Assim como Etienne de La Boétie, Baruch Espinosa viveu no período pré-revolução francesa, em que os ideais de queda do absolutismo germinavam e, assim como Etienne, foi cirúrgico e realista em suas reflexões e propostas. E chama a atenção em sua obra a ruptura com o viés idealista que, até então, era como uma regra na narrativa do homem político desde a Grécia antiga.
É o que se nota na obra "Tratado Político", quando Espinosa traz a sugestão e explicação da abordagem realista do homem político: "Quando, por conseguinte, apliquei o ânimo à política, não pretendi demonstrar com razões certas e indubitáveis, ou deduzir da própria condição da natureza humana, algo que seja novo ou jamais ouvido, mas só aquilo mais de acordo com a prática".
E prossegue o pensador: "Assim, não encarei os afetos humanos, como são o amor, o ódio, a ira, a inveja, a glória, a misericórdia e as restantes comoções do ânimo, como vícios da natureza humana, mas como propriedades que lhe pertencem, tanto como o calor, o frio, a tempestade, o trovão e outros fenômenos do mesmo gênero pertencem à natureza do ar, os quais, embora sejam incômodos, são contudo necessários e têm causas certas, mediante as quais tentamos entender sua natureza".
De tão nobres reflexões extrair-se-ia, provavelmente, um tratado extenso sobre tal proposta realista de estudo dos fatos e dos atos do homem político, contudo, convém em breves linhas, tecer algumas considerações. A primeira é a da falibilidade da política conquanto ato do ideal, da criatividade e da prática humana, como são todas as instituições, até mesmo as tidas por sagradas.
A segunda conclusão obtenível de tais lições é a de que o tecnicismo como traço ou elemento predominante é grave erro, e a sua proposta por qualquer liderança política, seja como imagem, ideal ou como substância de proposição como um traço a se notar é a antítese do que nos ensina a prática como uma estratégia viável.
Porém, o mais importante é a ruptura do ideal racionalista dos atos do homem político. Sejam os senhores das letras, sejam os menos dotados das intelectualidades, homem nenhum estará livre de seus afetos em suas práticas de sujeito social e político.
Contudo, entre o microcosmo e o cosmos do infinito em expansão existem dimensões diversas sobrepostas, o que é capaz de sugerir, àqueles que se dão à observação, que os afetos não autorizam as piores práticas e a negativa de evolução social em construção e, valendo-se da metáfora proposta por Espinosa, até mesmo as tempestades, embora incômodas, são necessárias e têm causas certas.
O autor é advogado em Bauru.