| João Rosan/JC Imagens |
| Para Sonia Mozer, debate político está sendo despertado |
A população elegerá, dentro de uma semana, o novo presidente do País e, em alguns estados, haverá o segundo turno para governador, caso de São Paulo. Mais do que apenas ir para a votação, as pessoas deverão fiscalizar os novos ocupantes desses cargos a partir do ano que vem. O JC entrevistou o cientista político Bruno Pasquarelli, professor da Universidade do Sagrado Coração (USC), e a professora de História Sonia Mozer, do Colégio Rembrandt COC, dois especialistas que estão acompanhando o processo eleitoral deste ano. A disputa acontece entre os candidatos a presidente Jair Bolsonaro (PSL) e Fernando Haddad (PT). Para o governo do Estado de São Paulo, concorrem João Doria (PSDB) e Márcio França (PSB).
Na avaliação de Pasquarelli, o papel da sociedade acabará sendo até mesmo de oposição, independente da opção do eleitor. "A sociedade deve fazer uma oposição consciente. No dia seguinte da eleição, as pessoas devem ficar atentas como vai agir o eleito e, a partir do ano que vem, fazer uma oposição crítica, mesmo que seja o seu candidato que ganhe", afirma. Mozer também diz que é preciso manter atuação constante de fiscalização. "As pessoas deverão fiscalizar o governo, seja o presidente, deputados, juízes, eles prestam serviços para a população. As pessoas deveriam usar o tempo que gastam com fake news para cobrar as autoridades, por meio da Internet, enviando pedidos de informação e atuando como fiscal das ações do governo", cita.
Os dois professores veem ainda a necessidade de uma posição mais firme das instituições que atuam nos três poderes e da sociedade. "A gente tem mecanismos institucionais para evitar autoritarismos. Caso o Jair Bolsonaro seja eleito, vai contar com o apoio do Congresso e tem boa parte das Forças Armadas com ele. Saber de fato como as instituições vão funcionar é importante. O Bolsonaro poderá até ter maioria no Congresso, mas terá que negociar. Eu acredito que as instituições possam evitar um autoritarismo, mas os cidadãos deverão fazer papel de oposição, seja qual foi o presidente eleitor. Se o Haddad for eleito, a esquerda deverá cobrar, se o Bolsonaro for eleito, a direita deverá cobrar, não importa, a população terá um papel muito importante em fiscalizar o governo a partir das eleições", frisa Pasquarelli.
Na visão de Mozer, o teste das instituições já começou. "As instituições já estão sendo testadas, mas elas precisam de uma revisão. O Supremo Tribunal Federal (STF) e o Congresso devem rever suas atuações, as instituições são dinâmicas e precisam se atualizar, respeitando a nossa Constituição, modificar se necessário e com a vontade popular, e não de maneira impositiva. A gente precisa garantir a cidadania e a República, mas que a gente reveja as instituições. Eu tenho medo de uma ruptura no processo democrático, porque há países com muito tempo de democracia e gente ainda está no começo", lembra.
ECONOMIA
A política econômica do novo governo será outro ponto que ainda precisa de mais clareza, comenta Pasquarelli. "Nas propostas do Bolsonaro, o plano de governo na economia não é consensual na equipe dele. O Bolsonaro é nacionalista e o economista dele, o Paulo Guedes, é liberal. O PT teve vários erros no programa, que acabam consertando ao longo da campanha, um deles a proposta de chamar uma constituinte. Claramente era uma ideia do PT e não do candidato. Eles acabaram tirando isso. Ou seja, faltou essa discussão. Há posicionamentos dos candidatos que não estão claros para a população. A gente não sabe qual o direcionamento que a economia vai ter se o Bolsonaro ganhar. Caso o PT ganhe, a gente sabe mais o que deve acontecer com as políticas de economia e relações internacionais. A grande parte das pessoas não sabe o plano de governo dos candidatos", lamenta.
CIDADANIA
A professora Sonia Mozer vê o processo atual como positivo no aspecto de abrir discussão da política, mas negativo pela falta de ideias. "O processo em termos de cidadania é positivo. As pessoas estão vendo mais coisas de política. Mas há os dois lados: o bom é que a população está sendo despertada ao debate político, contudo, as pessoas estão fazendo uma avaliação mais passional do que racional", destaca.
Ela ainda cita a construção do processo democrático. "A gente ainda é uma nação quase analfabeta em consciência política, esse é um processo longo. Os países com uma convivência democrática mais antiga têm mais facilidade. A nossa República não veio acompanhada de democracia. A República Velha foi uma oligarquia. Depois, o Estado Novo com o Getúlio Vargas que foi uma ditadura, especialmente a segunda parte. Aí sim houve um breve período democrático de apenas 19 anos, com quatro eleições presidenciais. Mesmo nesse período, a gente teve um presidente que cometeu suicídio, um que renunciou e outro deposto por um golpe militar. Em seguida, foram 21 anos de ditadura. Uma geração inteira foi educada fora da democracia. Estamos vivendo de novo uma democracia há pouco mais de 30 anos. Ainda é um período muito curto se comparado a outros países. Ou seja, estamos sempre começando de novo", considera.
| Aceituno Jr. |
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