera para liberação de vaga, a partir do protocolo estabelecido em abril do ano passado pelo Departamento Regional de Saúde (DRS-6) e o município.
Outra inovação relativamente recente é que, com a maior longevidade da população, procedimentos de intervenção como cateterismo e angioplastia com stent podem ser indicados até mesmo para pessoas com idade acima dos 80 anos. "Em décadas passadas, era algo impensável. Hoje, com o avanço tecnológico, são procedimentos que podem ser feitos com absoluta segurança para prolongar, com qualidade, a vida dessas pessoas por anos", pontua Cury.
Porém, mesmo diante de todo o aparato criado para reduzir as chances de morte e de sequelas irreversíveis em razão de doenças cardíacas, os especialistas reforçam a importância do foco na prevenção, a partir do controle precoce dos fatores de risco. "A maioria são fatores modificáveis, como colesterol elevado, diabetes, tabagismo, obesidade e sedentarismo. Só a herança genérica não pode ser mudada", acrescenta o cardiologista, citando que devem ficar alertas aqueles que tenham pai com episódio de infarto ou AVC antes dos 70 anos ou mãe antes dos 75 anos. Principalmente nestes casos, o controle, diz o cardiologista, precisa começar cedo, até porque o crescimento da população obesa - inclusive entre crianças, que comem mal e permanecem muito tempo diante de computadores, smartphones e tablets - preocupa. "Hoje em dia, não se admite mais ter 'um pouquinho' de pressão alta ou 'um pouquinho' de colesterol alto. A pessoa precisa atingir metas para chegar às taxas que são consideradas normais", explica.
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Saúde, sem radicalismos
Chef de cozinha, Narahi Ribeiro, 27 anos, é exemplo de que é possível ter uma vida "normal", com concessões na dieta, e ser saudável ao mesmo tempo. Há dois anos, ela acumulava 120 quilos e, hoje, com metade deste peso, encontrou equilíbrio em meio às demandas do trabalho, que incluem viagens e pouca rotina. "Eu vivia fazendo dieta, mas nunca tive sucesso. Vivia sofrendo com o efeito sanfona e, há dois anos, optei pela bariátrica, que me forçou a adotar uma alimentação mais saudável", observa. Narahi tinha hérnia de hiato, refluxo e gordura no fígado. Também sofria com baixa autoestima. "Não achava roupas adequadas para mim e já estava entrando em um quadro de depressão. Vi que eu precisava mudar e, realmente, nestes últimos dois anos, tudo melhorou", conta.
Apesar de a cirurgia ter sido um facilitador dentro do processo, a chef conta que o procedimento também cobra um preço, já que modifica a forma de absorção dos nutrientes. "Eu preciso manter uma alimentação regrada, ter cuidado com a ingestão de doces. E tento manter uma rotina de caminhadas de três a quatro vezes por semana para manter o resultado. É preciso foco, persistência e determinação", diz.
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CÓDIGO AVC
Segundo a Secretaria Municipal de Saúde, o Código AVC, implantado em abril do ano passado, continua funcionando em Bauru, inclusive com a aplicação de tratamento trombolítico aos pacientes atendidos na fase hiperaguda, abrangida pelas primeiras horas após o surgimento dos sintomas. A iniciativa é resultado do protocolo estabelecido entre o município e o DRS-6, que passou para o Samu a regulação do acesso das vítimas de AVC ao Hospital de Base. Hoje, eles não precisam mais esperar pela liberação da vaga de internação e, dentro da fase hiperaguda e de alguns critérios predeterminados, podem receber a medicação trombolítica, capaz de dissolver o coágulo cerebral e restabelecer o fluxo de sangue. De acordo com neurologistas, a terapia é capaz de aumentar em 50% as chances de o paciente ficar sem sequelas. O medicamento, contudo, só pode ser administrado em vítimas de AVC isquêmico, que correspondem a 90% dos casos registrados no HB.
