09 de julho de 2026
Articulistas

'...E Eu, quem sou para você?...'

Arnaldo Pinzan
| Tempo de leitura: 2 min

Esta citação do Evangelho de Marcos, capítulo 8, versículo 29, inquietou-me quando foi proclamado recentemente. Visto sob o prisma político, sou apenas um número do meu título de eleitor, que me autoriza votar em candidatos aos cargos para novo mandato, segundo a minha vontade.

Mas, sob o olhar do candidato, quem eu sou? Apenas um número a serviço de seus próprios interesses, que até a próxima eleição não serei mais procurado e nem reconhecido. E para aqueles com quem convivo diariamente, quem sou? Muitas respostas: cônjuge, filho, neto, pai, irmão, colega de trabalho, amigo, voluntário, dirigente, professor, médico, advogado, juiz, diretor, cirurgião-dentista, fisioterapeuta, vendedor, gerente bancário, mecânico, policial, convidado de algum evento ou festa, companheiro de pesca, barzinho, churrasco, enfermeiro, acompanhante de idoso, motorista, piloto, jogador de um clube, membro de clubes de serviços, ou de instituições religiosas, e por aí vai, sem fecharmos todas as possibilidades.

Mas um ponto importante é que sou brasileiro como todos os mais de 200 milhões deste país. Tomemos cuidado para não servir de massa dirigida pelas diferentes correntes ideológicas, que usando de uma propaganda enganosa e paga tenta fazer a cabeça dos eleitores enxergarem numa única direção. O que assistimos é uma guerra de verdades, meias-verdades e mentiras, confundindo nosso raciocínio, culminando com essa radicalização que tem contaminado amigos, familiares, quem pensa diferente enfim.

Esquecemos da pergunta que Jesus fez aos seus apóstolos, indagando o que as pessoas diziam dele e o que seus apóstolos pensavam sobre ele. Alguns creem, outros tem algumas dúvidas e outros não acreditam na sua existência, mas usando da mesma frase , o que você pensa de mim, que nesse momento somos o outro para as pessoas. A linha que divide você ser do bem ou do mal depende do momento.

Por exemplo, se o guarda rodoviário emite uma multa contra você, temos uma visão diferente de sua profissão quando somos socorridos na estrada por um defeito mecânico do carro. Na minha profissão, temos importância quando retiramos a dor do dente, mas quando apresentamos os nossos honorários profissionais, já não somos vistos sob a mesma ótica.

Passada essa polarização política, o que restará das amizades que se contaminaram pela indução propagandista? Voltaremos ao nosso dia a dia, sendo e tendo as mesmas pessoas, do convívio diário. Respeitar a posição do outro também fez Jesus dirigir essa pergunta aos seus seguidores, ou seja, o problema não é de hoje. Todos são importantes na sociedade. Podemos prescindir dos coletores de lixo, dos padeiros, dos frentistas dos postos, dos empregados, dos jardineiros, assim como dos médicos, delegados, policiais, auxiliares, professores, motoristas profissionais, dos bons políticos?

Que tal experimentar a paz interior, sabendo que não fomentei ódio, discórdia e busquei uma das melhores definições de política que é "conciliar as diferenças". Estamos escrevendo um momento histórico, onde como na corrida da geração da vida, somente um vencerá. O homem é definido como um ser racional e, por isso mesmo, devemos honrar essa racionalidade.

O autor é professor FOB-USP, membro do Lions Centro e M.E.C.E.