09 de julho de 2026
Geral

Barulhos modernos 'roubam' a audição cada vez mais cedo

Tisa Moraes
| Tempo de leitura: 6 min

"Deveríamos adotar a cultura de proteção aos nossos ouvidos assim como nos protegemos usando cinto de segurança quando estamos dentro de um veículo". O alerta é feito pela fonoaudióloga Andréa Cintra Lopes, professora da Faculdade de Odontologia de Bauru (FOB) da USP, dá a dimensão da preocupação crescente entre especialistas da área sobre os impactos danosos que as novas tecnologias, com os chamados barulhos modernos, têm provocado na audição das pessoas.

E o prejuízo, irreversível, está ocorrendo cada vez mais cedo. Segundo dados da Organização Mundial da Saúde (OMS), cerca de 1,1 bilhão de pessoas de 12 a 35 anos de idade correm o risco de sofrer perdas auditivas porque escutam música muito alta, principalmente com o uso de fones de ouvido.

Atualmente, problemas de audição por causas diversas já afetam 360 milhões de habitantes no mundo, dos quais 32 milhões são crianças. "Há uma preocupação crescente porque um número grande de pessoas muito jovens está apresentando problemas de audição devido à exposição prolongada e frequente a sons de alta intensidade. Existem casos de jovens que relataram ficar até 12 horas por dia utilizando fone de ouvido", detalha a fonoaudióloga Lilian Herrera Bueno, da clínica Pro Audio

Ela explica que a deficiência auditiva, mais comum entre pessoas acima de 60 anos, está atingindo mais precocemente a população justamente pela popularização dos fones de ouvidos - inclusive os sem fio e com bluetooth, que podem ser usados em qualquer situação e lugar - e do aumento da potência deste tipo de equipamento. Para se ter uma ideia, uma em cada quatro pessoas entre 18 e 44 anos que ouve som alto com fone de ouvido tem problemas de audição, de acordo com pesquisa recente elaborada pelo Departamento de Saúde da Cidade de Nova York, nos Estados Unidos.

Também preocupa a superexposição de crianças, desde muito pequenas, a brinquedos que emitem sons de alta intensidade ou que permanecem por muito tempo diante de tablets, smartphones e videogames. "O programa internacional Dangerous Decibels vem alertando sobre este tipo de exposição sonora, que vem causando alterações na saúde auditiva bastante importantes e interferindo na capacidade de comunicação e no aprendizado das crianças", comenta Andréa.

SEGURANÇA

O limiar de segurança definido pela OMS é de sons com volume de 85 decibéis, que podem ser ouvidos por, no máximo, oito horas. Conforme o volume aumenta, o tempo seguro de exposição cai drasticamente.

O som produzido, por exemplo, pelo trem do metrô - estimado em 100 decibéis - pode ser escutado sem risco de danos à saúde por apenas 15 minutos por dia. Já o som gerado por aparelhos que reproduzem músicas pode variar de 75 decibéis até 135 decibéis - o que exige dos usuários mais atenção na hora de utilizar fones de ouvido.

Como medida de prevenção, a receita infalível é sempre lançar mão do bom senso. A regra, segundo Andréa Cintra Lopes, é simples: reduzir o período de exposição aos ruídos, diminuir o nível do volume e evitar, sempre que possível, o uso dos perigosos fones de ouvido.

"A primeira dica é se afastar da fonte de ruído, a segunda é abaixar o volume e, quando nem uma coisa nem outra for possível, usar o protetor auditivo. Há um certo desconhecimento, mas ele não serve apenas para trabalhadores da indústria", acrescenta.

Fique atento aos sinais

Embora o número de pacientes que procuram os consultórios com queixas sobre dificuldades para ouvir tenha aumentado, os especialistas citam que os cuidados com a audição ainda são bastante subestimados. Além da possível demora para que a pessoa se dê conta da ocorrência, a tendência é tratar o assunto com menor atenção.

E, ao deixar de buscar a ajuda adequada, são grandes as chances de o problema se agravar ao longo do tempo, gerando repercussões graves na vida da pessoa, como dificuldade de comunicação e de localização de fontes sonoras. Por isso, é importante estar atento aos sinais, que tendem a aparecer nos primeiros dois a cinco anos de exposição constante a ruídos.

Segundo a fonoaudióloga Lilian Herrera Bueno, o indivíduo deve procurar um profissional do ramo para uma avaliação ao perceber que começou a ter dificuldades para entender o que as pessoas dizem. "Também é importante levar em conta a percepção das pessoas próximas. Se elas passam a comentar que você não está ouvindo direito, é melhor procurar ajuda, porque é possível estabilizar a perda auditiva", comenta.

Outro sintoma, que não é regra, é o zumbido. A fonoaudióloga esclarece, por exemplo, que o barulhinho incômodo pode aparecer em outras situações, como a exposição ao som de uma casa noturna durante algumas horas. "Neste caso, é só um desconforto temporário e reversível. A lesão normalmente ocorre com a exposição prolongada e frequente, mas não há um parâmetro estabelecido, que varia de acordo com a suscetibilidade de cada pessoa", conta.

De acordo com a fonoaudióloga Andréa Cintra Lopes, o tempo transcorrido até surgimento da deficiência auditiva também pode depender de outros fatores, como problemas de saúde preexistentes e uso associado de medicamentos.

Perda precoce e uso do aparelho

Há quatro anos, um psicólogo, que preferiu manter a identidade preservada, notou que os sons não estavam mais chegando com a mesma intensidade no ouvido esquerdo. Ele estava próximo a uma caixa de som e, ao virar a cabeça de um lado para outro, notou que a música ambiente chegava com mais força do lado direito.

Hoje, aos 36 anos, ele precisa utilizar aparelho auditivo para sanar o problema. "Foi uma perda progressiva e com o tempo, surgiu também um zumbido, que me acompanha até hoje, com menos ou mais intensidade. Mas foi somente com o aparelho que foi possível estabilizar a perda", conta.

O psicólogo diz que a causa do problema ainda não foi detectada, já que ele nunca teve o hábito de se expor a ruídos muito elevados por longos períodos. Mas, para quem tem este costume, ele dá o alerta: apesar de conseguir ter uma vida normal, a audição para quem precisa usar aparelho nunca mais é a mesma.

"Em ambientes com muito barulho, é um pouco complicado. Embora a qualidade da audição melhore muito, o som chega um pouco metalizado. Não é natural, como um ouvido bom", aponta.

NO TRABALHO

A exposição excessiva a ruídos também é fator de preocupação entre algumas profissões. Na indústria, devido à obrigatoriedade legal do uso de protetores auditivos, os danos tendem a ser menores, mas algumas funções em que este tipo de proteção é incomum, possibilidade das perdas auditivas cresce exponencialmente.

É o caso, por exemplo, de motoristas profissionais, como taxistas e condutores de ônibus, bem como dentistas, músicos e funcionários de bares e casas noturnas, entre eles seguranças, DJs, cozinheiros e garçons. "São locais com ruídos que ultrapassam facilmente os 80 decibéis. No longo prazo, dependendo do tipo de exposição, os danos irreversíveis podem surgir muito cedo", observa Andréa Cintra Lopes.