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| O psicólogo social Celso Zonta e o historiador Maximiliano Vicente analisam atual cenário político |
O País entra na semana final de uma campanha presidencial curta, com apenas 45 dias de "propaganda oficial", mas com boa parte do eleitorado desgastado pela exacerbação de confrontos de natureza muito mais irracional (emocional) do que de conteúdo. E, apesar desse desgaste emocional, a divisão da sociedade brasileira cristalizada entre as candidaturas representa um desafio para que o País, mergulhado em sua maior crise política, moral e econômica, possa discutir, ao menos, alguns pontos fundamentais de como sair do lamaçal durante o esperado segundo turno da eleição 2018.
Esta necessidade é compartilhada pela análise do psicólogo social Celso Zonta e o historiador Maximiliano Vicente. Desde sempre, eles pontuam que esta é uma observação externa aos fatos. Portanto, até em função do cansaço de eleitores, mesmo da menor parcela que discute política ainda que nas redes sociais, o segundo turno é rejeitado por muitos como a única chance de o Brasil discutir algo que realmente interessa além do ódio.
Na matemática eleitoral, evidentemente, o segundo turno deve acontecer em razão da divisão de votos entre candidaturas. Mas isso só será fato em 7 de outubro se a desesperança e o elevado nível de despolitização do eleitorado não se transformarem em maciça ausência nas urnas, somados a votos nulos e brancos.
Psicólogo social, Celso Zonta lembra que neste primeiro turno da eleição presidencial deste 2018 vários fatos novos tiveram incidência sobre o comportamento da intenção de voto até este momento. Alguns esperados, como a substituição de Lula por Fernando Haddad, pelo PT, como candidato, em 11 de setembro.
"Verificava-se que o Lula tinha poder de transferência. E os 33% de projeção de votos para Lula significavam 13% de transferência. E até este momento a transferência a Haddad ultrapassa esse patamar. E a performance do Haddad em suas entrevistas o ajudaram até aqui a elevar suas condições para estar no segundo turno. Mas o fato extraordinário foi, claro, o atentado a facada contra o Bolsonaro. Do ponto de vista da análise eleitoral, isso o beneficiou porque ele nos debates enfrentava dificuldades em discutir e explicitar conteúdos. E o lamentável incidente o tirou dessa exposição. O processo mítico permanece sem discussão do conteúdo e parte do povo também reage de forma emocional com quem está convalescendo, que foi o caso dele", avalia.
O historiador Maximiliano Vicente ratifica o ponto de vista de Zonta e acrescenta ponderações. "Eu tinha dúvidas se o fato de o PT estar sendo alvo de estar ligado ao comando do maior escândalo de corrupção do País prejudicaria até que ponto o Haddad. E o candidato até aqui conseguiu transferência de votos mesmo assim. O tempo curto de campanha não serviu para conhecer os candidatos. E é um dado objetivo para rever isso na lei. Encurtar a campanha tirou ainda mais a mínima possibilidade de se conhecer e discutir conteúdos de ações de governo. E isso é muito ruim até aqui", acrescenta.
De outro lado, Vicente pondera para o fato de que, em boa dose, políticos tradicionais estão tendo dificuldades em seduzir o eleitorado. "Veja que o Alckmin, mesmo com 40% das alianças, tempo de TV e recurso partidário, está indo mal, o Ciro e a Marina não conseguem avançar para outras faixas do eleitorado. A reação a políticos tradicionais para mim está influenciando também nisso. O eleitorado está preocupado com a renovação. Infelizmente, no meu ponto de vista, é que isso está sendo canalizado para uma opção reacionária e sem que o conteúdo seja discutido ou conhecido", alerta.
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Despolitização de parte dos eleitores
Celso Zonta e Maximiliano Vicente mostram preocupação com o oportunismo, dado o elevado nível de despolitização de parte significativa do eleitorado. "Em uma campanha que até aqui não se discutiu quase nada, a não ser em sua maior parte o ataque à corrupção, tema necessário mas que está sendo atribuído a apenas um segmento, o que não é fato, isso é preocupante. Porque o campo fica aberto a oportunismos e depois que votou não tem como corrigir mais isso", pontua Zonta.
"Esse antagonismo entre duas correntes sem discussão de conteúdo toma conta das redes sociais sem o mínimo de racionalidade. E isso representa hoje duas forças que se confrontam mais como confirmação de um país dividido do que como apresentação de alternativas opostas a soluções para nossos graves problemas. O embate hoje aprofunda a divisão, mas não discute como resolver os problemas. E isso amplia a falta de diálogo e a divisão que já existe no poder. E ninguém dialoga, não se discutem os problemas e isso é um campo aberto para o oportunismo ou o populismo sem conteúdo. Ambas as opções são ruins pensando nos problemas que vivemos hoje", pontua Max.
Tanto o psicólogo social quanto o historiador pontuam que, como avaliação, o segundo turno será o único "remédio", imediato, já que o calendário eleitoral tem de ser cumprido, para minimizar os estragos do confronto despolitizado, com ingrediente emocional e exacerbação, e sem conteúdo que se deu até aqui. "Apenas o segundo turno poderá repor essa necessidade. Porque o Bolsonaro terá de se expor, dizer exatamente o que pensa, quais são afinal suas propostas para a crise. E o Haddad terá de explicar como resolveria os problemas do País com o partido e o grupo que representa. A campanha curta do primeiro turno e os eventos com alta carga de reação emocional impediram isso. Como análise, a facada deu uma anistia ao Bolsonaro e o episódio de impedimento a Lula atrapalhou a campanha", enfatiza Max.
Zonta lembra que o fenômeno de se criar um personagem em cima de uma candidatura é episódio conhecido, do ponto de vista da ciência, e com registros no passado. "A personalidade autoritária (Adorno e Gramsci) é bastante estudada. E na psicologia social é sabido que sociedades que vivem crises agudas tendem a criar e gerar comportamentos irracionais e muitas vezes com soluções de caráter moral e ações mais agressivas e antagônicas. Mas há ainda o elemento de que o campo liberal encontra-se dividido no País. Parte da elite brasileira embarcou nesse processo em antagonismo contra a opção mais à esquerda", acrescenta Zonta.
Para o psicólogo, o segundo turno pode ajudar a depurar essa percepção, tanto em favor de um quanto para outro. "O fato é que o vazio da campanha impediu que esse processo fosse desconstruído. Está posta uma inflexão também para parte do eleitorado dividido. Estes não querem a opção à esquerda, mas também não têm informação para entender o que é a outra opção. Querem um candidato mais liberal, por exemplo, mas não sabem se o que o candidato diz significa que o que ele vai fazer se vencer a eleição. Isto vai ser exposto no segundo turno. Essas diferenças vão ser confrontadas", posiciona Zonta.
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