09 de julho de 2026
Articulistas

Minha cabeça está acima da chuva e das rosas

Otavio Augusto Amaral de Calmon Borges
| Tempo de leitura: 3 min

Tudo o que acontece é premeditado? Na última quarta, fui a um supermercado, mas infelizmente não encontrei o que queria. Perdi cerca de meia hora procurando para certificar-me. Decepcionado, dirigi-me à saída, não a que costumo usar, mas uma outra, lateral. Eis que me deparo com um senhor, já de idade, com dificuldade para guardar as compras que estavam amontoadas em caixas.

Cada tentativa era frustrada com a ameça de fuga de seu carrinho. Prontamente, parei para ajudá-lo. Segurei o carrinho até que ele terminasse de transferir as coisas para o carro. Ele agradeceu com um sorriso e nos despedimos.

Possivelmente, se não fosse eu, outra pessoa o ajudaria. Contudo, tive a sensação de que tinha de ser eu. Uma série de coincidências conduziram-me àquele aflito senhor. Talvez uma simples coincidência para os céticos; talvez o destino, para os crédulos; o fato é que isso me fez pensar na nossa existência, ou melhor, na nossa aparente insignificância. O que somos, senão o que plantamos?

Vivemos em um mundo globalizado, mas que, cada vez mais, vem tornando-se polarizado. A filosofia do bem e do mal, do certo e do errado, do tudo e do nada, dia após dia, torna as pessoas menos humanas, mais egoístas e mas frias. Os detalhes têm cada vez menos importância na vida do homem moderno.

Casos de agressões gratuitas multiplicam-se aos montes. Preconceito é o alimento da intolerância. Se alguém pertence a algum tipo de minoria ou de grupo não dominante, já é motivo para ter sua integridade física violada. Não existem mais sorrisos esporádicos, saudações joviais ou uma simples gentileza. O homem moderno vê seu semelhante como inimigo, o próximo como distante.

A comuna foi substituída pelo ego. Agora é cada um por si. O respeito acabou, a lhaneza acabou, a comunidade acabou. Rosas são arrancadas das roseiras para servir de enfeites, mas quando arrancadas elas morrem! O outro? Quem se importa? Enquanto eu e os meus estivermos alimentados, trabalhando e saudáveis, os outros que se explodam! Indivíduos individualistas e que só pensam no próprio umbigo reclamam, xingam e são adoradores da política do "faça o que eu digo, mas não faça o que eu faço". Uma tempestade de egoísmo!

É com uma triste frequência que notícias chocantes chegam até nós. Mortes, sequestros, latrocínios, tragédias... e por ser algo tão cotidiano, agora é algo banal. Notícias tétricas não causam a menor preocupação. Algumas poucas pessoas fogem dessas informações que nos perseguem diariamente, mas o contato com o cruel nos fez frios. A dor alheia, além de distante, é ínfima. A sensação de que não pode acontecer conosco é o estopim e o perigo.

O mundo está pálido e observá-lo com indulgência não o cromatizará. Precisamos pôr mais cor em nossas vidas e não apenas em momento especiais, é preciso colorir os detalhes. Encontrar mais os amigos e parentes, distribuir mais sorrisos pelas ruas, buscar ajudar o próximo, dar atenção a quem precisa, abraças mais, chorar mais, viver mais! A vida é tão delicada às vezes. É preciso saboreá-la, nada é mais importante do que as marcas que deixamos.

Seja bom, respeite os mais velhos, respeite quem pensa diferente de você, ponha mais amor e dedicação em seus afazeres. Se for uma boa pessoa, certamente será lembrado por muito tempo! Um sorriso seu pode salvar o dia de alguém ou deixá-lo mais colorido. Viva! Faça acontecer! Saboreie os detalhes. As melhores coisas da vida não são apenas coisas!

O autor é escritor, professor e servidor público.