Embora a incidência do AVC aumente com a idade, especialmente a partir dos 55 anos, todas as faixas etárias estão sujeitas à doença. A cada dois segundos, uma pessoa sofre um AVC no mundo e, a cada seis, uma morre.
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Jornalista elimina metade do peso
"Ninguém acorda todo dia de manhã 100% motivado a fazer atividade física. Têm dias que é um saco, dá preguiça, mas é uma escolha que a gente faz todo dia", conta o jornalista Marcelo Ferrazoli, 44 anos. Há 8 anos, dias antes de seu pai morrer por insuficiência renal provocada pelo diabetes, ele decidiu transformar seu modo de vida. Na época, Ferrazoli pesava mais de 170 quilos e adotou uma rotina espartana para eliminar quilos da balança. "Apesar da obesidade, eu não tinha problemas de saúde, mas sabia que poderia ter no futuro e não queria mais me preocupar se amanhã eu iria morrer de infarto", conta.
Sem apelar para cirurgia bariátrica ou inibidores de apetite, iniciou um processo de reeducação alimentar e começou a fazer atividades físicas regulares. No início, em razão do peso, ele só conseguia fazer caminhadas leves. Mas, depois de pouco mais de um ano, o jornalista já conseguia correr por dez quilômetros. "Eu fiquei magro e comecei a fazer academia para ter ganho muscular, o que foi outro salto na qualidade de vida", revela.
Hoje com 90 quilos, ele conta que o segredo para alcançar o resultado foi - e ainda é - manter disciplina e o controle emocional. "Não precisa ser radical, fazer dieta de segunda a segunda. Eu vou na academia todos os dias da semana, mas dá para sair, encontrar os amigos, ter vida social."
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Infarto: coração das mulheres, dos idosos e diabéticos merece atenção
Entre essa população, a doença pode se manifestar de forma mais branda e ainda ser confundida com um cansaço ou até mesmo mal-estar
O infarto representa, hoje, mais de 20% dos casos de morte por doenças cardiovasculares em Bauru. Apesar de ter como sintoma clássico a dor do lado esquerdo do peito, ele pode se manifestar de formas mais brandas entre mulheres e idosos, que devem estar atentos aos sinais para buscar ajuda o quanto antes. Neste perfil de paciente, a angina - dor causada pela redução do fluxo sanguíneo para o coração - pode ocorrer em forma de cansaço ou mal estar. "Em um idoso, por exemplo, nem todo cansaço é decorrente do envelhecimento. É preciso investigar, porque pode ser entupimento de coronária", frisa o cardiologista Rubens Cury.
Já as mulheres, ao longo da vida, possuem menor risco de sofrer infarto na comparação com os homens. Mas a incidência passa a ser equivalente após a menopausa, já que há redução dos níveis do estrogênio, hormônio aliado do coração por estimular a dilatação dos vasos e facilitar o fluxo sanguíneo. Justamente por conta dos sintomas diferentes - que podem ser confundidos com enjoo, cansaço ou mal estar - até mesmo o médico, em um pronto-atendimento, pode demorar a fazer o diagnóstico. "E isso pode acabar retardando o tratamento e levar a um desfecho ruim", alerta o cardiologista Roberto Chaim Berber.
DIABÉTICOS
Os sintomas podem se manifestar de maneira branda entre os diabéticos, já que a doença reduz a sensibilidade. "São pacientes que podem subestimar os sintomas e demorar a procurar atendimento médico. Além da morte, demora pode levar a quadro de insuficiência cardíaca, se a falta de fluxo sanguíneo provocar lesão no coração", diz Berber. Cerca de 300 mil pessoas sofrem infarto a cada ano no Brasil e, em 30% dos casos, a doença é fatal. Em Bauru, em média, são 200 mortes por ano - foram 230 óbitos no ano passado e 81 no primeiro semestre de 2018.