09 de julho de 2026
Articulistas

Apelidos incontidos

João Pedro Feza
| Tempo de leitura: 2 min

Giselle Hilário, aqui do jornal, mandou texto sobre nomes de casas lotéricas. Eu adoro essa história de colocar nomes nas coisas. Já batizei banda, empresa, já sugeri nome de bar... Também tenho e dou apelidos. É um exercício lúdico que até gente bem mais séria (ou que deveria ser) adora fazer. Gente como os políticos, por exemplo.

Basta lembrar que, em 1989, em plena corrida presidencial, Brizola apelidou Maluf de "Filhote da Ditadura". Maldade. Hoje, numa disputa hiperpolarizada ao Planalto, colou em Bolsonaro a alcunha de "Coiso". Que coisa. Alckmin nunca se livrou do engraçado "Picolé de Chuchu" e, em 2016, até chegou a comentar: "Não fiquei bravo".

Haddad é rotulado como "poste", mas isso ainda não chega a ser um apelido. Para tanto, precisaria ganhar "status" de denominação exclusiva - e, claro, um majestoso "P" maiúsculo. Apelidos cutucam, insultam e homenageiam.

Ainda no campo eleitoral há aqueles em que o nome/apelido fica muito maior do que aquilo que está escrito na certidão de nascimento: caso do Tiririca. Daria para passar o dia pesquisando apelidos que candidatos assumiram como seu, digamos, nome fantasia.

Aí, então, a fauna é farta: Grete Cover, Alceu Dispor, Homem Aranha do Amapá. Lagartixa do Plástico! Juliana Cê Tá Doido, Roberto Bin Laden, Keridão Potência, Zé Rico Play Rei do Gado. É o Brasil dos apelidos incontidos: ninguém resiste a colocar, muitos usam a seu favor e outros já desistiram de tentar tirar. Colou, já era.

No caso das lotéricas que a Gi me mostrou são 12.829 credenciadas pela Caixa em todo o Brasil e, dessas, mais de 3.000 repetem, em seus nomes, a palavra "Sorte" (com "S" bem garrafal). Não achei candidato com "Sorte" no nome. Falha grave dos postulantes. Deveria haver alguns até para contrapor àqueles que dão azar - com ou sem apelido.

Aliás, muitos tentam tirar a sorte grande só para si. Esses aí a gente precisa logo identificar para espantar das urnas.

Necessitamos, enfim, de nomes que atraiam sorte para a coletividade: essa massa formada por gente honesta de muitos nomes e apelidos, mas quase sempre tratada apenas como número. Número a ser conquistado para virar voto. Voto a cair no esquecimento pelos eleitos até o próximo pleito. Pleito, aliás, que mais parece apelido de duplo sentido do que propriamente sinônimo de eleição. Que o pleito saia sem odores de desconfiança da disputa do próximo domingo.

O autor é editor do JC.