| Bernardo Boris Jorge Vargaftig: o verdadeiro descobridor dos anti-inflamatórios! |
Tenho mania de ser cuidadoso com a gratidão, visto que nunca conheci um ingrato que seja homem de bem. Procuro reverenciar os pioneiros do assunto nas aulas, trabalhos, teses e livros, mas quase não se diz mais como tudo se iniciou. Já foi quase lei os textos começarem assim: O primeiro a descrever este fenômeno, técnica ou conceito foi...!
Os primeiros trabalhos são conhecidos como "clássicos" da literatura. Nas grandes universidades, quando graduando ou pós-graduando inicia sua formação, recebe uma lista com "o clássico de cada ano" dos últimos 50 anos para se ler e discutir! Eu tenho artigos escolhidos em algumas dessas listas e isso me deixa feliz. Quando se escreve um texto científico se "reverencia" os artigos em que se estudou e embasou. Ser referência em artigos é reconhecimento. Tem revista que exige, no máximo, 10 referências e ainda as colocam em letras miúdas no final, quase que pedindo: não precisa ser grato e reconhecer o valor dos antecessores!
Em livros e aulas sobre inflamação, insiro fotos e um brevíssimo histórico dos autores da descoberta das substâncias que provocam a dor e dos medicamentos que nos aliviam deste terrível sintoma. Mas vou ter que refazer, pois a história veio me mostrar que não foi bem assim!
COMO ENSINEI!
Os mediadores que provocam primariamente a dor e edema na inflamação são as cininas, que atuam diretamente nas terminações nervosas. As cininas foram reveladas e apresentadas ao mundo por Maurício Rocha e Silva, um cientista e professor da USP de Ribeirão Preto. Reconhecido mundialmente, Rocha e Silva quase ganhou o Nobel de Medicina. Historiadores revelam que só não levou o Nobel porque outros brasileiros fizeram chegar à Academia Sueca de Ciências, outorgante do prêmio, informações inverídicas que inviabilizaram sua premiação! Lamentável.
A dor induzida pelas cininas provoca grande desconforto por 5 a 6h, quando diminui sua intensidade. Antes que aconteça, as células locais e inflamatórias que chegam do sangue, liberam grande quantidade de prostaglandinas que potencializam os efeitos das cininas. Elas potencializam a dor e edema por dias e até meses, enquanto houver agressores na região. Dentro das células, são produzidas aos milhões de moléculas por minuto. Quem desvendou quimicamente as prostaglandinas foram os cientistas suecos Sune K. Bergström e Bengt I. Samuelsson.
O desafio agora era descobrir os medicamentos para controlar a dor e edema. Sabia-se que a aspirina atuava, mas não como atuava! A descoberta revelou que estes remédios anti-inflamatórios inibem a síntese das prostaglandinas e ela foi atribuída a John Vane, farmacologista inglês que ganhou o Nobel em 1982, junto com os dois suecos. Na equipe de Vane, participou da descoberta um brasileiro e professor da USP, Sergio Ferreira.
AGORA SEI!
Alguns anos antes, um outro brasileiro, Bernardo Boris Vargaftig, mostrou seus escritos originais de um trabalho que foi rejeitado pela revista inglesa "Nature" e que revelava qual o mecanismo de ação da aspirina, o passo inicial para se criar as drogas anti-inflamatórias. O brasileiro era Sergio Ferreira, que levou uma cópia do trabalho e o mostrou para Vane, seu chefe. Logo depois, Vane publicou, junto com Sergio Ferreira e outros, os trabalhos com o mesmo conteúdo, e que lhe dariam o Nobel de Medicina. E na mesma revista "Nature". Inacreditável.
Além de rico, Vane ficou famoso, mais pedante e virou celebridade. Enquanto isto, Boris amargava a frustração pela não publicação, mas especialmente porque foi enganado e sem merecer sequer uma citação em referência do seu trabalho por parte de Vane. Em carta para Boris Vargaftig, muito tempo depois, o inglês Vane reconhece que se embasou na cópia do trabalho recebido de Sérgio Ferreira e que, em seu laboratório, apenas confirmou os resultados inicialmente descobertos por Boris. Em 2002, Boris voltou a trabalhar como pesquisador sênior na USP, agora com 81 anos.
O brasileiro Boris é quem deveria ganhar o Nobel e não Vane. Nobel se dá apenas para pessoas vivas e talvez reparar este erro ainda dê tempo. No meu livro, na terceira edição, eu vou corrigir esta história e nas minhas aulas eu já mudei!
Alberto Consolaro é professor titular da USP - Bauru. Escreve todos os sábados no JC.