| Reuters | |
| Bolsonaro e Haddad já iniciam campanha em busca de votos neste segundo turno |
O deputado fluminense Jair Bolsonaro (PSL) e o ex-prefeito paulistano e ex-ministro da Educação Fernando Haddad (PT) se enfrentarão no segundo turno da eleição para presidente, no próximo dia 28 deste mês.
A onda de apoios que impulsionou Bolsonaro, 63 anos, na última semana antes do primeiro turno espraiou-se, mas não foi suficiente para finalizar o jogo neste domingo (7). Ele tem 46,03% dos votos válidos, com 100% das urnas apuradas. Uma série de candidatos associados a seu nome nos estados teve desempenho superior ao que as pesquisas indicavam. Datafolha havia feito a projeção meia hora antes, com 87,91% das urnas apuradas.
Já Haddad, 55 anos, amealhou até agora 29,28% dos votos válidos, conquistando endosso significativo na região Nordeste, berço do homem que o colocou na corrida, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).
Será o sexto segundo turno em oito eleições presidenciais desde a redemocratização de 1985.
Se de 1994 a 2014 o que estava em jogo era avalizar ou rejeitar a gestão anterior, agora tanto Bolsonaro como Haddad são opositores ferrenhos da agônica e impopular Presidência de Michel Temer (MDB). O segundo turno, porém, vai se dar entre os dois candidatos de maior rejeição pelo eleitorado.
O deputado conseguiu associar-se à figura da novidade na política, mesmo sendo congressista desde 1991, e ganhou para si o rótulo de combatente principal contra o PT. Promete “quebrar o sistema”, sem dizer exatamente como o fará, apoiando-se na rejeição da política tradicional - algo que vai além de Lula, mas o inclui.
Já o ex-prefeito apresenta-se como um redentor de políticas de seu partido durante a era Lula, buscando esquivar-se do desastre econômico legado por Dilma Rousseff (PT), impedida e substituída por seu vice, Temer, em 2016.
O ex-governador cearense Ciro Gomes (PDT) provou resiliência ao longo da corrida, mas a prevalência do PT e de Bolsonaro no seu reduto, o Nordeste, limitaram sua capacidade de ultrapassar Haddad como nome da esquerda - apesar de simulações de segundo turno o colocarem em posição mais confortável que a do petista. Teve 12,47% dos válidos.
O voto mudancista vencedor neste domingo já foi representado em algum momento por Marina Silva, mas a candidata da Rede teve sua pior derrota nos três pleitos que disputou: mero 1% dos válidos. Foi ultrapassada por um neófito, João Amoêdo (Novo), com 2,50%, e por Cabo Daciolo, com 1,25%.
Henrique Meirelles (MDB), badalado ex-ministro da Fazenda, não teve como tirar a bola de chumbo representada por Temer de seu pé e amargou um sexto lugar, com 1,20%. A ex-ministra Marina Silva (Rede) obteve 1%. Álvaro Dias (Podemos), que fez da defesa da Lava Jato sua bandeira, conquistou somente 0,80%.
O círculo eleitoral brasileiro, de certa forma, traz o país de novo a 1989. Lula, inelegível por ter sido condenado em segunda instância por corrupção, lançou Haddad como seu preposto após esticar até onde pôde a corda de sua candidatura na Justiça.
O filósofo Roberto Romano, professor da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), vê tempos difíceis para o Brasil nos próximos quatro anos, seja com Jair Bolsonaro (PSL) ou Fernando Haddad (PT) na presidência da República. Na avaliação dele, a polarização continuará e a governabilidade do País será difícil. Sobre os apoios no segundo turno, ele avalia que os dois candidatos vão enfrentar dificuldades e terão de pagar um preço alto pelas alianças.
Como será o rearranjo político nesse segundo turno?
Os dois candidatos terão problemas. O Centrão já disse que vai apoiar o Bolsonaro, mas qual custo ele vai apresentar? Por que o Centrão sempre apresenta uma conta. O Bolsonaro vai ter condição de pagar essa conta? Não sei. Por outro lado, o Haddad, o PT e seus dirigentes, fizeram o diabo e mais alguma coisa com o Ciro Gomes (PDT). Reatar relações profundas em um mês não dá. Vai ser muito complicado. Não vejo os eleitores do Ciro passar para o Bolsonaro, mas vejo a possibilidade de eles se absterem. Aí não há o efeito de crescimento. Quem tinha 40% de intenção de voto era o Lula não o Haddad. Ele não é uma liderança. Esse é um erro tradicional do PT, que sempre se apoiou numa liderança nacional que é o Lula. Ele nunca permitiu que lideranças menores se alçassem ao plano nacional. Hoje você tem o Lula preso e lideranças do PT regionais, mas não tem lideranças nacionais. Quem tem muito voto tem a tendência de chamar a atenção de apoios. Mas esse apoio tem preço. No caso do PT, o erro tático e estratégico pode trazer consequências letais.
Como o País sai dessa eleição?
Sai dividido, numa situação tensa em termos sociais e políticos, sem saber que rumos tomar na economia e com um conjunto institucional incapaz de controlar essas forças que foram desencadeadas durante as eleições.
Como será a governabilidade nos próximos quatro anos?
Será um trabalho muito difícil. Esse é um ponto a ser visto com cautela. Em qualquer das possibilidades, seja com Bolsonaro ou Haddad, você terá um Congresso hostil, tentando manter a prática tradicional de arrancar do Executivo benesses, verbas e cargos. Por outro lado, terá um presidente da República que tem de enfrentar uma crise econômica e social cada vez mais grave. Tem ainda uma Justiça, cujo ápice é o STF (Supremo Tribunal Federal), que parece não estar vivendo no Brasil, não está vivendo na crise brasileira. Teremos quatro anos de tensão e não quero ser uma Cassandra (personagem da mitologia grega), mas de possível violência na base da sociedade.
O que isso significa?
Até o começo do século 21 essas revoltas que ocorriam nos momentos eleitorais. Mas não havia uma rede de comunicação, como WhatsApp e o Facebook. Agora a população desiludida produz novos fatos. Hoje não há instituições flexíveis e competentes suficientes para debelar crises que não são só de ordem econômica, mas de ordem social. Aí você tem o fenômeno da exacerbação dos ânimos que não se manifesta só como fenômeno eleitoral, mas como fenômeno ideológico. Quando você tem esse tipo de combate ao outro como inimigo você abre as portas para a violência física e isso pode resultar n uma intervenção legal das forças armadas.