10 de julho de 2026
Articulistas

No meio do caminho, uma vaca

Roberto Magalhães
| Tempo de leitura: 4 min

Ser professor não é nada fácil. Quinze dias longe da família, curso de literatura para professores paranaenses. A cidade gelada, Guarapuava. O frio invadia a sala de aula e eu, congelado, mal conseguia me mexer embaixo de tantas blusas. Falar de literatura era impossível, tanto o meu queixo tremia. Os alunos condoídos dispararam uma campanha de solidariedade. Um me trouxe cobertor de grossa lã; outro, edredom de pena de pato; outro, aquecedor elétrico; outro, poncho, meias grossas, cuecão, qualquer coisa, enfim, que amenizasse o sofrimento do professor.

O tempo, contudo, fez o que melhor sabe fazer, passou. Fim do curso, carro na estrada, dinheiro no bolso, música no rádio e a alegria de se saber voltando. Doía a saudade dos filhos pequenos, também da esposa. A estrada era pura poesia. Havia, porém, uma pedra no meio da estrada. Depois, eu saberia de outra. Não conseguira dizer não ao pedido de carona do Giocondo, um dos alunos do curso. Ele morava numa cidade que ficava no meu trajeto. Não me custaria o favor.

Giocondo fora um aluno completamente apagado. Tímido, não abria a boca. O curso acabou e eu não tinha a menor ideia do timbre da sua voz. O que eu não sabia é que embaixo daquele Giocondo calado existia um Giocondo sedento por falar. Mal acelerei, ele começou a metralhar teorias poéticas, obras lidas e, o pior, a declamar eloquentemente poesias de sua autoria. Percebi, então, que o Giocondo debaixo, agora em cima, queria apagar a péssima impressão deixada durante o curso.

Uma moto, Deus meu! O barulho seco do impacto, depois o agudo som dos pneus atritando o asfalto. O capô levantou-se. Sem nada enxergar, consegui conduzir o carro por mais de trinta metros. A moto saíra repentinamente de uma pequena estrada de terra, cortando a pista. Nenhuma alternativa, choque violento. Desci assustado. A moto partida e um gemido no mato. Era a vítima. Um rapaz franzino. Doía-lhe a perna, chamasse o socorro pelo amor de Deus! As pessoas chegaram condenando a imprudência do motoqueiro. Também a polícia, para cumprir burocracia. Apesar de tudo, o saldo era positivo: o motoqueiro estava vivo, apenas com a perna quebrada. O pai chegou esbaforido, abraçou o filho, tinha sido um milagre, soluçava. A ambulância levou o motoqueiro.

O meu carro estava com a frente destruída e eu não havia renovado o seguro. Ao lamentar o meu esquecimento, um rapaz sugeriu saída interessante:

- Professor, o pai da vítima é fazendeiro rico, pede pra ele pagar o prejuízo. Conselho providencial. Localizei o pai do motoqueiro e lhe fiz sinal para que pudéssemos conversar.

- Seu Sebastião (antes, cuidei de me informar o nome dele), eu estou com um problema muito sério. O seguro do carro está vencido e eu sou apenas um modesto professor. Sei que o senhor não tem nada com isso, mas reconhecendo que o acidente foi culpa exclusiva do seu filho...

- Professor tá tudo certo o que senhor falou. Mas não sei se posso ajudar. Dinheiro, no momento, eu não tenho. Mas reconheço a culpa do filho. A única coisa que posso fazer é dar uma vaca pro senhor.

Entrei em parafuso. Minha situação já estava complicada demais, imagine, acrescentando uma vaca! O que eu faria? Amarraria a vaca no para-choque e a rebocaria até Bauru. Nem pensar. Colocaria a vaca no banco de trás? Seria assustador. Venderia a vaca? Tentei. Nenhum comprador. Devolvi a vaca. Eu estava enrolado demais, melhor ir pro brejo sem a vaca.

Mãos amigas desentortaram os para-lamas e amarraram o capô. Já era possível rodar. Eu queria sair dali. Queria a minha família. Queria a minha mãe! Os policiais queriam coisa bem diferente.

- Professor, o senhor vai ter que ficar na cidade até segunda-feira. Hoje é sexta, não dá tempo para as providências necessárias. Supliquei. Pedi pelo amor de Deus. Tinham eles filhos pequenos? Era inocente, todos reconheciam.

- Deve existe um "jeito" (pronunciei a palavra mágica) pra resolver tudo isso?

- Bem, em consideração ao senhor, vamos dar um "jeitinho", disse o policial. Ficou caro o "jeitinho", não tive opção.

Entrei no carro sozinho: o Giocondo sumira. Liguei o motor. A quarenta por hora, comecei a rodar, a lataria batendo. Humilhado. Sem o dinheiro das aulas. Sem a vaca que, por minutos, fora minha.

Sem o Giocondo, isso eu agradeço a Deus!